A torta capixaba, pra mim, tem gosto de infância, cheiro de tempero fresco, barulho de panela borbulhando e coração cheio de amor. Mas a torta que a minha mãe fazia não era como aquelas receitas cheias de frutos do mar nobres. A nossa torta era a torta possível, a que cabia no orçamento e transbordava afeto.
Ela aprendeu com a minha avó, que fazia tudo com as mãos e com o coração. A gente não tinha condição de comprar bacalhau, então usávamos peixe salgado mesmo, sardinha, repolho, palmito, muitos ovos, alho, cebola e tempero verde de monte. O cheiro já invadia o ar antes mesmo de ir pro forno.
Mas o mais bonito era o cenário. Não era na cozinha, era no quintal. Um quintal grande, aberto, com um pé de castanheira enorme, que fazia sombra pra tudo. Embaixo dessa castanheira, tinha uma mesa de madeira grande, de oito lugares, que era o nosso centro de tudo. Era ali que tudo acontecia: preparava, cozinhava, cortava, mexia, contava história e dava risada. Era como se a mesa fosse o altar, e a castanheira, nossa catedral natural.
Na castanheira, ainda tinha um balanço, onde às vezes a gente se distraía enquanto as coisas estavam sendo preparadas. Era uma infância simples, mas tão cheia de significado.
Lembro de ver minha mãe e minha avó cozinhando o palmito e o repolho com paciência, depois moendo tudo naquele moedor antigo pra tirar o excesso de água. Uma mexia, a outra temperava, e eu ali, pequena, observando tudo com olhos encantados.
Enquanto a torta ia pro forno, ninguém conseguia resistir. Sempre tinha aquele pedacinho "pra provar". E mesmo simples, era a torta mais gostosa do mundo. Porque ela era feita com amor, com cuidado, com aquele jeitinho de mãe e avó que transformava o pouco em tudo.
Gracciene Farias
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