Na minha casa, há dois passarinhos. Pequenos, frágeis, silenciosos. Eles não cantam. Não chilreiam pela manhã, não assobiam ao entardecer. Apenas vivem. Comem, bebem, tomam banho na água fresca que lhes ofereço. Mas não cantam.
Outro dia, alguém me perguntou que espécie eram. Não soube responder. Vieram de um vizinho, já acostumados à gaiola. Nunca conheceram o vento contra as asas, a liberdade de voar sem destino. Se eu os soltasse, talvez não sobrevivessem. São pássaros que não sabem ser livres.
“Não gosto de passarinho assim”, me disseram. “Nem teria dentro de casa.”
E eu pensei: é assim que o mundo funciona.
Os seres que não servem, que não encantam, que não têm uma utilidade visível, são descartáveis. Se não cantam, se não brilham, se não produzem, não são dignos de atenção. As pessoas querem ao redor apenas quem as agrada, quem lhes serve de alguma forma. Um passarinho que não canta é apenas um enfeite triste.
E os humanos? Não é tão diferente.
Enquanto somos úteis, somos amados. Enquanto somos produtivos, somos aceitos. Mas basta um silêncio, uma tristeza, uma fragilidade, e logo nos tornamos invisíveis. Quem quer por perto um pássaro que não canta? Quem quer por perto alguém que não tem mais forças para entreter, encantar ou servir?
Os meus passarinhos continuam ali, na mesma gaiola, comendo em paz, vivendo do jeito que sabem. Não precisam cantar para existir. Eu os alimento não pelo que podem me oferecer, mas porque a vida, por si só, já é um motivo para ser cuidada.
Se ao menos os humanos também fossem vistos assim.
Gracciene Farias
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