segunda-feira, 17 de março de 2025

O Amor que Permanece

Em 1862, Victor Hugo, um dos grandes gênios da literatura mundial, escreveu Os Miseráveis e, entre tantas reflexões sobre a vida e a sociedade, deixou uma lição valiosa:

Pobres daqueles que só amam corpos, formas e aparências. A morte levará tudo deles. Procure amar almas, você as encontrará de novo.”

A beleza é efêmera, um reflexo passageiro no espelho do tempo. Hoje, a juventude brilha no rosto; amanhã, a vida se encarrega de apagar traços e sulcar histórias na pele. Afinal, o que é a formosura, senão uma simples caveira bem vestida? Quem se encanta apenas pela superfície está fadado à desilusão, pois tudo que é físico se desfaz.

O amor verdadeiro, no entanto, não se prende às aparências. Ele é feito de gestos, de presença, de entrega. Aimer, c'est agir. Amar é agir. É estar ao lado, é escolher o outro todos os dias, é cuidar quando o encanto da novidade se dissipa e só resta o essencial.

No fim, quando tudo se desfaz, apenas os laços genuínos permanecem. Quem aprende a enxergar além do que os olhos veem, descobre que as almas nunca se perdem, elas sempre se reencontram.
Gracciene Farias 
Se eu pudesse voltar no tempo...

Se eu pudesse voltar 30 anos no passado, eu hesitaria. Ficaria ali, na porta do tempo, olhando para trás com o coração acelerado. Porque, por mais que a saudade grite, eu teria medo de que qualquer passo diferente mudasse tudo o que tenho hoje. Mas se eu soubesse que nada se alteraria, que eu poderia apenas observar e sentir, eu iria.

Eu iria para abraçar mais a minha mãe. Para olhar nos olhos dela e dizer que a amava sem medo, sem orgulho, sem deixar para depois. Eu iria entender, antes mesmo de precisar entender, que o jeito dela tinha um porquê. Que as escolhas dela, certas ou erradas, sempre carregavam uma intenção: cuidar de mim. E se ainda hoje há coisas que não consigo aceitar, ao menos eu saberia que o amor sempre esteve lá.

Eu iria para a beira da maré com a minha avó mais uma vez. Sentiria o vento no rosto, o cheiro da água salgada, e seguraria sua mão enquanto buscávamos conchinhas e bonecas esquecidas na areia. Não importava se eram novas ou velhas, eram nossas. E eram momentos que, naquele tempo, pareciam tão simples, mas que hoje são alguns dos tesouros mais valiosos que carrego dentro de mim.

Eu também aproveitaria mais o tempo com meu pai. Porque, apesar de tudo, ele me ensinou muito. Me ensinou quase tudo que sei. Eu olharia para a versão pequena de mim mesma e diria: "Aprenda o máximo que puder, mas, acima de tudo, aproveite. Ele ainda estará aqui, e você ainda poderá amá-lo muito."

E, se pudesse, eu faria um pacto com meu irmão. Um pacto de amor, de proteção, de nunca deixar que nada nem ninguém nos afastasse. Porque o tempo passa rápido, e as palavras não ditas pesam mais que qualquer discussão. Eu o olharia nos olhos e diria: "Não importa o que aconteça, não vamos deixar nada nos separar."

Mas, apesar da saudade e das mudanças que eu gostaria de fazer no coração das pessoas, eu não mudaria minhas escolhas. Porque, se eu tivesse feito diferente, talvez não estivesse com minha mãe nos momentos mais difíceis, quando ela mais precisou de mim. Talvez o amor da minha vida não estivesse comigo hoje.

Por isso, eu voltaria, sim. Mas não para mudar o caminho. Apenas para amar mais.
Gracciene Farias 

domingo, 16 de março de 2025

Entre o Samba e a Sinfonia

Meu gosto musical é como a vida: cheio de contrastes e surpresas. Um dia estou sentada em um concerto de ópera, encantada com a grandiosidade das vozes e a força da orquestra. No outro, estou no samba, sentindo a batucada vibrar no peito, acompanhando o coro animado de um botequim.

De manhã, posso estar imersa em uma peça de Bach, deixando que a harmonia dos violinos embale meus pensamentos. À tarde, um pagodinho já está tocando na caixa de som, transformando qualquer momento em um convite para dançar. Meu coração pulsa no compasso da música clássica, mas também bate forte ao ritmo de um bom partido-alto.

