Durante muito tempo eu pensei se deveria falar sobre isso. Pensei em me calar, seguir minha vida e fingir que certas situações não me machucaram. Mas existem feridas que continuam abertas justamente porque ninguém fala sobre elas.
Eu participei da fundação do Fórum Metropolitano das Lideranças. Éramos três pessoas construindo aquele projeto, sonhando, planejando, fazendo reuniões e pensando em algo que realmente pudesse fortalecer lideranças no nosso estado.
Só que, no meio desse processo, comecei a sofrer assédio por parte de um dos coordenadores. Além das atitudes que me deixavam extremamente desconfortável, ele começou a falar coisas pesadas sobre mim para outra mulher que também fazia parte da coordenação. Entre essas falas, dizia que eu era “bipolar”, numa tentativa de descredibilizar minha fala, minhas emoções e até minha presença dentro do projeto.
Quando descobri tudo isso, me afastei. Porque muitas vezes a mulher não sai porque quer. Ela sai porque o ambiente faz ela acreditar que não existe mais espaço seguro para permanecer.
Depois, conversando com outras pessoas, ouvi algo que mexeu muito comigo: “Você não pode sair. Mulheres passam por isso todos os dias. Não podemos continuar permitindo.”
Aquilo me deu forças para tentar voltar. Conversei com a outra coordenadora acreditando que encontraria acolhimento e apoio. Mas ouvi dela exatamente a mesma fala usada contra mim.
Ela disse que estava me “protegendo”, que eu era “bipolar”.
E talvez essa tenha sido uma das partes que mais me machucaram. Porque quando uma mulher é silenciada por um homem, dói. Mas quando outra mulher ajuda a silenciar, a ferida é ainda mais profunda.
E a violência não termina quando a mulher se afasta. Ela continua nos comentários, nas piadas e nas falas que tentam transformar dor em deboche.
Até hoje eu ainda escuto pessoas dizendo: “Você é o sonho de consumo dele.”
E toda vez que escuto isso, sinto como se tentassem apagar tudo o que vivi. Como se meu sofrimento fosse motivo de brincadeira. Como se a dor de uma mulher pudesse ser diminuída em uma frase.
E esses dias eu fui participar de um evento realizado pelo fórum. Porque apesar de toda dor, eu ainda gosto muito do projeto. Eu acredito no propósito que existia ali. Uma parte de mim ainda queria estar naquele espaço.
Durante o evento, essa mesma mulher foi apresentar a história do fórum e disse: “Nós começamos o fórum.”
Mas apontando para outra pessoa que sequer participou do início da construção do projeto.
Em nenhum momento ela falou meu nome. Em nenhum momento reconheceu minha participação. Em nenhum momento reconheceu tudo o que eu construí junto naquele começo.
E aquilo me atravessou mais uma vez.
Porque não foi esquecimento. Foi apagamento. Mais uma vez eu fui invalidada dentro da minha própria história.
E isso me fez pensar em quantas mulheres vivem exatamente a mesma coisa todos os dias. Mulheres que ajudam a construir projetos, movimentos, empresas, espaços políticos e ações sociais, mas depois são apagadas, diminuídas ou retiradas da narrativa.
E o mais triste é perceber que muitas vezes isso também parte de outras mulheres. Mulheres que preferem validar homens, exaltar homens e dar voz aos homens, enquanto silenciam outra mulher que estava ali desde o começo.
Isso não é só sobre mim. É sobre uma estrutura que ensina mulheres a desacreditarem umas das outras e a reproduzirem o mesmo machismo que um dia também as feriu.
Quem nunca passou por isso talvez não entenda o peso emocional que fica. A revolta, a impotência, o sentimento de injustiça e o cansaço de precisar provar o tempo inteiro que a sua dor existiu.
Porque quem sofre assédio não sai ilesa. As marcas ficam.
E talvez a pior delas seja perceber como ainda é difícil para uma mulher ser ouvida sem ser julgada, desacreditada ou transformada em piada.
Hoje eu não escrevo isso por vingança. Escrevo porque o silêncio também adoece. E porque talvez alguma mulher leia esse texto e perceba que ela não estava exagerando, não estava “louca” e nem “confundindo as coisas”.
Talvez ela só estivesse tentando sobreviver em ambientes que adoecem mulheres fortes.
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