sexta-feira, 6 de março de 2026

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas.

A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes invisíveis, histórias difíceis e batalhas que muitas pessoas sequer imaginam.

Por isso, talvez eu tenha aprendido a reconhecer algo raro neste mundo: quando alguém decide ficar.

Fernando não entrou na minha vida apenas para viver os dias leves. Ele entrou para caminhar comigo também nos dias difíceis. Nos dias de medo, nas incertezas da minha saúde, nas lágrimas que quase ninguém vê… ele esteve ali.

Nem sempre foi fácil.
Na verdade, quase nunca foi.

Mas, em meio a tantas lutas, encontrei alguém que segura a minha mão quando o mundo parece pesado demais.

Fernando não conhece apenas os meus sorrisos.
Ele conhece as minhas dores, as minhas fragilidades, os meus silêncios… e, ainda assim, escolhe permanecer.

E talvez seja exatamente isso que torna esse amor tão verdadeiro.

Porque amor de verdade não é aquele que aparece apenas nos dias bons.
Amor de verdade é aquele que permanece quando tudo fica difícil.

Em um mundo onde tantas pessoas vão embora com facilidade, eu agradeço por ter ao meu lado alguém que escolhe ficar.

0brigada por não soltar a minha mão. ❤️

terça-feira, 3 de março de 2026

A Invisibilidade que Não Me Pertence

Tem uma coisa que acontece às vezes quando estou ao lado do homem com quem compartilho a vida.
Algumas mulheres o cumprimentam com entusiasmo. Sorriso aberto, mão estendida, atenção inteira. Eu estou ali, ao lado. E, ainda assim, parece que não estou.
Estendo a mão… e ela não encontra outra.
Cumprimento… e o silêncio responde.
Durante um tempo eu me perguntei o porquê. Hoje não faço mais isso.
Aprendi que a forma como alguém trata outra mulher diz muito mais sobre quem age do que sobre quem recebe. Ignorar também é uma escolha. E quase nunca tem a ver com quem está sendo ignorada.
Eu não me ofendo. Não disputo espaço. Não preciso diminuir minha presença para que ninguém se sinta maior.
Eu sei quem eu sou. Sei o lugar que ocupo. E não preciso ser anunciada para ser percebida.
Se alguém decide não me ver, tudo bem. Isso não me apaga. A ausência de cumprimento não diminui o meu valor.
Existem mulheres que apertam mãos.
Outras medem território.
E existem aquelas que seguem firmes, tranquilas, sem precisar provar nada.
Eu escolhi seguir assim.
Com postura.
Com serenidade.
Com a consciência de que quem é inteira não se fragmenta por causa da indiferença de ninguém.
Algumas ignoram.
Eu continuo.
E continuar, com classe, é mais poderoso do que qualquer disputa silenciosa.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Há momentos em que a vida nos pede silêncio, calma e coragem para olhar para dentro. É nesse mergulho interior que encontramos a clareza que tanto buscamos. Assim como a água cristalina, escolho fluir leve, deixando que apenas o que é puro permaneça em mim.

Estou limpando o que não serve mais, organizando meus espaços internos e abrindo caminho para o novo que merece florescer. Esse é um processo de cura, de renovação, de escolha por mim mesma.

O que fica é força, paz e a certeza de que recomeçar é sempre possível. 
Gracciene Farias 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Trombofilia: o que é, quais são as causas e como ela impacta a vida das pessoas.


Por Gracciene Farias

Pouca gente conhece, mas a trombofilia pode causar sérios problemas de saúde se não for identificada e tratada a tempo. Ela é uma condição que deixa o sangue com maior tendência a formar coágulos, chamados de trombos, que podem bloquear os vasos sanguíneos e causar complicações graves, como a trombose e a embolia pulmonar.

O que é trombofilia?

Trombofilia é uma condição, que pode ser genética ou adquirida ao longo da vida, que faz com que o sangue tenha uma maior facilidade de coagular. Nosso corpo precisa desse equilíbrio para evitar sangramentos, mas quando o sangue coagula demais, pode ser perigoso.

Existem diferentes tipos de trombofilia. A mais comum é a hereditária, causada por alterações genéticas, como o fator V de Leiden, que atrapalha o corpo a dissolver coágulos. Também existem outras causas, como a falta de algumas proteínas que ajudam a controlar essa coagulação. Já a trombofilia adquirida pode aparecer por fatores como uso de anticoncepcionais hormonais, gravidez, obesidade, câncer e algumas doenças inflamatórias.

Causas e fatores de risco

A trombofilia pode ser causada por diferentes motivos, que geralmente se dividem em duas categorias: hereditária (genética) e adquirida. Entender esses motivos ajuda a saber quem está mais propenso e como se cuidar.

Hereditária:

Fator V de Leiden: mutação genética que dificulta o corpo a dissolver os coágulos.

Mutação na protrombina (Fator II): aumenta a produção de proteína que forma coágulos.

Deficiência de proteína C, proteína S e antitrombina: essas proteínas ajudam a controlar a coagulação. A falta delas aumenta o risco de trombose.


Adquirida:

Uso de anticoncepcionais hormonais e terapia de reposição hormonal: aumentam a chance do sangue coagular mais.

Gravidez e pós-parto: momento natural de maior coagulação para evitar sangramentos, mas com risco aumentado.

Obesidade: prejudica a circulação e facilita a formação de coágulos.

Cirurgias, principalmente ortopédicas: o corpo coagula mais para evitar sangramentos, mas pode formar trombos.

Imobilização prolongada: ficar muito tempo parado, como em viagens longas ou repouso, diminui o fluxo sanguíneo.

Doenças crônicas e inflamatórias: câncer, lúpus, síndrome antifosfolípide e outras.

Tabagismo: prejudica a circulação e aumenta o risco de coágulos.

Idade avançada: aumenta a chance de alterações na coagulação.

Infecções graves: algumas infecções, como a COVID-19, também podem elevar o risco.


Na maioria dos casos, a trombose acontece quando esses fatores se combinam. Por exemplo, alguém com trombofilia hereditária que usa anticoncepcionais e fica muito tempo parada tem risco maior.

Como a trombofilia impacta a vida?

A trombose pode deixar sequelas que dificultam a rotina, como dores, inchaço e problemas circulatórios. Em casos mais graves, pode levar à insuficiência venosa ou até à morte, se o coágulo chegar ao pulmão (embolia pulmonar).

Além dos sintomas físicos, conviver com trombofilia mexe com a saúde emocional, porque é preciso atenção constante, medicamentos e mudanças no estilo de vida. Para as mulheres, o cuidado é ainda maior, já que a trombofilia pode causar complicações na gravidez, como aborto espontâneo ou parto prematuro.

Como é feito o diagnóstico e o tratamento?

O diagnóstico começa com uma conversa detalhada sobre a saúde e a história da pessoa, seguida de exames de sangue específicos para detectar as alterações na coagulação.

O tratamento mais comum é o uso de anticoagulantes, que ajudam a evitar a formação de novos coágulos. Também é importante cuidar da alimentação, praticar exercícios e evitar fumar.

Por que é importante falar sobre trombofilia?

Muita gente não conhece essa condição, e isso atrasa o diagnóstico e o tratamento. Por isso, falar sobre trombofilia é essencial para que as pessoas fiquem atentas aos sinais e busquem ajuda rapidamente.

Minha história e missão

Eu convivo com trombofilia hereditária há anos, e sei bem os desafios que ela traz. Mas com acompanhamento, informação e cuidados, é possível ter qualidade de vida. Quero usar minha experiência para ajudar outras pessoas a entenderem a doença e se protegerem.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Eu só queria alguém…

Eu só queria alguém…

Eu só queria alguém que segurasse a minha bolsa
enquanto eu amarrava o cabelo.
Alguém que olhasse nos meus olhos com verdade,
e que não fizesse jogos sentimentais.

Que não testasse meus limites,
nem brincasse com o que sinto.
Meu coração já foi campo de guerra demais,
não quero mais batalhas dentro de mim.

Eu só queria alguém que entendesse meus silêncios,
que me escutasse até quando eu dissesse "tá tudo bem",
sabendo que nem sempre está.
Alguém que não desistisse na primeira curva,
que me escolhesse mesmo quando o mundo fosse difícil.

Porque, no fundo...
Eu só queria alguém que ficasse.
Mesmo quando eu dissesse que podia ir.
Alguém que enxergasse que meu jeito forte
é só uma armadura pra proteger a alma que sangra em silêncio.
Gracciene Farias 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

A Presença Feminina na Política Brasileira: Representatividade ou Cumprimento de Cota?

A Presença Feminina na Política Brasileira: Representatividade ou Cumprimento de Cota?
Gracciene Farias 

Introdução

Apesar dos avanços sociais e legislativos conquistados ao longo das últimas décadas, a política brasileira continua a refletir um cenário de desigualdade de gênero preocupante. Embora as mulheres representem a maioria do eleitorado (52,65%), sua presença nos cargos eletivos ainda é muito inferior à dos homens.

Em uma tentativa de reverter esse quadro, foi criada uma legislação que exige um mínimo de 30% de candidaturas femininas nas eleições proporcionais. No entanto, o que se tem visto, com frequência, é o uso distorcido dessa cota — candidaturas femininas lançadas apenas para cumprir a exigência legal, sem real apoio político ou intenção de elegê-las.

Este artigo analisa esse fenômeno, aprofunda os desafios enfrentados pelas mulheres na política brasileira e propõe soluções concretas para uma participação mais efetiva e transformadora.

1. A legislação de cotas no Brasil: avanços e limites

A política de cotas de gênero no Brasil foi formalizada com a Lei nº 9.504/1997, que estabelece que cada partido ou coligação deve reservar mínimo de 30% e máximo de 70% das candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais (vereador, deputado estadual, deputado federal).

Contudo, passadas mais de duas décadas, os resultados práticos ainda são modestos. Em 2022, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE):

Mulheres representaram 33,3% das candidaturas;

Mas ocuparam apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados;

E 15% no Senado Federal.

Esses números mostram que a legislação por si só não garante a efetividade da participação feminina. O desafio é garantir que essas candidaturas sejam reais, competitivas e apoiadas.

2. Candidaturas “laranjas” e o uso distorcido da cota

Com o objetivo de cumprir a lei sem comprometer recursos reais, muitos partidos políticos recorrem ao artifício das chamadas “candidaturas laranjas”. Nesses casos, mulheres são registradas como candidatas, mas:

Não recebem apoio financeiro do partido;

Não fazem campanha de verdade;

Recebem poucos ou nenhum voto.

Em 2018, o Ministério Público Eleitoral identificou diversos casos de candidatas que não tiveram nenhum voto, o que evidenciou fraudes. Recursos públicos destinados a essas campanhas femininas foram, em alguns casos, desviados para candidaturas masculinas.