E assim sigo, sem rótulos, sem limites. A música, para mim, é uma viagem sem destino fixo. Posso começar o dia com um piano melancólico e terminá-lo com um cavaquinho cheio de alegria. Cada melodia tem seu momento, cada ritmo tem seu encanto.

No fim, não importa o gênero, desde que a música toque a alma.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Páginas Viradas

O tempo passa, e com ele, os rostos mudam, os laços se desatam, os nomes se apagam. Olho para trás e percebo: as pessoas que estiveram comigo há dez anos já não estão mais. Algumas se foram porque assim quis o destino. Outras, porque assim quiseram ser. E de muitas, fui eu quem virou a página.

Não carrego rancor, nem saudades forçadas. Há nomes que nem lembro, histórias que não fazem falta. Outras, lembro porque estiveram ali desde o começo, quase família, embora o sangue não nos una. Mas laços antigos não são sinônimos de eternidade. Aprendi isso na prática, do jeito mais doloroso: maldade e covardia não combinam com permanência.

Mudei. Cresci. Hoje, não insisto em quem não me quer por perto. Não corro atrás, não mendigo presença. Se quiser ficar, que fique pelo que sou, não pelo que posso oferecer — até porque, não tenho nada além de mim mesma. Minha amizade, meu carinho. E isso deveria ser suficiente. Mas o mundo ensina, e às vezes, da forma mais dura: quase ninguém fica sem um interesse por trás.

E o que faço? Nada. Apenas sigo. Se percebo que estou dando meu melhor às pessoas erradas, apenas paro. Desapareço. Não há brigas, não há discussões. Só um silêncio definitivo. Uma ausência que fala por si. Sou boa em terminar. Sempre fui. Relacionamentos, amizades, ciclos. Tudo tem um ponto final quando precisa ter.

E assim sigo, sem peso, sem arrependimento. A vida é feita de chegadas e partidas. Algumas escolhas são minhas, outras não. Mas todas me trouxeram até aqui. E aqui, onde estou, é onde quero estar.
Gracciene Farias 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Os Pássaros que Não Cantam


Na minha casa, há dois passarinhos. Pequenos, frágeis, silenciosos. Eles não cantam. Não chilreiam pela manhã, não assobiam ao entardecer. Apenas vivem. Comem, bebem, tomam banho na água fresca que lhes ofereço. Mas não cantam.

Outro dia, alguém me perguntou que espécie eram. Não soube responder. Vieram de um vizinho, já acostumados à gaiola. Nunca conheceram o vento contra as asas, a liberdade de voar sem destino. Se eu os soltasse, talvez não sobrevivessem. São pássaros que não sabem ser livres.

“Não gosto de passarinho assim”, me disseram. “Nem teria dentro de casa.”

E eu pensei: é assim que o mundo funciona.

Os seres que não servem, que não encantam, que não têm uma utilidade visível, são descartáveis. Se não cantam, se não brilham, se não produzem, não são dignos de atenção. As pessoas querem ao redor apenas quem as agrada, quem lhes serve de alguma forma. Um passarinho que não canta é apenas um enfeite triste.

E os humanos? Não é tão diferente.

Enquanto somos úteis, somos amados. Enquanto somos produtivos, somos aceitos. Mas basta um silêncio, uma tristeza, uma fragilidade, e logo nos tornamos invisíveis. Quem quer por perto um pássaro que não canta? Quem quer por perto alguém que não tem mais forças para entreter, encantar ou servir?

Os meus passarinhos continuam ali, na mesma gaiola, comendo em paz, vivendo do jeito que sabem. Não precisam cantar para existir. Eu os alimento não pelo que podem me oferecer, mas porque a vida, por si só, já é um motivo para ser cuidada.

Se ao menos os humanos também fossem vistos assim.
Gracciene Farias

domingo, 9 de março de 2025

Maria, Maria. A força que me criou.

Maria, Maria. Nome forte, nome de luta. Nome de quem carrega o mundo nos braços e ainda encontra espaço para o amor. Mas a sua história, minha Maria, foi escrita com dor antes de ser escrita com amor.

Aos 7 anos, você foi arrancada da infância e lançada em um pesadelo. O manicômio que deveria tratar, torturava. O lugar onde esperavam que você perdesse a sanidade, na verdade, revelou sua resistência. Durante vinte anos, você sobreviveu ao Holocausto Brasileiro, à fome, ao frio, ao abandono. Sobreviveu à solidão imposta por aqueles que deveriam ter te protegido.

