terça-feira, 8 de abril de 2025

Carta ao Silêncio Que Me Habita

Querido silêncio,

Hoje, senti sua presença mais forte do que nunca. Ela chegou enquanto conversava com um amigo, falávamos de saúde, de cuidado, de ausências. Ele cuida de alguém que ama profundamente, e essa pessoa, que um dia foi ativa, cheia de vida, rodeada de amigos, hoje vive envolta por um vazio. O tempo e a doença afastaram o mundo.

E então, uma pergunta brotou em mim, silenciosa e cruel:
E se um dia for comigo?

Esse medo não é novo. Ele mora escondido em mim há tempos. Não é o medo da dor no corpo, é o medo de não ter a quem chamar. De depender e não encontrar mãos estendidas. De olhar pros lados e não ver ninguém.

Antes, eu tinha minha mãe. Ela era meu ninho. Sabia que, acontecesse o que fosse, ela estaria ali. Hoje, essa certeza partiu com ela. E embora aqui em casa sejamos eu e o Daniel, e ele preencha minha vida com amor, risos e força, eu sei que ele não está aqui para me carregar. Estou criando o Daniel para o mundo.

Com seus treze anos, ele já faz planos, sonha alto, fala de países que quer conhecer, de coisas que deseja viver. E eu incentivo. Porque quero vê-lo voar. Não o crio para ser meu apoio eterno, mas para ser livre. Quero que ele descubra caminhos que eu não conheci, veja paisagens que eu nunca vi, viva tudo o que a vida tem a oferecer.

E é por isso que esse medo cresce em mim. Porque, se um dia eu precisar... quem ficará?

Não quero amarrar ninguém com as correntes da necessidade. Mas às vezes, a solidão pesa. E tudo o que eu peço a Deus é que me mantenha de pé. Que eu continue tendo forças para viver com autonomia e dignidade.

Porque o que mais me assusta não é a enfermidade.
É o abandono disfarçado de esquecimento.
É o silêncio quando eu mais precisar de voz.
Com fé e esperança,
Gracciene Farias

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