3. Os desafios estruturais enfrentados pelas mulheres

A sub-representação feminina na política não pode ser explicada apenas pelas candidaturas fraudulentas. Há uma série de barreiras estruturais que dificultam a participação plena das mulheres, como:

a) Acesso desigual a financiamento

Mesmo quando são candidatas legítimas, muitas mulheres não recebem recursos suficientes do fundo eleitoral. Os partidos ainda priorizam, em grande maioria, os homens na distribuição dos valores.

b) Dupla ou tripla jornada

Grande parte das mulheres enfrenta a sobreposição de papéis: trabalho formal, cuidado com os filhos, tarefas domésticas. Essa sobrecarga limita o tempo disponível para articulação política, viagens, reuniões e campanhas.

c) Violência política de gênero

Muitas mulheres enfrentam violência simbólica, psicológica e institucional ao se lançarem na vida política. Isso inclui ameaças, ataques à imagem pessoal, difamações na imprensa e redes sociais, além de assédio por parte de correligionários e opositores.

d) Cultura patriarcal e machismo institucional

Ainda há uma visão arraigada de que política é "coisa de homem". Mulheres são frequentemente questionadas sobre sua capacidade, aparência ou papel como mães, e não sobre seus projetos políticos.


4. Caminhos para uma representatividade efetiva

A mudança desse cenário exige mais do que leis: é preciso transformar as estruturas partidárias, sociais e culturais. Algumas ações práticas que podem gerar impacto real incluem:

Capacitação e formação política para mulheres;

Financiamento equitativo e transparente;

Apoio institucional e logístico às candidatas;

Combate à violência política de gênero;

Transformação cultural e educação política.

Conclusão

A legislação de cotas foi um passo importante para corrigir desigualdades históricas, mas sua aplicação ainda está longe de ser eficaz. O uso de “candidaturas laranjas”, o baixo financiamento, a violência simbólica e o machismo estrutural limitam a presença real e transformadora das mulheres na política brasileira.

É urgente que as instituições, partidos e a sociedade abandonem as práticas simbólicas e assumam o compromisso com a participação genuína e plural das mulheres. Isso não é apenas uma questão de justiça social, mas também de fortalecimento da democracia.

Como ressalta a ONU Mulheres (2020):

“A equidade de gênero na política é uma questão de justiça e de fortalecimento da democracia.”



Referências

BIROLI, Flávia. Gênero e Desigualdades: limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

BRASIL. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997. Disponível em: https://www.planalto.gov.br

PIMENTEL, Silvia. Gênero, Democracia e Direitos Humanos. São Paulo: Cortez, 2021.

ONU Mulheres. Participação Política das Mulheres no Brasil: Avanços e Desafios. Brasília: ONU, 2020.

TSE – Tribunal Superior Eleitoral. Estatísticas de candidaturas por sexo. Disponível em: https://www.tse.jus.br

domingo, 22 de junho de 2025

Guerra entre Irã e Israel: como esse conflito pode afetar o Brasil e a vida de todos nós


Enquanto o mundo observa com tensão os confrontos entre Irã e Israel, muitas pessoas aqui no Brasil acham que isso está muito longe para nos atingir. Mas a verdade é que essa guerra já começa a afetar o nosso país, e não só na economia. Ela também mostra, mais uma vez, como as decisões de líderes em busca de poder acabam custando vidas inocentes.

Esse conflito, que tem raízes profundas e religiosas de milhares de anos, não deveria existir em um mundo que clama por paz. É uma disputa marcada por vinganças históricas, orgulho político e intolerância. E embora o envolvimento de potências como os Estados Unidos tenha acendido ainda mais os ânimos, a guerra não é deles. Eles se colocaram dentro dela, como já fizeram tantas vezes. Mas o coração da guerra está entre o Irã e Israel.

Quem sofre com isso tudo?

Por trás de bombas, armas e discursos inflamados, existem vidas sendo perdidas. Crianças, idosos, mulheres, homens comuns. Pessoas que não têm culpa. Famílias que perderam tudo em segundos. Gente que só queria viver, trabalhar, estudar, criar seus filhos em paz.

Essas pessoas, infelizmente, estão pagando o preço por decisões de governantes que pensam mais em controle e poder do que em humanidade. E essa dor, que parece distante, ecoa no mundo todo, inclusive aqui.

Mas o que isso tem a ver com o Brasil?

Você pode se perguntar: “como essa guerra afeta o Brasil?”
A resposta é: mais do que parece.

Mesmo longe da zona de conflito, o Brasil já sente, e ainda vai sentir, reflexos econômicos, sociais e políticos. Veja como:

1. Alta no preço do petróleo

O Irã é um grande produtor de petróleo. Com a guerra, existe o medo de que a produção ou o transporte seja prejudicado. Esse risco faz o preço do barril subir no mercado internacional.

Como isso afeta o Brasil?

A Petrobras segue o preço internacional.

Isso faz a gasolina, o diesel e o gás de cozinha ficarem mais caros.

Com o transporte mais caro, os produtos no mercado também sobem de preço.

A inflação aumenta e pesa principalmente no bolso dos mais pobres.


2. Dólar mais caro e instabilidade

Durante conflitos, investidores do mundo todo tiram dinheiro de países como o Brasil e buscam segurança em países mais ricos. Com isso, o dólar sobe por aqui.

Consequências diretas:

Produtos importados ficam mais caros (remédios, carros, eletrônicos).

Empresas que compram matéria-prima de fora gastam mais.

Viagens internacionais e tratamentos médicos ficam mais difíceis.

O custo de vida aumenta.


3. Menos investimento e mais insegurança

A guerra traz instabilidade. Com medo dos riscos, investidores adiam ou cancelam investimentos. Isso afeta diretamente a economia brasileira.

O que pode acontecer:

O governo arrecada menos e tem menos recursos para áreas como saúde, educação e infraestrutura.

Obras são paralisadas.

Programas sociais podem ser cortados ou adiados.

O desemprego pode crescer.


4. Riscos para as exportações brasileiras

Boa parte das exportações do Brasil passa por rotas comerciais internacionais. Se a guerra continuar ou se espalhar, rotas como o Canal de Suez podem ser afetadas, dificultando o transporte de mercadorias.

Impactos no Brasil:

Atrasos e custos maiores nas exportações.

Produtos brasileiros perdem competitividade.

Empresas perdem lucro.

Pode haver demissões em setores ligados ao comércio exterior.


O que podemos desejar agora?

Mais do que torcer por um lado ou por um país, o que o mundo precisa é de paz. Desejar que isso acabe logo, mesmo sabendo que não será fácil nem rápido. Porque, no fim das contas, quem mais sofre são os inocentes.

Enquanto líderes fazem guerra com discursos de fé ou patriotismo, são os órfãos, os feridos, os desabrigados e os mortos que pagam a conta. Religião e política, quando usadas sem empatia, são duas armas perigosas. E a história já provou isso muitas vezes.

Que a humanidade escolha parar. Que esse conflito acabe. E que a gente lembre que, antes de sermos de uma nação ou religião, somos todos seres humanos.
Gracciene Farias 

sábado, 21 de junho de 2025

Quando a vida ensina na pele, a luta vira missão

Não escolhi as lutas que carrego. Fui atravessada por elas.

Quando precisei de moradia digna, descobri o que é ser ignorada por um sistema que fecha os olhos para quem mais precisa.
Quando enfrentei o diagnóstico de trombofilia, entendi na pele como a saúde pública pode ser cruel com quem depende dela para sobreviver.
Quando minha mãe partiu, abracei o autismo como parte da minha vida e me tornei mãe de um irmão.
Quando enfrentei a burocracia para conseguir direitos básicos, percebi o quanto o caminho é mais difícil para quem não tem voz.

Essas vivências não me tornaram apenas  sobrevivente. Elas me fizeram entender que lutar por causas sociais não é um título, é uma responsabilidade com quem vive na pele o que muita gente só observa de longe.

Falo de habitação porque sei o que é precisar.
Falo de saúde porque luto por ela todos os dias.
Falo de autismo porque conheço cada desafio da rotina.
Falo de direitos sociais porque vi, por experiência própria, o quanto são negados a quem mais precisa.
E falo de trombofilia porque ela quase me calou, mas não conseguiu.

Minha história não é sobre vitimismo.
É sobre resistência.
E sobre transformar dor em voz.

Gracciene Farias 

O Direcionamento que Vem de Deus

Em minhas orações diárias, peço algo que se tornou uma regra para mim: que tudo aquilo que não for para mim, que não me fizer bem, que não vier de Deus, simplesmente se afaste da minha vida. Que vá embora de forma leve, sem causar dor, sem deixar saudade.

E sabe o que mais me surpreende? É que isso acontece. Pessoas, situações, lugares... às vezes desaparecem como se nunca tivessem estado ali. E eu nem sinto. Porque aquilo não era para mim. Não fazia parte do propósito. Não estava no caminho que Deus sonhou para a minha história.

A gente passa tanto tempo tentando manter por perto aquilo que, na verdade, só nos atrasa. E, por mais que doa, aprender a deixar ir é um gesto de fé. É confiar que o que é verdadeiro permanece. E o que vai embora, vai porque precisa.

Mais do que bênçãos, eu aprendi a pedir direcionamento. Porque bênção fora do tempo certo vira peso. E nenhuma conquista vale a pena se não for no tempo de Deus.

domingo, 15 de junho de 2025

O machismo de saia: quando a opressão fala com voz de mulher


Por Gracciene Farias

O machismo não se limita ao comportamento masculino. Ele é, na verdade, um sistema de crenças que atravessa toda a sociedade e que pode ser reproduzido por qualquer pessoa, inclusive mulheres. O mais doloroso é perceber que, muitas vezes, quem primeiro julga, deslegitima ou silencia a dor de outra mulher é alguém do próprio gênero. Esse fenômeno tem nome: misoginia internalizada, e é uma das formas mais eficazes de perpetuação da desigualdade de gênero.

Desde muito cedo, meninas são ensinadas a competir entre si, a desconfiar umas das outras e, principalmente, a se responsabilizar pelo comportamento dos homens. Já os meninos, muitas vezes, crescem sendo protegidos, servidos, e com poucas cobranças emocionais. Quem ensina isso? Frequentemente, a própria família e, nesse núcleo, muitas vezes, a figura materna.

Mas atenção: isso não significa que a mulher é culpada por formar homens machistas. O que os estudos apontam é que, dentro de uma estrutura patriarcal, a mulher também é socializada para sustentar esse sistema. Como diz a psicóloga e sexóloga Regina Navarro Lins, em diversos contextos, "a mulher reproduz a desigualdade porque também foi ensinada a vê-la como normal". A socióloga Eva Illouz, em Por que o amor dói, explica que os afetos e as relações são moldados pelo patriarcado, inclusive o modo como mães educam seus filhos.

A filósofa Simone de Beauvoir, já em 1949, afirmava: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Isso também vale para os homens. Eles também são moldados, e muitas vezes reforçados por mães, irmãs, esposas e companheiras que não tiveram acesso a outra forma de educar, amar e existir. Não por maldade, mas por sobrevivência.

As consequências disso se revelam em frases como:

“Ele traiu porque ela deixou de se cuidar.”

“Homem é assim mesmo, você tem que aguentar.”

“Ela apanhou, mas deve ter provocado.”

“Se ele foi embora, foi porque ela era difícil.”


Essas falas não são apenas conselhos — são expressões de um sistema que ensina a mulher a aceitar o inaceitável e a culpar outras mulheres por sofrerem.

Na psicologia social, a pesquisadora Susan Fiske mostrou que as pessoas tendem a reproduzir comportamentos do grupo dominante para serem aceitas. No caso das mulheres, muitas repetem o discurso machista como forma de evitar o julgamento social ou manter laços afetivos com figuras masculinas.