Mas Maria, Maria não se curva. Você não só sobreviveu, você viveu. Você saiu daquele inferno e construiu, com mãos marcadas pelo passado, um presente de amor e coragem. Você me ensinou que não importa o que fizeram com você, mas sim o que você faz com o que restou.

Maria, Maria é dor e é alegria. É lágrima e sorriso, é saudade e gratidão. Sua partida deixou um vazio que o tempo não preenche, mas sua essência ainda vive em mim, nos meus passos, nos meus sonhos, na minha luta diária.

Hoje, ao ouvir essa canção, sinto como se ela falasse de você. Da mulher que vendeu fumo na feira para garantir o pão, que enfrentou a vida de cabeça erguida, que me deu tudo o que podia, mesmo quando tinha pouco. Você foi força, foi ternura, foi coragem.

Maria, minha Maria, que saudade. Se pudesse, te daria mais um abraço demorado, te diria mais vezes o quanto te amo. Mas sei que, onde quer que esteja, você ainda me acompanha, me guia, me protege.

Porque Maria, Maria nunca se vai. Ela se transforma em luz e amor eterno.
Ana Maria dos Reis de Oliveira - Minha Maria.
🌻04.10.1932
🥀10.04.2019

(Inspirado na música "Maria, Maria
Canção de Milton Nascimento ‧ 1978")
Gracciene Farias 

sábado, 8 de março de 2025

 Neste Dia Internacional da Mulher, não há o que comemorar. Há o que reivindicar. Há o que mudar.


Por todas que vieram antes de nós.

Por todas que ainda virão.

E, principalmente, por todas que não tiveram a chance de continuar.

Quantas Vitórias ainda precisarão morrer? Quantas Aracelis?

O feminicídio continua.

O ataque contra as mulheres continua.

O preconceito contra as mulheres continua.

A desigualdade salarial continua.

E nós, mulheres, seguimos lutando para sobreviver em um mundo que insiste em nos matar.

Nesta semana, Vitória foi brutalmente assassinada. Jovem, cheia de sonhos, teve sua vida arrancada por homens que não aceitavam sua liberdade. Mataram-na por ciúmes, por ódio, porque ela ousou dizer "não". Dois ou três homens, a mando do ex-namorado, decidiram que ela não tinha mais o direito de existir.

Mas Vitória não foi a primeira. Araceli também não.

Araceli Cabrera Sánchez Crespo era apenas uma criança de oito anos quando foi sequestrada, violentada e morta por homens influentes no Espírito Santo, em 1973. Seu corpo foi encontrado seis dias depois, marcado pela crueldade dos agressores. E não, Araceli não usava roupas curtas, não provocava, não se "colocou em risco". Porque a violência contra meninas e mulheres nunca foi sobre a roupa, sobre o comportamento ou sobre "estar no lugar errado". Sempre foi sobre poder, sobre a crença de que nossos corpos não nos pertencem, sobre um sistema que protege os agressores e culpa as vítimas.

O feminicídio é uma das principais causas de morte de mulheres no Brasil. A cada seis horas, uma mulher é assassinada simplesmente por ser mulher. Os números são alarmantes e colocam o Brasil entre os países com as maiores taxas desse tipo de crime no mundo.

Diariamente, 140 mulheres são mortas no mundo por alguém da própria família. São mães, filhas, irmãs, amigas que perdem suas vidas dentro de suas próprias casas, vítimas daqueles que deveriam protegê-las. E, enquanto muitos tratam esses casos como "crimes passionais", a verdade é que são crimes de ódio, de posse, de poder.

O enfrentamento ao feminicídio não pode ser apenas uma luta das mulheres. Os homens, que são os principais agressores, também precisam fazer parte dessa mudança. Precisam reconhecer, refletir e agir para que a violência de gênero seja combatida desde a raiz.

Quantas Vitórias ainda precisarão morrer? Quantas Aracelis, Marielles, Marias? Quantas mães vão enterrar suas filhas? Quantas mulheres precisarão ter medo de terminar um relacionamento? De andar sozinhas? De simplesmente existir?

Não queremos flores no Dia da Mulher. Não queremos homenagens vazias enquanto nossos nomes são escritos em lápides. Queremos justiça, queremos mudanças, queremos viver.

Porque enquanto houver uma única mulher morta por ser mulher, a luta não pode parar.

Gracciene Farias 

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...