quinta-feira, 19 de março de 2026

O assédio nem sempre começa com um toque. Às vezes ele começa com manipulação, insinuações, desconfortos silenciosos e tentativas de diminuir uma mulher até que ela mesma passe a duvidar da própria voz.
Durante muito tempo eu pensei se deveria falar sobre isso. Pensei em me calar, seguir minha vida e fingir que certas situações não me machucaram. Mas existem feridas que continuam abertas justamente porque ninguém fala sobre elas.

Eu participei da fundação do Fórum Metropolitano das Lideranças. Éramos três pessoas construindo aquele projeto, sonhando, planejando, fazendo reuniões e pensando em algo que realmente pudesse fortalecer lideranças no nosso estado.
Só que, no meio desse processo, comecei a sofrer assédio por parte de um dos coordenadores. Além das atitudes que me deixavam extremamente desconfortável, ele começou a falar coisas pesadas sobre mim para outra mulher que também fazia parte da coordenação. Entre essas falas, dizia que eu era “bipolar”, numa tentativa de descredibilizar minha fala, minhas emoções e até minha presença dentro do projeto.

Quando descobri tudo isso, me afastei. Porque muitas vezes a mulher não sai porque quer. Ela sai porque o ambiente faz ela acreditar que não existe mais espaço seguro para permanecer.
Depois, conversando com outras pessoas, ouvi algo que mexeu muito comigo: “Você não pode sair. Mulheres passam por isso todos os dias. Não podemos continuar permitindo.”
Aquilo me deu forças para tentar voltar. Conversei com a outra coordenadora acreditando que encontraria acolhimento e apoio. Mas ouvi dela exatamente a mesma fala usada contra mim. 
Ela disse que estava me “protegendo”, que eu era “bipolar”.
E talvez essa tenha sido uma das partes que mais me machucaram. Porque quando uma mulher é silenciada por um homem, dói. Mas quando outra mulher ajuda a silenciar, a ferida é ainda mais profunda.

E a violência não termina quando a mulher se afasta. Ela continua nos comentários, nas piadas e nas falas que tentam transformar dor em deboche.
Até hoje eu ainda escuto pessoas dizendo: “Você é o sonho de consumo dele.”
E toda vez que escuto isso, sinto como se tentassem apagar tudo o que vivi. Como se meu sofrimento fosse motivo de brincadeira. Como se a dor de uma mulher pudesse ser diminuída em uma frase.
E esses dias eu fui participar de um evento realizado pelo fórum. Porque apesar de toda dor, eu ainda gosto muito do projeto. Eu acredito no propósito que existia ali. Uma parte de mim ainda queria estar naquele espaço.
Durante o evento, essa mesma mulher foi apresentar a história do fórum e disse: “Nós começamos o fórum.”
Mas apontando para outra pessoa que sequer participou do início da construção do projeto.
Em nenhum momento ela falou meu nome. Em nenhum momento reconheceu minha participação. Em nenhum momento reconheceu tudo o que eu construí junto naquele começo.
E aquilo me atravessou mais uma vez.

Porque não foi esquecimento. Foi apagamento. Mais uma vez eu fui invalidada dentro da minha própria história.
E isso me fez pensar em quantas mulheres vivem exatamente a mesma coisa todos os dias. Mulheres que ajudam a construir projetos, movimentos, empresas, espaços políticos e ações sociais, mas depois são apagadas, diminuídas ou retiradas da narrativa.
E o mais triste é perceber que muitas vezes isso também parte de outras mulheres. Mulheres que preferem validar homens, exaltar homens e dar voz aos homens, enquanto silenciam outra mulher que estava ali desde o começo.
Isso não é só sobre mim. É sobre uma estrutura que ensina mulheres a desacreditarem umas das outras e a reproduzirem o mesmo machismo que um dia também as feriu.

Quem nunca passou por isso talvez não entenda o peso emocional que fica. A revolta, a impotência, o sentimento de injustiça e o cansaço de precisar provar o tempo inteiro que a sua dor existiu.
Porque quem sofre assédio não sai ilesa. As marcas ficam.
E talvez a pior delas seja perceber como ainda é difícil para uma mulher ser ouvida sem ser julgada, desacreditada ou transformada em piada.
Hoje eu não escrevo isso por vingança. Escrevo porque o silêncio também adoece. E porque talvez alguma mulher leia esse texto e perceba que ela não estava exagerando, não estava “louca” e nem “confundindo as coisas”.

Talvez ela só estivesse tentando sobreviver em ambientes que adoecem mulheres fortes.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas.

A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes invisíveis, histórias difíceis e batalhas que muitas pessoas sequer imaginam.Por isso, talvez eu tenha aprendido a reconhecer algo raro neste mundo: quando alguém decide ficar.

Fernando não entrou na minha vida apenas para viver os dias leves. Ele entrou para caminhar comigo também nos dias difíceis. Nos dias de medo, nas incertezas da minha saúde, nas lágrimas que quase ninguém vê, ele esteve ali. Nem sempre foi fácil. Na verdade, quase nunca foi.

Mas, em meio a tantas lutas, encontrei alguém que segura a minha mão quando o mundo parece pesado demais. Fernando não conhece apenas os meus sorrisos. Ele conhece as minhas dores, as minhas fragilidades, os meus silêncios… e, ainda assim, escolhe permanecer. E talvez seja exatamente isso que torna esse amor tão verdadeiro. Porque amor de verdade não é aquele que aparece apenas nos dias bons. Amor de verdade é aquele que permanece quando tudo fica difícil. Em um mundo onde tantas pessoas vão embora com facilidade, eu agradeço por ter ao meu lado alguém que escolhe ficar.

0brigada por não soltar a minha mão. 

terça-feira, 3 de março de 2026

A Invisibilidade que Não Me Pertence

Tem uma coisa que acontece às vezes quando estou ao lado do homem com quem compartilho a vida.
Algumas mulheres o cumprimentam com entusiasmo. Sorriso aberto, mão estendida, atenção inteira. Eu estou ali, ao lado. E, ainda assim, parece que não estou.
Estendo a mão… e ela não encontra outra.
Cumprimento… e o silêncio responde.
Durante um tempo eu me perguntei o porquê. Hoje não faço mais isso.
Aprendi que a forma como alguém trata outra mulher diz muito mais sobre quem age do que sobre quem recebe. Ignorar também é uma escolha. E quase nunca tem a ver com quem está sendo ignorada.
Eu não me ofendo. Não disputo espaço. Não preciso diminuir minha presença para que ninguém se sinta maior.
Eu sei quem eu sou. Sei o lugar que ocupo. E não preciso ser anunciada para ser percebida.
Se alguém decide não me ver, tudo bem. Isso não me apaga. A ausência de cumprimento não diminui o meu valor.
Existem mulheres que apertam mãos.
Outras medem território.
E existem aquelas que seguem firmes, tranquilas, sem precisar provar nada.
Eu escolhi seguir assim.
Com postura.
Com serenidade.
Com a consciência de que quem é inteira não se fragmenta por causa da indiferença de ninguém.
Algumas ignoram.
Eu continuo.
E continuar, com classe, é mais poderoso do que qualquer disputa silenciosa.

O assédio nem sempre começa com um toque. Às vezes ele começa com manipulação, insinuações, desconfortos silenciosos e tentativas de diminui...