Mas é preciso romper com esse ciclo. Como diz a escritora Bell Hooks, “o patriarcado ensinou às mulheres a se odiarem”. Por isso, a sororidade — o apoio consciente entre mulheres é uma prática política e urgente. Precisamos de mulheres que acolham, que questionem estruturas, que não passem pano para o machismo por medo ou comodidade.

A mudança começa com pequenas atitudes: quando uma mulher decide não julgar outra. Quando escolhe não defender o indefensável. Quando ensina seus filhos que homens também devem lavar pratos, respeitar o não, cuidar do próprio corpo e ter empatia.

É só quando paramos de repetir o machismo com voz de mulher que conseguimos, de fato, ser livres.


Referências:

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1949.
HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Rosa dos Tempos, 2000.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala. Letramento, 2017.
LINS, Regina Navarro. A Cama na Varanda. Rocco, 2000.
FISKE, Susan T. Social Beings: Core Motives in Social Psychology. Wiley, 2004.
ILLOUZ, Eva. Por que o amor dói. Zahar, 2011.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Cada amor que passou por mim teve um som, um ritmo, uma letra.

O primeiro…
Ah, o primeiro amor a gente nunca esquece. Ele me dizia que eu era “diferente”. E eu repetia isso como um mantra, como se o mundo inteiro tivesse parado pra ouvir aquela nossa batida única. Ele cantava pra mim: "É diferente, é de verdade o que a gente sente". E foi mesmo. Um amor avassalador, que chegou rompendo as portas do peito e me fez acreditar em contos de fadas embalados por pagode.

Depois vieram outros…
Teve aquele que parecia me entender, mas me confundia. O cara das promessas vazias, dos sumiços inesperados. O clássico Maroto. Pra ele, só me restava cantar "Futuro Prometido", porque ele jurava um amanhã que nunca chegou. “E quando eu te ligar, vai ser pra dizer que eu tô voltando…”, mas nunca voltou.

Teve o amor que me fez sofrer tanto que parecia que o coração ia parar de bater. Foi quando ouvi “Sinais” e entendi tudo. “Os sinais que você não soube ver…”, ele me machucou com palavras caladas e atitudes barulhentas. Me ensinou que nem todo carinho é sincero, e nem toda companhia é presença.

E também existiu aquele relacionamento que foi bonito enquanto durou. Respeitoso, leve, mas acabou. A gente não brigou, só deixou de se encaixar. Com ele, a música era “Me Espera”. A vontade era de pedir pra esperar o tempo certo, mas o tempo, às vezes, não volta.

Teve ainda o quase amor. Aquele que tinha tudo pra dar certo, mas não deu. Ele chegou como tempestade, se foi como brisa. Ficou o refrão de “Instantes” ecoando: “Você foi um instante que valeu por mil”.

E claro, não posso esquecer daquele que partiu meu coração sem dó. Foi o verdadeiro maroto, no pior sentido. Mentiras, traições, promessas que evaporaram. Pra ele, deixo “Assim você mata o papai”, porque matou meus sentimentos com tanto descaso, mas não levou minha essência.

Hoje, eu olho pra trás e vejo que cada um foi uma música do Sorriso Maroto na minha história. Uns viraram trilha de superação, outros de saudade. Mas todos me ensinaram algo.

Porque no fim… o amor continua sendo minha canção favorita.
Gracciene Farias 

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Nem tudo que muda faz barulho, mas há silêncios que anunciam recomeços.

Não me pergunte se sou de direita ou de esquerda. Me pergunte se eu me importo. E sim, eu me importo!
Eu defendo políticas públicas porque sei que elas salvam vidas, garantem dignidade, mudam histórias.
Enquanto muita gente vira o rosto, eu escolhi olhar. Escolhi me envolver, me engajar, lutar.

Desde cedo, eu entendi que a dor do outro também é minha. E é por isso que não consigo ficar parada.
Eu acredito que ninguém solta a mão de ninguém, e quem está no poder precisa lembrar disso.

Não é sobre partido. É sobre gente!
Gracciene Farias 

terça-feira, 29 de abril de 2025

Nem tudo que muda faz barulho, mas há silêncios que anunciam recomeços.


Às vezes, as maiores transformações acontecem assim: quietas, discretas, quase invisíveis aos olhos de quem olha de fora. Não exigem anúncio, aplauso nem explicação. Apenas acontecem, no ritmo certo, no tempo da alma.

São decisões tomadas no silêncio da madrugada, entre um suspiro e outro. São escolhas pequenas que, somadas, mudam o rumo inteiro da estrada. São despedidas que não são ditas, mas sentidas. Ciclos que se encerram com um olhar diferente, uma resposta que não vem mais, uma presença que se recolhe.

É estranho, mas bonito. Porque crescer também é isso: não precisar provar nada, não ter que contar tudo, não correr pra mostrar a mudança. Às vezes, mudar é só... ir. E se transformar em silêncio é, muitas vezes, o gesto mais poderoso que existe.
Gracciene Farias 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A torta da minha mãe: memória viva e cheiro de aconchego

A torta capixaba, pra mim, tem gosto de infância, cheiro de tempero fresco, barulho de panela borbulhando e coração cheio de amor. Mas a torta que a minha mãe fazia não era como aquelas receitas cheias de frutos do mar nobres. A nossa torta era a torta possível, a que cabia no orçamento e transbordava afeto.

Ela aprendeu com a minha avó, que fazia tudo com as mãos e com o coração. A gente não tinha condição de comprar bacalhau, então usávamos peixe salgado mesmo, sardinha, repolho, palmito, muitos ovos, alho, cebola e tempero verde de monte. O cheiro já invadia o ar antes mesmo de ir pro forno.

Mas o mais bonito era o cenário. Não era na cozinha, era no quintal. Um quintal grande, aberto, com um pé de castanheira enorme, que fazia sombra pra tudo. Embaixo dessa castanheira, tinha uma mesa de madeira grande, de oito lugares, que era o nosso centro de tudo. Era ali que tudo acontecia: preparava, cozinhava, cortava, mexia, contava história e dava risada. Era como se a mesa fosse o altar, e a castanheira, nossa catedral natural.

Na castanheira, ainda tinha um balanço, onde às vezes a gente se distraía enquanto as coisas estavam sendo preparadas. Era uma infância simples, mas tão cheia de significado.

Lembro de ver minha mãe e minha avó cozinhando o palmito e o repolho com paciência, depois moendo tudo naquele moedor antigo pra tirar o excesso de água. Uma mexia, a outra temperava, e eu ali, pequena, observando tudo com olhos encantados.

Enquanto a torta ia pro forno, ninguém conseguia resistir. Sempre tinha aquele pedacinho "pra provar". E mesmo simples, era a torta mais gostosa do mundo. Porque ela era feita com amor, com cuidado, com aquele jeitinho de mãe e avó que transformava o pouco em tudo.
Gracciene Farias 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Eu sou o que restou, e o que resistiu.

Tantas coisas deram errado. Tantas vezes a vida me empurrou para o fundo, me deixou sem ar, sem chão, sem fé.
Mas de alguma forma… eu continuei. Eu fui o que sobrou dos destroços.
Poderia ter me tornado fria, cruel, amargurada. Eu tinha todos os motivos.
Mas, no meio do caos, escolhi sentir. Escolhi ser boa.

A força que carrego não nasceu de coragem.
Ela foi forjada no silêncio dos dias em que ninguém perguntou se eu estava bem.
Nas madrugadas em que a dor era tanta que o travesseiro parecia gritar comigo.
Ela nasceu das quedas que só eu sei o quanto doeram.
Das vezes em que me senti invisível, inútil, exausta…
Das noites em que o mundo pesava tanto sobre mim que até respirar era um esforço cruel.

Sim, sou feita de pedaços, mas pedaços que já se partiram.
Fragmentos de sonhos que quebraram, de amores que se foram, de promessas que não se cumpriram.
E mesmo assim, aqui estou. Carregando meu coração, remendado, mas ainda pulsando.

A vida me ensinou, do jeito mais duro, que o passado não se muda.
Mas o destino… o destino é meu.
E mesmo com medo, com dor, com as mãos trêmulas, eu continuo escrevendo a minha história.

Porque no fim, não se trata do que os outros enxergam.
Se trata do que a gente escolhe ser, quando ninguém está olhando.
E eu escolhi ser luz, mesmo quando só conheci a escuridão.
Gracciene Farias 

terça-feira, 15 de abril de 2025

A Realidade da Saúde Pública no Espírito Santo: A Urgência de um Sistema que Respeite a Vida.


A saúde pública no Espírito Santo atravessa uma grave crise que tem afetado diretamente a vida de milhares de capixabas. A situação precária de muitos Prontos Atendimentos (PA) da Grande Vitória, especialmente após o processo de terceirização da gestão dessas unidades, revela um cenário alarmante: pacientes desassistidos, profissionais despreparados ou despadronizados, ambientes insalubres e, em alguns casos, procedimentos arriscados realizados sem os devidos protocolos.

Nos municípios que compõem a Região Metropolitana, como Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana, relatos de usuários e denúncias públicas têm exposto problemas estruturais que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Em Vila Velha, por exemplo, após a terceirização dos PA, usuários têm denunciado o agravamento no atendimento, com reclamações que vão desde a longa espera até a falta de médicos, limpeza inadequada e ausência de profissionais devidamente uniformizados. A sensação de abandono passou a fazer parte da rotina de quem precisa de atendimento de urgência.

Em Vitória, a situação tem gerado preocupação entre os servidores da saúde, que se manifestaram contra a proposta de terceirização dos PAs municipais, destacando que as unidades geridas diretamente pela Secretaria de Saúde costumam ter avaliações mais positivas do que as já terceirizadas em municípios vizinhos. Moradores de Viana, Cariacica e Guarapari, onde o modelo terceirizado já está implantado, têm se deslocado até Vitória em busca de um atendimento mais digno, o que sobrecarrega ainda mais o sistema da capital.

Na Serra, a tentativa de terceirização da UPA de Serra-Sede foi fortemente criticada pela sociedade civil organizada e pelo Conselho Municipal de Saúde. Os argumentos se baseiam em experiências anteriores: as duas UPAs do município que já foram terceirizadas são frequentemente alvo de reclamações por parte da população. Em contrapartida, a única unidade sob gestão direta do município é a que recebe os melhores índices de satisfação entre os usuários.

Esse panorama se confirma também através de experiências vividas por cidadãos comuns, como a minha. Em duas ocasiões distintas, precisei buscar atendimento em unidades de pronto atendimento e vivenciei situações inaceitáveis. Profissionais sem qualquer identificação, técnicos de enfermagem com cabelos soltos, ambiente sujo e desorganizado. Acompanhando uma pessoa internada em uma sala semi-intensiva, presenciei um relato que me marcou profundamente: uma senhora teria sido entubada por um suposto profissional de saúde sem uniforme, sem qualquer preparo visível, usando roupas comuns. A entubação, um procedimento que requer urgência, mas também segurança e técnica, foi executada de forma improvisada e alarmante, segundo testemunhas presentes no local.

É preciso compreender que a saúde pública não pode ser tratada como um negócio. A terceirização da gestão de unidades de urgência e emergência, quando não acompanhada de critérios rigorosos de qualidade, fiscalização e compromisso com o serviço público, tem se mostrado ineficaz. O que era para ser uma solução tem, na prática, se transformado em um agravamento do problema.

A população capixaba merece um sistema de saúde humanizado, seguro e eficiente. É fundamental que o Governo do Estado e as prefeituras municipais ouçam os usuários e os profissionais da área antes de implementar medidas que impactam diretamente o direito à vida. Não podemos normalizar a precarização da saúde pública. Onde há risco para o cidadão, deve haver ação imediata do poder público.

O Espírito Santo precisa urgentemente repensar seu modelo de gestão na saúde. A vida não pode ser administrada como uma empresa, nem a dor das pessoas pode ser reduzida a números ou contratos. Saúde é direito, não mercadoria.
Gracciene Farias 
A saúde pública no Espírito Santo enfrenta desafios significativos que comprometem a qualidade e a eficiência dos serviços prestados à população. Relatos de negligência médica, infraestrutura inadequada e escassez de recursos humanos e materiais são recorrentes, evidenciando a necessidade urgente de reformas estruturais e investimentos substanciais no setor.

Casos de Negligência Médica

Diversos incidentes recentes ilustram falhas graves no atendimento médico no estado:

Morte de Adolescente em Vila Velha: Em abril de 2022, Kevinn Belo Tomé da Silva, de 16 anos, faleceu após esperar aproximadamente quatro horas por um leito de UTI no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba). A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) identificou negligência médica e afastou as médicas plantonistas envolvidas. 

Óbito de Criança em Pinheiros: Em março de 2023, Miqueias Ferreira Caetano, de 11 anos, morreu devido a complicações de pneumonia. A família acusou o Hospital Municipal de Pinheiros de negligência no atendimento, alegando demora e falta de cuidados adequados. 

Falecimento de Jovem em Ecoporanga: Gessik Dettmann Bello, de 32 anos, morreu em abril de 2023, e sua família acusou um médico da Fundação Médico Assistencial do Trabalhador Rural de Ecoporanga (Fumatre) de negligência, apontando demora no atendimento e falta de ações adequadas diante da gravidade do quadro. 

Erro Médico com Bebê em Muqui: Em agosto de 2022, a Justiça condenou o Estado do Espírito Santo e uma médica a indenizarem os pais de um bebê que morreu após ser extubado por engano por uma técnica de radiologia. 


Deficiências na Infraestrutura e Recursos Humanos

Além dos casos de negligência, o Espírito Santo enfrenta problemas estruturais significativos:

Redução de Leitos Hospitalares: Entre 2010 e 2018, o estado perdeu 322 leitos de internação pelo SUS, enquanto a população cresceu 14,3% no mesmo período. Apenas 66% dos municípios capixabas possuem leitos de internação hospitalar pelo SUS. 

Carência de Leitos no Interior: A falta de infraestrutura nos hospitais do interior sobrecarrega as unidades da Grande Vitória, resultando em longas filas e dificuldades no atendimento de pacientes que necessitam de tratamento especializado. 

Problemas na Saúde Mental: Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado revelou falhas críticas na Rede de Atenção Psicossocial, incluindo falta de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em diversos municípios, estruturas físicas inadequadas e equipes incompletas. 


Experiência Pessoal

Minha vivência pessoal reflete essas deficiências. Em duas ocasiões, ao buscar atendimento em Prontos Atendimentos (PAs), observei profissionais sem uniforme adequado, técnicos de enfermagem com cabelos soltos e procedimentos críticos sendo realizados por profissionais sem a devida identificação ou vestimenta apropriada. Em uma dessas situações, testemunhei uma paciente sendo entubada por um enfermeiro em trajes civis, evidenciando a falta de protocolos e higiene necessários.

Consequências e Necessidade de Reformas

Essas falhas resultam em desfechos trágicos e minam a confiança da população no sistema de saúde. É imperativo que as autoridades implementem reformas estruturais, invistam em infraestrutura adequada, promovam a capacitação contínua dos profissionais de saúde e estabeleçam mecanismos eficazes de fiscalização e responsabilização.

A saúde é um direito fundamental, e a garantia de um atendimento digno e eficiente deve ser prioridade. Somente com ações concretas e comprometimento será possível reverter esse cenário e assegurar que episódios de negligência e precariedade não se repitam.
Gracciene Farias 

terça-feira, 8 de abril de 2025

Carta ao Silêncio Que Me Habita

Querido silêncio,

Hoje, senti sua presença mais forte do que nunca. Ela chegou enquanto conversava com um amigo, falávamos de saúde, de cuidado, de ausências. Ele cuida de alguém que ama profundamente, e essa pessoa, que um dia foi ativa, cheia de vida, rodeada de amigos, hoje vive envolta por um vazio. O tempo e a doença afastaram o mundo.

E então, uma pergunta brotou em mim, silenciosa e cruel:
E se um dia for comigo?

Esse medo não é novo. Ele mora escondido em mim há tempos. Não é o medo da dor no corpo, é o medo de não ter a quem chamar. De depender e não encontrar mãos estendidas. De olhar pros lados e não ver ninguém.

Antes, eu tinha minha mãe. Ela era meu ninho. Sabia que, acontecesse o que fosse, ela estaria ali. Hoje, essa certeza partiu com ela. E embora aqui em casa sejamos eu e o Daniel, e ele preencha minha vida com amor, risos e força, eu sei que ele não está aqui para me carregar. Estou criando o Daniel para o mundo.

Com seus treze anos, ele já faz planos, sonha alto, fala de países que quer conhecer, de coisas que deseja viver. E eu incentivo. Porque quero vê-lo voar. Não o crio para ser meu apoio eterno, mas para ser livre. Quero que ele descubra caminhos que eu não conheci, veja paisagens que eu nunca vi, viva tudo o que a vida tem a oferecer.

E é por isso que esse medo cresce em mim. Porque, se um dia eu precisar... quem ficará?

Não quero amarrar ninguém com as correntes da necessidade. Mas às vezes, a solidão pesa. E tudo o que eu peço a Deus é que me mantenha de pé. Que eu continue tendo forças para viver com autonomia e dignidade.

Porque o que mais me assusta não é a enfermidade.
É o abandono disfarçado de esquecimento.
É o silêncio quando eu mais precisar de voz.
Com fé e esperança,
Gracciene Farias

segunda-feira, 17 de março de 2025

O Amor que Permanece

Em 1862, Victor Hugo, um dos grandes gênios da literatura mundial, escreveu Os Miseráveis e, entre tantas reflexões sobre a vida e a sociedade, deixou uma lição valiosa:

Pobres daqueles que só amam corpos, formas e aparências. A morte levará tudo deles. Procure amar almas, você as encontrará de novo.”

A beleza é efêmera, um reflexo passageiro no espelho do tempo. Hoje, a juventude brilha no rosto; amanhã, a vida se encarrega de apagar traços e sulcar histórias na pele. Afinal, o que é a formosura, senão uma simples caveira bem vestida? Quem se encanta apenas pela superfície está fadado à desilusão, pois tudo que é físico se desfaz.

O amor verdadeiro, no entanto, não se prende às aparências. Ele é feito de gestos, de presença, de entrega. Aimer, c'est agir. Amar é agir. É estar ao lado, é escolher o outro todos os dias, é cuidar quando o encanto da novidade se dissipa e só resta o essencial.

No fim, quando tudo se desfaz, apenas os laços genuínos permanecem. Quem aprende a enxergar além do que os olhos veem, descobre que as almas nunca se perdem, elas sempre se reencontram.
Gracciene Farias 
Se eu pudesse voltar no tempo...

Se eu pudesse voltar 30 anos no passado, eu hesitaria. Ficaria ali, na porta do tempo, olhando para trás com o coração acelerado. Porque, por mais que a saudade grite, eu teria medo de que qualquer passo diferente mudasse tudo o que tenho hoje. Mas se eu soubesse que nada se alteraria, que eu poderia apenas observar e sentir, eu iria.

Eu iria para abraçar mais a minha mãe. Para olhar nos olhos dela e dizer que a amava sem medo, sem orgulho, sem deixar para depois. Eu iria entender, antes mesmo de precisar entender, que o jeito dela tinha um porquê. Que as escolhas dela, certas ou erradas, sempre carregavam uma intenção: cuidar de mim. E se ainda hoje há coisas que não consigo aceitar, ao menos eu saberia que o amor sempre esteve lá.

Eu iria para a beira da maré com a minha avó mais uma vez. Sentiria o vento no rosto, o cheiro da água salgada, e seguraria sua mão enquanto buscávamos conchinhas e bonecas esquecidas na areia. Não importava se eram novas ou velhas, eram nossas. E eram momentos que, naquele tempo, pareciam tão simples, mas que hoje são alguns dos tesouros mais valiosos que carrego dentro de mim.

Eu também aproveitaria mais o tempo com meu pai. Porque, apesar de tudo, ele me ensinou muito. Me ensinou quase tudo que sei. Eu olharia para a versão pequena de mim mesma e diria: "Aprenda o máximo que puder, mas, acima de tudo, aproveite. Ele ainda estará aqui, e você ainda poderá amá-lo muito."

E, se pudesse, eu faria um pacto com meu irmão. Um pacto de amor, de proteção, de nunca deixar que nada nem ninguém nos afastasse. Porque o tempo passa rápido, e as palavras não ditas pesam mais que qualquer discussão. Eu o olharia nos olhos e diria: "Não importa o que aconteça, não vamos deixar nada nos separar."

Mas, apesar da saudade e das mudanças que eu gostaria de fazer no coração das pessoas, eu não mudaria minhas escolhas. Porque, se eu tivesse feito diferente, talvez não estivesse com minha mãe nos momentos mais difíceis, quando ela mais precisou de mim. Talvez o amor da minha vida não estivesse comigo hoje.

Por isso, eu voltaria, sim. Mas não para mudar o caminho. Apenas para amar mais.
Gracciene Farias 

domingo, 16 de março de 2025

Entre o Samba e a Sinfonia

Meu gosto musical é como a vida: cheio de contrastes e surpresas. Um dia estou sentada em um concerto de ópera, encantada com a grandiosidade das vozes e a força da orquestra. No outro, estou no samba, sentindo a batucada vibrar no peito, acompanhando o coro animado de um botequim.

De manhã, posso estar imersa em uma peça de Bach, deixando que a harmonia dos violinos embale meus pensamentos. À tarde, um pagodinho já está tocando na caixa de som, transformando qualquer momento em um convite para dançar. Meu coração pulsa no compasso da música clássica, mas também bate forte ao ritmo de um bom partido-alto.

E assim sigo, sem rótulos, sem limites. A música, para mim, é uma viagem sem destino fixo. Posso começar o dia com um piano melancólico e terminá-lo com um cavaquinho cheio de alegria. Cada melodia tem seu momento, cada ritmo tem seu encanto.

No fim, não importa o gênero, desde que a música toque a alma.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Páginas Viradas

O tempo passa, e com ele, os rostos mudam, os laços se desatam, os nomes se apagam. Olho para trás e percebo: as pessoas que estiveram comigo há dez anos já não estão mais. Algumas se foram porque assim quis o destino. Outras, porque assim quiseram ser. E de muitas, fui eu quem virou a página.

Não carrego rancor, nem saudades forçadas. Há nomes que nem lembro, histórias que não fazem falta. Outras, lembro porque estiveram ali desde o começo, quase família, embora o sangue não nos una. Mas laços antigos não são sinônimos de eternidade. Aprendi isso na prática, do jeito mais doloroso: maldade e covardia não combinam com permanência.

Mudei. Cresci. Hoje, não insisto em quem não me quer por perto. Não corro atrás, não mendigo presença. Se quiser ficar, que fique pelo que sou, não pelo que posso oferecer — até porque, não tenho nada além de mim mesma. Minha amizade, meu carinho. E isso deveria ser suficiente. Mas o mundo ensina, e às vezes, da forma mais dura: quase ninguém fica sem um interesse por trás.

E o que faço? Nada. Apenas sigo. Se percebo que estou dando meu melhor às pessoas erradas, apenas paro. Desapareço. Não há brigas, não há discussões. Só um silêncio definitivo. Uma ausência que fala por si. Sou boa em terminar. Sempre fui. Relacionamentos, amizades, ciclos. Tudo tem um ponto final quando precisa ter.

E assim sigo, sem peso, sem arrependimento. A vida é feita de chegadas e partidas. Algumas escolhas são minhas, outras não. Mas todas me trouxeram até aqui. E aqui, onde estou, é onde quero estar.
Gracciene Farias 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Os Pássaros que Não Cantam


Na minha casa, há dois passarinhos. Pequenos, frágeis, silenciosos. Eles não cantam. Não chilreiam pela manhã, não assobiam ao entardecer. Apenas vivem. Comem, bebem, tomam banho na água fresca que lhes ofereço. Mas não cantam.

Outro dia, alguém me perguntou que espécie eram. Não soube responder. Vieram de um vizinho, já acostumados à gaiola. Nunca conheceram o vento contra as asas, a liberdade de voar sem destino. Se eu os soltasse, talvez não sobrevivessem. São pássaros que não sabem ser livres.

“Não gosto de passarinho assim”, me disseram. “Nem teria dentro de casa.”

E eu pensei: é assim que o mundo funciona.

Os seres que não servem, que não encantam, que não têm uma utilidade visível, são descartáveis. Se não cantam, se não brilham, se não produzem, não são dignos de atenção. As pessoas querem ao redor apenas quem as agrada, quem lhes serve de alguma forma. Um passarinho que não canta é apenas um enfeite triste.

E os humanos? Não é tão diferente.

Enquanto somos úteis, somos amados. Enquanto somos produtivos, somos aceitos. Mas basta um silêncio, uma tristeza, uma fragilidade, e logo nos tornamos invisíveis. Quem quer por perto um pássaro que não canta? Quem quer por perto alguém que não tem mais forças para entreter, encantar ou servir?

Os meus passarinhos continuam ali, na mesma gaiola, comendo em paz, vivendo do jeito que sabem. Não precisam cantar para existir. Eu os alimento não pelo que podem me oferecer, mas porque a vida, por si só, já é um motivo para ser cuidada.

Se ao menos os humanos também fossem vistos assim.
Gracciene Farias

domingo, 9 de março de 2025

Maria, Maria. A força que me criou.

Maria, Maria. Nome forte, nome de luta. Nome de quem carrega o mundo nos braços e ainda encontra espaço para o amor. Mas a sua história, minha Maria, foi escrita com dor antes de ser escrita com amor.

Aos 7 anos, você foi arrancada da infância e lançada em um pesadelo. O manicômio que deveria tratar, torturava. O lugar onde esperavam que você perdesse a sanidade, na verdade, revelou sua resistência. Durante vinte anos, você sobreviveu ao Holocausto Brasileiro, à fome, ao frio, ao abandono. Sobreviveu à solidão imposta por aqueles que deveriam ter te protegido.

Mas Maria, Maria não se curva. Você não só sobreviveu, você viveu. Você saiu daquele inferno e construiu, com mãos marcadas pelo passado, um presente de amor e coragem. Você me ensinou que não importa o que fizeram com você, mas sim o que você faz com o que restou.

Maria, Maria é dor e é alegria. É lágrima e sorriso, é saudade e gratidão. Sua partida deixou um vazio que o tempo não preenche, mas sua essência ainda vive em mim, nos meus passos, nos meus sonhos, na minha luta diária.

Hoje, ao ouvir essa canção, sinto como se ela falasse de você. Da mulher que vendeu fumo na feira para garantir o pão, que enfrentou a vida de cabeça erguida, que me deu tudo o que podia, mesmo quando tinha pouco. Você foi força, foi ternura, foi coragem.

Maria, minha Maria, que saudade. Se pudesse, te daria mais um abraço demorado, te diria mais vezes o quanto te amo. Mas sei que, onde quer que esteja, você ainda me acompanha, me guia, me protege.

Porque Maria, Maria nunca se vai. Ela se transforma em luz e amor eterno.
Ana Maria dos Reis de Oliveira - Minha Maria.
🌻04.10.1932
🥀10.04.2019

(Inspirado na música "Maria, Maria
Canção de Milton Nascimento ‧ 1978")
Gracciene Farias 

sábado, 8 de março de 2025

 Neste Dia Internacional da Mulher, não há o que comemorar. Há o que reivindicar. Há o que mudar.


Por todas que vieram antes de nós.

Por todas que ainda virão.

E, principalmente, por todas que não tiveram a chance de continuar.

Quantas Vitórias ainda precisarão morrer? Quantas Aracelis?

O feminicídio continua.

O ataque contra as mulheres continua.

O preconceito contra as mulheres continua.

A desigualdade salarial continua.

E nós, mulheres, seguimos lutando para sobreviver em um mundo que insiste em nos matar.

Nesta semana, Vitória foi brutalmente assassinada. Jovem, cheia de sonhos, teve sua vida arrancada por homens que não aceitavam sua liberdade. Mataram-na por ciúmes, por ódio, porque ela ousou dizer "não". Dois ou três homens, a mando do ex-namorado, decidiram que ela não tinha mais o direito de existir.

Mas Vitória não foi a primeira. Araceli também não.

Araceli Cabrera Sánchez Crespo era apenas uma criança de oito anos quando foi sequestrada, violentada e morta por homens influentes no Espírito Santo, em 1973. Seu corpo foi encontrado seis dias depois, marcado pela crueldade dos agressores. E não, Araceli não usava roupas curtas, não provocava, não se "colocou em risco". Porque a violência contra meninas e mulheres nunca foi sobre a roupa, sobre o comportamento ou sobre "estar no lugar errado". Sempre foi sobre poder, sobre a crença de que nossos corpos não nos pertencem, sobre um sistema que protege os agressores e culpa as vítimas.

O feminicídio é uma das principais causas de morte de mulheres no Brasil. A cada seis horas, uma mulher é assassinada simplesmente por ser mulher. Os números são alarmantes e colocam o Brasil entre os países com as maiores taxas desse tipo de crime no mundo.

Diariamente, 140 mulheres são mortas no mundo por alguém da própria família. São mães, filhas, irmãs, amigas que perdem suas vidas dentro de suas próprias casas, vítimas daqueles que deveriam protegê-las. E, enquanto muitos tratam esses casos como "crimes passionais", a verdade é que são crimes de ódio, de posse, de poder.

O enfrentamento ao feminicídio não pode ser apenas uma luta das mulheres. Os homens, que são os principais agressores, também precisam fazer parte dessa mudança. Precisam reconhecer, refletir e agir para que a violência de gênero seja combatida desde a raiz.

Quantas Vitórias ainda precisarão morrer? Quantas Aracelis, Marielles, Marias? Quantas mães vão enterrar suas filhas? Quantas mulheres precisarão ter medo de terminar um relacionamento? De andar sozinhas? De simplesmente existir?

Não queremos flores no Dia da Mulher. Não queremos homenagens vazias enquanto nossos nomes são escritos em lápides. Queremos justiça, queremos mudanças, queremos viver.

Porque enquanto houver uma única mulher morta por ser mulher, a luta não pode parar.

Gracciene Farias 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Eu quero troca. E entendi que sou um lugar bom de se habitar...

Sou um canto tranquilo, desses que abraçam sem apertar. Falo o que me vem à cabeça, sem muito filtro. Sou dos tímidos que fazem questão de deixar o outro confortável. Do café coado no fim da tarde. 

Não tenho muito jeito para protocolos. Arrumo a cama toda manhã, mas me perco fácil num carinho demorado. Tenho tempestades que só quem já enfrentou entende. E vontades que, às vezes, me fazem esquecer que a vida acontece enquanto a gente tenta entender.

Acho que, no fundo, sou parecida com você. Fica, que você vai ver. Mas, se em algum momento percebermos que não combinamos, não precisa promessa, nem distanciamento forçado.

Eu quero paz, não pressa. Então, se sentir que precisa ir, segue sem peso. Mas, se quiser ficar, entra. Se demora. Fica à vontade. Eu passo um café. E sirvo ele quente.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Resenha de "Registros Multiformes do sentir", de José Roberto de Oliveira


Ler "Registros Multiformes do sentir", é como mergulhar em um rio de palavras que fluem entre poesia, conto e reflexão. O autor, José Roberto de Oliveira, nos leva a uma jornada que não é linear, mas cheia de nuances, pensamentos soltos que, ao se encontrarem, formam um mosaico da condição humana. Para mim, esse livro não é apenas uma obra literária, mas um convite ao sentir—e eu sei bem como a literatura tem esse poder de nos transformar.

Cada página traz um novo olhar, uma nova interpretação da realidade, quase como se José Roberto segurasse um espelho diante de nós e dissesse: “Veja-se por outros ângulos.” Há momentos em que a escrita nos acalenta, há outros em que nos provoca, nos sacode, nos tira do lugar-comum. A alternância entre os gêneros dá um dinamismo especial à obra—há contos que nos fazem refletir sobre as complexidades da vida e poesias que tocam fundo na alma, como se traduzissem sentimentos que nem sempre conseguimos colocar em palavras.

Minha conexão com esse livro vai além da leitura. Eu colaborei para que ele chegasse ao mundo, e isso faz com que cada linha tenha um significado ainda mais profundo. Sei o quanto a escrita pode ser um refúgio, uma forma de lidar com a dor, de entender o que parece não ter explicação. E sinto que "Registros Multiformes do sentir", tem essa força: ele não entrega respostas prontas, mas abre portas para que cada leitor encontre as suas próprias.

Se você gosta de livros que conversam diretamente com o coração, que te fazem refletir sobre a vida e sobre si mesmo, essa leitura é essencial. É o tipo de livro para ter sempre por perto, folhear de tempos em tempos e se surpreender com novos significados a cada releitura.

José Roberto de Oliveira nos presenteia com uma obra que não é apenas sobre pensar, mas sobre sentir—e, nesse aspecto, eu me vejo um pouco nela.

Gracciene Farias

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A Mulher Autossuficiente e o Peso do Silêncio

Ser uma mulher autossuficiente não é uma escolha. Muitas vezes, é uma necessidade imposta pela vida. É aprender, desde cedo, que ninguém virá resolver seus problemas, que as dores e desafios que você enfrenta são seus e de mais ninguém. E, quando se trata de relacionamentos – seja com amigos, familiares ou parceiros – a regra parece ser a mesma: cada um por si.

Vivemos em um mundo onde a individualidade se sobrepõe ao coletivo, onde o "cada um com seus problemas" se tornou o lema de muita gente. As pessoas não querem carregar o peso do outro, não querem se envolver, não querem sentir o incômodo de dividir as dificuldades. No máximo, cobram explicações. "Por que você está assim?" perguntam, como se a resposta fizesse alguma diferença. Você explica, fala sobre suas dores, suas lutas, sua exaustão. E, no fim, o que ouve é um simples "Ah, entendi". E nada muda.

O silêncio, então, se torna uma resposta. Quando uma mulher autossuficiente se cala, é porque a batalha interna é grande demais para ser expressa em palavras. Mas poucos percebem isso. Eles não notam que, por trás do sumiço, da falta de resposta ou da aparente frieza, existe alguém que já se cansou de pedir ajuda. Porque pedir ajuda e ser ignorada dói mais do que enfrentar o problema sozinha.

Curiosamente, a ajuda, quando vem, não costuma vir de quem está perto. Muitas vezes, são pessoas distantes, quase desconhecidos, que estendem a mão. Já aqueles que deveriam se importar, aqueles que convivem, aqueles que dizem se preocupar, estão ocupados demais para perceber a tempestade que se passa dentro de você.

E assim, a mulher autossuficiente segue. Não porque quer, mas porque precisa. Aprende a contar consigo mesma, a segurar as pontas, a se reconstruir quantas vezes for necessário. E, se em algum momento ela decide se afastar, desaparecer por um tempo, não é porque não quer contato. É porque já sabe que a maioria só quer saber o que está acontecendo, mas poucos realmente querem ajudar.
Gracciene Farias 

sábado, 25 de janeiro de 2025

Se Amar Primeiro: A Jornada da Autocura e do Amor Próprio


Em 2016, eu estava no fundo do poço. A morte da minha mãe, um acontecimento que mudou minha vida de forma irreversível, foi um golpe difícil de suportar. No mesmo ano, minha vida pessoal também estava em um turbilhão, e eu me vi perdida, sem saber quem eu era ou o que deveria fazer para seguir em frente. Durante esse período sombrio, uma conversa com uma pessoa muito especial marcou um ponto de virada em minha vida.

Ela me perguntou, em meio a tudo aquilo: "Gra, quem é a pessoa que você mais ama? " Eu, com o coração apertado e as emoções à flor da pele, respondi prontamente: "Eu amo o Daniel." Com uma calma que só alguém realmente sábio possui, ela olhou para mim e disse: "Não, você tem que se amar primeiro."

Naquele momento, suas palavras me tocaram profundamente, mas eu não compreendi de imediato o peso delas. Como assim, me amar primeiro? Eu estava no meio de uma dor que parecia não ter fim. A morte da minha mãe, a perda do que conhecia como normalidade, o vazio emocional que me consumia... Como poderia, naquele momento, pensar em mim? Como poderia colocar a mim mesma antes de todos, especialmente quando a dor da perda era tão grande?

Mas ela não estava dizendo que eu deveria abandonar o amor pelos outros ou me fechar para o mundo. O que ela me ensinou foi algo que levaria um tempo para entender: para amar verdadeiramente os outros, eu precisava aprender a me amar em primeiro lugar. Esse amor não é egoísmo. É autopreservação. É cuidar de si mesma para que, ao cuidar dos outros, você tenha o que oferecer.

Passei a refletir sobre isso e percebi que, por muito tempo, fui como uma vela acesa, queimando para iluminar os outros sem me preocupar com a minha própria chama. Eu me perdi tentando atender às necessidades de todos à minha volta, sem perceber que, ao fazer isso, estava me apagando aos poucos. O que aprendi naquele momento foi que o autocuidado não é um ato egoísta, mas sim uma necessidade fundamental. E quando cuidamos de nós mesmos, estamos mais fortes, mais inteiros e mais capazes de ser o apoio que outras pessoas precisam.

O amor próprio é uma prática diária. É escutar o que você precisa, fazer algo de bom para si, respeitar seus limites, cuidar da sua saúde mental e emocional. Às vezes, isso significa dar um passo atrás e se dar o tempo e o espaço necessários para curar as feridas que a vida nos impõe. Esse processo é contínuo e, aos poucos, fui reencontrando a força dentro de mim.

A morte da minha mãe e todos os desafios que enfrentei depois disso me ensinaram que a vida é imprevisível e, muitas vezes, dolorosa. Mas também me mostraram que, quando nos permitimos nos amar de verdade, encontramos forças para seguir em frente, mesmo quando tudo parece desabar. Entendi que não podia continuar sacrificando minha saúde emocional e mental em nome do cuidado com os outros. O cuidado com os outros deve começar com o cuidado de si mesma.

Essa reflexão, iniciada por aquela conversa transformadora, mudou minha vida. Ela me fez perceber que, embora o amor por outras pessoas seja essencial, o amor por si mesma é a base de tudo. Só podemos realmente oferecer amor, apoio e carinho aos outros quando somos capazes de oferecer isso a nós mesmos.

Hoje, olhando para trás, vejo o quanto essas palavras me ajudaram a crescer. Não foi fácil aprender a me colocar em primeiro lugar, especialmente em um momento tão doloroso da minha vida. Mas agora, com mais clareza, entendo o que minha amiga queria dizer: não podemos dar o que não temos. Se não nos amarmos primeiro, não podemos esperar ter amor para dar aos outros. O amor começa dentro de nós, e é a partir dele que conseguimos estender essa energia para quem nos cerca.

Foi assim que, de uma conversa simples e profunda, eu encontrei um caminho para o autocuidado, para a reconexão comigo mesma. As palavras daquela pessoa tão importante ainda ressoam em minha mente e, até hoje, me guiam. Elas se tornaram um lembrete constante de que, para seguir em frente, é necessário primeiro se acolher.

Essa frase, eu ouvi de uma amiga muito importante para mim. Joyce.
Pensar em si mesma primeiro não é um ato de egoísmo, mas de autopreservação. É como aquela instrução em um avião: colocar a máscara de oxigênio em você antes de ajudar os outros. Se você não está bem, emocionalmente, fisicamente ou mentalmente, fica mais difícil cuidar de quem depende de você.

Quando você prioriza suas necessidades, sua saúde e seu bem-estar, você se torna uma pessoa mais equilibrada e presente. Isso, no final, beneficia todos ao seu redor — seus pais, seu filho, amigos e até suas relações de trabalho.

Colocar-se em primeiro lugar não significa abandonar os outros; significa cuidar de você para que possa dar o melhor de si a eles. Afinal, como você pode dar amor, atenção ou suporte se está esgotada, infeliz ou negligenciando a si mesma?
 Gracciene Farias 

domingo, 19 de janeiro de 2025

MAR ( II )

Eu fui concebida no mar,
onde as ondas conhecem o destino
antes mesmo de ele ser escrito.
Nas águas salgadas, meu início foi soprado,
e o vento guardou meu primeiro sussurro.

Eu nasci onde o céu se espelha em azul,
onde o horizonte abraça o mundo.
Minha infância foi de conchas que sussurravam histórias,
de algas que dançavam como irmãs ao meu redor.
Eu corria pelas areias quentes,
meus pés marcando o chão
que logo seria apagado pela maré.

O Baiacu, meu amigo inflável,
era meu companheiro nos dias de aventura.
Com minhas mãos pequenas, eu o segurava,
sentindo sua confiança enquanto o devolvia ao mar.
Era como se ele soubesse que eu também era do oceano,
uma filha das águas.

Mas nem sempre o mar foi abrigo.
Ainda bebê, o sal conheceu meu choro.
No mesmo mar que me deu vida,
quiseram me tirar dela.
Mãos que deveriam proteger tentaram lançar-me
ao fundo do azul sem volta,
mas braços fortes e amorosos me salvaram,
arrancando-me da borda do abismo.
E o mar… o mar testemunhou,
guardou o silêncio como uma mãe que sabe demais.

Hoje, eu volto a ele, não com medo,
mas com a reverência de quem entende
que a vida pode nascer do mesmo lugar
onde quase se desfaz.
O mar é meu lar, meu destino,
e a prova de que, mesmo em sua fúria,
ele nunca deixou de me acolher.
Gracciene Farias 

MAR ( I )

 Eu fui concebida no mar,

nas águas que embalavam os sonhos

antes mesmo de serem meus.

Ali, entre correntes e brisas,

uma vida começou,

moldada pela calma das marés

e pela força do infinito.


Eu nasci onde a espuma beija a areia,

e o horizonte é sempre uma promessa.

Minha infância foi de pés descalços e sal na pele,

de correrias pela beira-mar,

onde as ondas sussurravam segredos

que só as crianças podiam ouvir.


As conchas eram minhas irmãs,

cada uma trazendo histórias em suas curvas.

As algas, minhas guardiãs,

se enroscavam em meus tornozelos

como quem diz: "Fique, você pertence a este lugar."


E o Baiacu…

Ah, ele era meu cúmplice, meu pequeno amigo.

Eu o segurava nas mãos,

sentia sua barriga inflar como um balão,

e com um sorriso, o devolvia ao seu mundo,

sabendo que ele voltaria para mim.


Minha casa era o azul que não termina,

onde o céu e o mar se encontram

sem nunca se separar.

Minha mãe, invisível aos olhos,

se fazia presente em cada onda,

em cada brisa que acariciava meu rosto.

Ela me ensinou que o mar é vida,

e que eu sou feita da mesma água

que se renova a cada maré.


Hoje, quando olho para o oceano,

vejo um reflexo de mim mesma.

Não importa quão longe eu vá,

o mar é minha raiz,

minha casa, meu lar eterno.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A Mulher e a Ausência do Lazer: Uma Reflexão Sobre o Direito de Existir Além das Obrigações.

Hobby. Essa palavra me pega desprevenida. Alguém me perguntou recentemente se eu tinha um, e a minha resposta veio rápida e seca: “Não.” Não porque não quero, mas porque nem sei o que isso significa para mim. A sensação que fica é a de que não tenho permissão para explorar esse espaço de prazer e leveza. E essa ausência não é só minha. É da minha mãe, da minha avó, e de tantas mulheres que conheço.

Quando somos jovens, talvez tenhamos hobbies. Pequenos prazeres, como dançar, desenhar, ouvir música sem pressa. Mas a vida chega com suas demandas, e o que era lazer se perde no caos. Depois vem o trabalho, o casamento, a casa, os filhos, as contas a pagar. De repente, o dia está lotado de tarefas e responsabilidades. E aí, onde cabe um hobby?

A mulher vive para todos, menos para si. Aprendemos isso pela repetição: vimos nossas mães e avós sacrificarem seus momentos, suas vontades, seus sonhos, em prol da família. A lista de coisas para fazer nunca acabava, e elas acreditavam que tirar um tempo para si era egoísmo. Hoje, repetimos esse padrão sem nem perceber. Fazemos tudo ao mesmo tempo, equilibrando mil pratos, mas esquecemos que também precisamos de tempo para respirar, para existir.

O mais triste é que, muitas vezes, nem sabemos mais o que gostamos. Perguntar “qual é o seu hobby?” se torna um convite incômodo para olhar para dentro e perceber que não temos uma resposta. Porque fomos educadas a acreditar que o tempo para nós mesmas é um luxo, e não uma necessidade.

Mas é urgente mudar essa narrativa. Precisamos reivindicar o direito de ter um hobby. Não para sermos mais produtivas ou para agradar aos outros, mas para nos reconectarmos com quem somos. Pode ser resgatar algo que amávamos na juventude ou descobrir algo completamente novo. Talvez seja ler sem culpa, pintar sem técnica, correr sem objetivo. O hobby é o espaço onde a mulher pode existir sem cobranças, sem listas de tarefas, sem prazos.

Eu também quero descobrir o meu hobby. Quando eu descibri venho aqui contar para vocês.
Quero aprender a me permitir. Não é fácil, mas é necessário. Porque nós, mulheres, merecemos mais do que viver para os outros. Merecemos viver por nós mesmas.
Gracciene Farias 

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Reflexão de Fim de Ano

Chega dezembro, e com ele, um peso que eu não consigo explicar. Parece que as festas de fim de ano, tão cheias de luz e celebração para muitos, acendem em mim uma chama de nostalgia e tristeza. Meu aniversário, Natal, Ano Novo... Não consigo celebrar como vejo as outras pessoas celebrarem. É como se essas datas me puxassem para dentro, para um espaço de introspecção que, embora necessário, também dói.

Hoje é 29 de dezembro, e eu fico pensando: O que eu ganhei? O que eu perdi? E por mais que, na ponta do lápis, os ganhos superem as perdas, há uma sensação de vazio que me abraça. Parece que estou perdendo tempo, perdendo anos. Olho para a idade que tenho e penso: Por que não consegui isso? Por que não cheguei lá?

O Ano Novo deveria ser um recomeço, mas para mim é mais uma continuação solitária. Eu vejo pessoas comprando roupas novas, planejando festas, compartilhando momentos com amigos e família. E eu? Eu me vejo deitada na cama, assistindo minha série preferida. Daniel talvez esteja acordado para me dar um abraço. Talvez não. E a verdade é que, além dele, não há ninguém para me ligar, me desejar um feliz ano novo, dizer que vai dar tudo certo. Não há aquele calor humano, aquela esperança compartilhada que muitos parecem ter.

Me pergunto: Por que isso me afeta tanto? Por que essas datas pesam tanto em mim? Eu não sei a resposta. Mas sei que é uma tristeza que acompanha o fim do ano, uma melancolia que me faz repensar tudo. Talvez, no fundo, seja uma cobrança excessiva. Talvez eu esteja esperando algo que nunca veio e que, por isso, já nem sei mais reconhecer.

O que eu queria, no fundo? Talvez alguém ao meu lado, segurando minha mão e me dizendo que tudo vai ficar bem. Alguém que me lembre que não importa o que eu fiz ou deixei de fazer neste ano, eu sou suficiente. Mas, por enquanto, o que eu tenho sou eu mesma. E o Daniel.

Pode não ser a celebração que os outros têm, mas talvez, apenas talvez, eu possa encontrar uma paz nisso. Fechar os olhos e aceitar que, mesmo sem fogos de artifício, mesmo sem grandes comemorações, eu sobrevivi a mais um ano. E isso, de alguma forma, já é um ganho.
Gracciene Farias 
2025 é como um novo jardim pronto para florescer, mas para que ele floresça cheio de cores e vida, precisamos arrancar as ervas daninhas. Essas ervas podem ser pessoas, hábitos ou situações que não nos permitem crescer. Elas estão ali, sugando nossa energia, mas não agregam nada de bom. É hora de pegar a enxada, cavar fundo e tirar o que não serve mais, plantando sementes de coisas boas e deixando espaço para o que realmente vai nos fazer florescer. Não adianta insistir em regar aquilo que nunca vai dar frutos. É um ano para cuidar do nosso solo interno, para fazer escolhas que nos alimentem e tragam novas possibilidades

domingo, 29 de dezembro de 2024

Chico Rei: Um Símbolo de Resistência, Liderança e Superação no Brasil Colonial.

 As Origens no Reino do Congo e o Reinado de Galanga

Chico Rei, ou Galanga, é uma das mais emblemáticas narrativas de resistência e superação durante o período colonial brasileiro. Embora envolta em elementos lendários, sua trajetória reflete a luta pela liberdade e a preservação da identidade cultural africana em terras estrangeiras.

Galanga, antes de ser conhecido como Chico Rei, foi um monarca respeitado no Reino do Congo, um dos mais poderosos e organizados reinos africanos da época. O Congo destacava-se por sua rica estrutura política, onde o rei (ou "mani") governava com o apoio de uma corte composta por chefes regionais e conselheiros. Galanga era não apenas um líder político, mas também espiritual, atuando como mediador em conflitos, protetor das tradições e defensor da justiça para seu povo.

O Reino do Congo vivia uma prosperidade baseada no comércio de marfim, cobre e outros bens, mas também enfrentava ameaças constantes de incursões estrangeiras. No século XVIII, o tráfico de escravizados intensificou-se na região, resultado de parcerias entre europeus e líderes locais que, sob coerção ou em busca de benefícios econômicos, participavam da captura de suas próprias populações.

 A Captura e a Viagem ao Brasil

Em uma das muitas incursões organizadas por comerciantes portugueses, Galanga, sua família e parte de sua corte foram capturados. A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social. O destino traçado para Galanga e os seus era cruel: seriam levados ao Brasil, onde enfrentariam os horrores da escravidão.

Durante uma cerimônia religiosa, Galanga, e parte da sua família foram capturados em uma emboscada organizada por traficantes portugueses, um evento trágico que marcaria o início de uma jornada de sofrimento e resistência. Ele, sua esposa Djalô, sua filha Itulo, e seu filho xxx e outros súditos foram embarcados em um tumbeiro (navio negreiro) rumo ao Brasil.

A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social.

A travessia pelo Atlântico a bordo dos navios negreiros, conhecidos como tumbeiros, representava um dos capítulos mais sombrios da diáspora africana. Homens, mulheres e crianças eram amontoados em porões apertados, sem ventilação ou condições mínimas de sobrevivência. Doenças como escorbuto, disenteria e febres eram comuns, e as mortes durante a viagem eram frequentes. A superstição dos marinheiros muitas vezes agravava o sofrimento dos cativos. Durante uma tempestade, Galanga assistiu impotente à sua esposa, a rainha Djalô, e sua filha, a princesa Itulo, serem lançadas ao mar em um ritual macabro para "acalmar os deuses".

 A Chegada ao Brasil e o Recomeço em Vila Rica

Em 1740, Galanga desembarcou no Rio de Janeiro, onde foi rebatizado com o nome de Francisco, uma prática comum entre os escravizadores que buscavam apagar as identidades originais dos africanos cativos. Francisco e seu filho Muzinga foram adquiridos por um proprietário de minas e enviados a Vila Rica, hoje Ouro Preto, em Minas Gerais. Lá, passaram a trabalhar na Mina da Encardideira, explorando ouro sob condições desumanas.

Nas minas, o trabalho era árduo e extenuante. Os escravizados emfretavam jornadas de até 16 horas, em túneis úmidos e sem iluminação adequada, arriscando suas vidas em desabamentos e no contato constante com substâncias tóxicas. Além disso, eram submetidos a castigos físicos severos e privados de qualquer direito básico. O trabalho nas minas era extenuante e desumano, eram constantemente vigiados para evitar qualquer tentativa de fuga ou rebelião.


Resistência, Estratégias e Acumulação de Riquezas

Mesmo sob condições extremas, Chico Rei destacou-se por sua inteligência e resiliência. Segundo relatos, ele utilizava estratégias para acumular pequenas quantidades de ouro. Uma das histórias mais conhecidas sugere que Chico escondia grãos de ouro em pó entre os cabelos e, ao final do dia, lavava-os para recuperar o metal. Apesar do risco, essa prática foi crucial para que ele conseguisse comprar sua liberdade e a de seu filho.

 A liberdade, no entanto, não era o fim da luta. Já liberto, Chico Rei passou a trabalhar como homem livre, acumulando riquezas suficientes para adquirir a própria Mina da Encardideira, rebatizada como Mina do Chico Rei. Esse feito extraordinário permitiu-lhe alforriar outros escravizados, muitos dos quais eram seus conterrâneos do Congo, fortalecendo os laços de solidariedade e resistência entre eles.

 

 Liderança Comunitária e Preservação Cultural

Reconhecido por sua liderança e carisma, Chico Rei tornou-se uma figura central na comunidade afrodescendente de Vila Rica. Sob sua orientação, os alforriados organizaram-se em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, figuras de grande importância para os negros no Brasil colonial. Em 1785, eles construíram a Igreja de Santa Efigênia, que se tornaria um símbolo da resistência cultural e religiosa dos afrodescendentes.

Além disso, Chico Rei desempenhou um papel crucial na preservação das tradições africanas por meio do Congado, uma manifestação cultural que mescla elementos da religiosidade africana com o catolicismo imposto pelos colonizadores. Essa celebração, que incluía danças, cantos e procissões, era uma forma de resistência e reafirmação da identidade cultural.

 Legado e Importância Histórica

 Chico Rei faleceu aos 72 anos, vítima de hepatite, mas seu legado perdurou. Seu filho, Muzinga, assumiu a liderança das celebrações do Congado, dando continuidade à tradição que Chico ajudou a estabelecer. Hoje, a história de Chico Rei é lembrada em diversas manifestações culturais e religiosas, como as festas do Congado e os desfiles em homenagem aos reis do Congo.

Embora sua existência não seja completamente documentada, Chico Rei tornou-se um símbolo de resistência e superação. Sua trajetória ilustra a capacidade humana de lutar por dignidade e liberdade mesmo nas condições mais adversas, inspirando gerações a valorizar a história e a cultura afrodescendente no Brasil.

Gracciene Farias

 

Referências

 1. Reis, João José. A História dos Escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

2. Silva, Eduardo França. "Chico Rei e a Resistência Afro-Brasileira." Revista Brasileira de História, vol. 25, 2006, pp. 17-45.

3. Oliveira, Ana Lúcia Araújo. Memória e Esquecimento: Os Afrodescendentes no Brasil. Brasília: Editora UnB, 2008.

4. Moura, Clóvis. História da Escravidão no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

5. Arquivo Histórico Nacional. Documentos sobre a mineração no século XVIII, Rio de Janeiro.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Meritocracia: Uma Realidade ou Um Mito no Brasil?

A meritocracia é frequentemente apresentada como um sistema ideal em que o sucesso depende exclusivamente do esforço, das habilidades e do mérito individual. Em teoria, ela pressupõe igualdade de oportunidades, onde todos podem atingir seus objetivos. Mas, no Brasil, um país marcado por desigualdades históricas e estruturais, será que a meritocracia realmente existe ou é apenas uma ilusão?

O que é meritocracia?
A meritocracia deriva das palavras "mérito", que significa merecimento, e "cracia", que significa poder. O conceito sugere que as conquistas de uma pessoa dependem exclusivamente de seu esforço e desempenho. No entanto, essa ideia ignora as barreiras sociais, econômicas e culturais que moldam as condições de vida e as oportunidades de cada indivíduo desde a infância.

Desafios desde a infância
A desigualdade de oportunidades não começa na vida adulta; ela já está presente na infância. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, ficou evidente como as condições familiares e sociais influenciam diretamente a trajetória de crianças e jovens.

Enquanto alguns estudantes tinham aulas online em computadores modernos, com suporte constante dos pais, outros lutavam para acessar o conteúdo em celulares compartilhados e, muitas vezes, sem internet. Além disso, muitos pais perderam sua renda durante a pandemia e precisaram priorizar a sobrevivência da família, enquanto seus filhos enfrentavam um cenário de aprendizado precário, marcado pelo estresse e pela insegurança.

Eu mesma venho de escola pública e enfrentei inúmeras dificuldades. Precisei trabalhar desde muito jovem e, ao mesmo tempo, estudar. Para mim, o caminho nunca foi fácil, e a realidade que vivenciei é muito diferente daquela de jovens que cresceram em famílias privilegiadas, com acesso a escolas de qualidade, cursos de idiomas e todo o suporte necessário para se destacar.

Desafios de ser mãe solo de uma criança autista
Como mãe solo de um menino autista, eu enfrento desafios diários. Trabalhar sempre foi uma tarefa complicada, especialmente quando meu filho era mais novo. Muitas vezes, eu precisava contratar alguém para cuidar dele, e uma parte significativa do meu salário era destinada a isso. Em outros momentos, a pessoa que eu contratava não podia ficar com ele, e eu me via sem alternativas.

Cheguei a chorar inúmeras vezes por me sentir presa entre duas escolhas impossíveis: ficar com meu filho e garantir que ele recebesse o cuidado necessário, ou ir trabalhar para sustentar a casa. Em algumas situações, precisei pedir ajuda a vizinhos para ficar com ele enquanto eu trabalhava, mas sabia que ninguém é obrigado a assumir essa responsabilidade. Esses momentos de desespero mostram como é desafiador para uma mãe solo equilibrar trabalho, cuidado e sobrevivência.

O mito da meritocracia no mercado de trabalho
Para ilustrar como a meritocracia é falha no Brasil, pensemos no seguinte exemplo: imagine uma vaga de gerência disputada por quatro candidatos.

1. O primeiro é um homem casado com filhos, cuja esposa cuida das crianças e do lar. Ele tem liberdade para trabalhar horas extras, fazer cursos e estar 100% disponível para a empresa.

2. O segundo é um homem gay, que pode enfrentar preconceito no ambiente corporativo, especialmente se o avaliador for conservador.

3. O terceiro é uma pessoa com deficiência física, que também enfrenta barreiras como falta de acessibilidade e estigmas.

4. Por fim, uma mãe solo, como eu, que não tem suporte familiar, precisa cuidar do filho e ainda equilibrar as demandas do trabalho.

Diante desse cenário, quem tem mais chances de ser escolhido? É evidente que o homem casado, com suporte familiar e total disponibilidade para a empresa, leva vantagem. Isso porque o sistema não leva em conta as desigualdades estruturais que colocam os demais candidatos em posição de desvantagem.

Por que a meritocracia é um mito?
A meritocracia pressupõe igualdade de condições, mas, na prática, ela ignora fatores como:

Origem socioeconômica: Crianças de famílias pobres têm menos acesso a recursos básicos como educação, saúde e tecnologia.

Preconceito estrutural: Grupos como mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência enfrentam barreiras adicionais no mercado de trabalho.

Falta de suporte familiar: Mães solo e pessoas que precisam cuidar de familiares têm menos tempo e recursos para investir em sua carreira.

Como avançar?
Para que a meritocracia deixe de ser um mito e se torne uma realidade, é necessário corrigir essas desigualdades estruturais. Isso inclui:

Investimento na educação pública: Garantir que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade, com infraestrutura e tecnologia adequadas.

Programas de apoio às mães solo: Criar políticas públicas que possibilitem o equilíbrio entre trabalho e cuidado com os filhos, como creches acessíveis e redes de apoio.

Inclusão no mercado de trabalho: Empresas devem adotar práticas que combatam preconceitos e promovam a diversidade.

No Brasil, o sucesso ainda depende mais de onde você nasce e das condições que você recebe do que do seu esforço individual. Sem mudanças estruturais profundas, a meritocracia continuará sendo um mito que beneficia apenas uma parcela privilegiada da sociedade.
Gracciene Farias

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

É válido sentir.

Sou feita de silêncios que gritam por dentro e memórias que dançam no tempo. Guardo mais do que falo, observo mais do que explico, e encontro poesia onde outros veem apenas o comum.

Sorrio sem porquê, talvez porque o simples ato de existir já seja razão suficiente. Carrego comigo o peso leve das palavras e o encanto das histórias que elas contam ao passar.

Escrevo sobre o que me toca: os abraços da saudade, os ecos do amor, as raízes da família e as marcas que o tempo traça com cuidado em minha alma.

Vivo para sentir – e sinto profundamente. Porque, no fim, o que importa é sentir. É isso que me mantém viva, e é isso que me inspira a escrever.
Gracciene Farias 
Às vezes, parece que o mundo está cheio de desencontros, não é? Tantas pessoas buscando conexão, mas poucas realmente dispostas a construir algo sólido e verdadeiro. Isso pode ser frustrante, especialmente quando sentimos que estamos sozinhos nessa busca.

Mas talvez o primeiro passo para encontrar o amor que tanto desejamos seja olhar para dentro. É comum sonharmos com alguém que nos complete, mas a verdade é que não somos metades. Somos inteiros. E, quando percebemos isso, quando investimos no nosso próprio amor e bem-estar, algo começa a mudar. A vida ganha um novo tom, e essa transformação atrai pessoas que estão na mesma sintonia.

O amor não é sobre encontrar alguém perfeito, mas sim alguém disposto. Alguém com força, coragem e comprometimento para caminhar ao nosso lado, aceitando os altos e baixos que a vida naturalmente traz.

Eu sei que não é fácil. Vivemos tempos em que muitos têm medo de responsabilidades, medo de amar de verdade. Homens inseguros, presos a dinâmicas familiares que os limitam ou sem ambição para construir algo significativo, são mais comuns do que gostaríamos de admitir. Mas isso não pode ser motivo para você desistir do que merece.

Continue acreditando que o amor que você deseja existe. Invista em você, na sua vida, no que te faz feliz. Porque, quando estamos inteiros, não apenas atraímos alguém, mas também aprendemos a escolher com quem queremos dividir a nossa caminhada.

E, enquanto essa pessoa não chega, celebre a sua jornada. Reconheça as suas conquistas e a força que já demonstrou até aqui. O amor que você busca lá fora sempre começa dentro de você. E o resto? O resto vem no tempo certo.
Gracciene Farias 

Refletir, hesitar e desistir: o peso de amar hoje

Vivemos tempos em que demonstrar amor parece um risco, quase um salto no escuro. Aparentemente, sentir demais é perigoso, e se importar virou sinônimo de fraqueza. Ninguém quer ser chamado de "emocionado". É como se abrir o coração colocasse a pessoa em desvantagem, como se a vulnerabilidade fosse algo a esconder e não a celebrar.

Mas como é possível amar sem mostrar o que se sente? O silêncio virou estratégia, e o afeto, um jogo de cartas marcadas. Não se pode ligar, porque isso demonstra interesse demais. Não se deve perguntar "como você está?", porque é invasivo. Aparentemente, amar hoje é andar sobre ovos, equilibrando cuidado e distância, sem jamais inclinar demais para um lado ou outro.

E assim, muitos se perdem. Quem sente de verdade fica esmagado entre o receio de parecer intenso e a frustração de parecer frio. Se fala, assusta. Se cala, parece desinteressado. E no meio desse paradoxo, o amor vai se perdendo, sufocado por um orgulho que ninguém admite, mas que todos cultivam.

Mas amar não deveria ser tão complicado. Não é sobre invadir o espaço de alguém, mas sobre mostrar que você se importa. Um "bom dia", uma mensagem simples, uma pergunta honesta: essas pequenas coisas são o que constroem um vínculo. Não é estar disponível o tempo inteiro, mas deixar claro que existe um espaço no seu dia para o outro.

Talvez o maior problema do amor moderno não seja a falta de sentimentos, mas o medo de mostrá-los. Sentir virou sinônimo de fraqueza, quando deveria ser motivo de orgulho. Porque o amor, em sua essência, é coragem: a coragem de se expor, de errar, de tentar.

Então, penso, hesito, e por fim, deixo de lado. Mas não o amor em si. Deixo de lado as regras, os jogos e as máscaras. Deixo a ideia de que é melhor fingir do que sentir. Se isso me torna "emocionado", que seja. Prefiro viver com intensidade a me esconder atrás de um muro de orgulho. Porque amar, no fim das contas, é isso: ter a coragem de ser humano em um mundo que insiste em endurecer.
Gracciene Farias 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A vida me fez caminhar por estradas que não escolhi, por becos escuros onde o chão parecia ceder a cada passo. Carrego comigo as marcas de uma batalha invisível, as cicatrizes de uma luta que poucos entendem, mas que moldou cada pedaço do que sou. Desde cedo, aprendi que o amor e a dor caminham juntos. Fui criada por mãos calejadas de cuidado, por uma avó que, sem saber ler ou escrever, leu minha alma e escreveu amor nas linhas da minha existência. Era ela quem enxugava minhas lágrimas, quem fazia do seu abraço o meu refúgio. E foi dela que herdei a coragem de enfrentar o mundo, mesmo quando o mundo me quebrava.

Crescer foi como andar sobre vidro. O peso das expectativas que nunca alcancei, os julgamentos que feriam mais fundo que palavras, e o silêncio de quem deveria estar ao meu lado foram sombras que me acompanharam. Quando a vida me ofereceu o amor de ser mãe, ela também me tirou esse sonho, não uma, mas quatro vezes. Perder um filho que nunca nasceu é perder um pedaço de si mesma é sentir o vazio de um berço que nunca foi preenchido e ouvir o eco de um choro que nunca veio. Essas perdas não me mataram, mas me reconstruíram. Só que cada nova versão de mim mesma parecia mais pesada, mais cheia de cicatrizes que não sei esconder."

"E então vieram as batalhas com meu próprio corpo, as dores que o mundo não vê. Meu sangue, que deveria ser a fonte da vida, tornou-se um inimigo silencioso, criando armadilhas dentro de mim. Já estive à beira do fim, respirando com dificuldade, enquanto meu coração insistia em continuar batendo. Por quê? Talvez porque algo dentro de mim ainda acredita na beleza da vida, mesmo quando ela insiste em me testar.

Hoje, olho para trás e não vejo uma história de vitórias, mas uma história de resistência. Não sou a heroína de um conto de fadas; sou a mulher que carrega seus pedaços e, mesmo assim, escolhe seguir em frente. Meu irmão, meu menino, minha razão de lutar, é o amor que me salva todos os dias. Ele me lembra que, mesmo nas tempestades mais fortes, sempre existe algo a proteger, algo pelo qual vale a pena lutar.

Se você está lendo isso, talvez esteja enfrentando suas próprias tempestades. E eu quero que saiba: você não está sozinho. A dor pode ser insuportável, mas ela também pode ser o solo onde plantamos novas esperanças. Não importa quantas vezes você caia, o importante é que você escolha se levantar. A vida não é sobre nunca sofrer; é sobre encontrar motivos para continuar, mesmo quando tudo parece perdido. Meu motivo é o amor. Qual é o seu?

Gracciene Farias 

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...