terça-feira, 15 de abril de 2025

A Realidade da Saúde Pública no Espírito Santo: A Urgência de um Sistema que Respeite a Vida.


A saúde pública no Espírito Santo atravessa uma grave crise que tem afetado diretamente a vida de milhares de capixabas. A situação precária de muitos Prontos Atendimentos (PA) da Grande Vitória, especialmente após o processo de terceirização da gestão dessas unidades, revela um cenário alarmante: pacientes desassistidos, profissionais despreparados ou despadronizados, ambientes insalubres e, em alguns casos, procedimentos arriscados realizados sem os devidos protocolos.

Nos municípios que compõem a Região Metropolitana, como Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana, relatos de usuários e denúncias públicas têm exposto problemas estruturais que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Em Vila Velha, por exemplo, após a terceirização dos PA, usuários têm denunciado o agravamento no atendimento, com reclamações que vão desde a longa espera até a falta de médicos, limpeza inadequada e ausência de profissionais devidamente uniformizados. A sensação de abandono passou a fazer parte da rotina de quem precisa de atendimento de urgência.

Em Vitória, a situação tem gerado preocupação entre os servidores da saúde, que se manifestaram contra a proposta de terceirização dos PAs municipais, destacando que as unidades geridas diretamente pela Secretaria de Saúde costumam ter avaliações mais positivas do que as já terceirizadas em municípios vizinhos. Moradores de Viana, Cariacica e Guarapari, onde o modelo terceirizado já está implantado, têm se deslocado até Vitória em busca de um atendimento mais digno, o que sobrecarrega ainda mais o sistema da capital.

Na Serra, a tentativa de terceirização da UPA de Serra-Sede foi fortemente criticada pela sociedade civil organizada e pelo Conselho Municipal de Saúde. Os argumentos se baseiam em experiências anteriores: as duas UPAs do município que já foram terceirizadas são frequentemente alvo de reclamações por parte da população. Em contrapartida, a única unidade sob gestão direta do município é a que recebe os melhores índices de satisfação entre os usuários.

Esse panorama se confirma também através de experiências vividas por cidadãos comuns, como a minha. Em duas ocasiões distintas, precisei buscar atendimento em unidades de pronto atendimento e vivenciei situações inaceitáveis. Profissionais sem qualquer identificação, técnicos de enfermagem com cabelos soltos, ambiente sujo e desorganizado. Acompanhando uma pessoa internada em uma sala semi-intensiva, presenciei um relato que me marcou profundamente: uma senhora teria sido entubada por um suposto profissional de saúde sem uniforme, sem qualquer preparo visível, usando roupas comuns. A entubação, um procedimento que requer urgência, mas também segurança e técnica, foi executada de forma improvisada e alarmante, segundo testemunhas presentes no local.

É preciso compreender que a saúde pública não pode ser tratada como um negócio. A terceirização da gestão de unidades de urgência e emergência, quando não acompanhada de critérios rigorosos de qualidade, fiscalização e compromisso com o serviço público, tem se mostrado ineficaz. O que era para ser uma solução tem, na prática, se transformado em um agravamento do problema.

A população capixaba merece um sistema de saúde humanizado, seguro e eficiente. É fundamental que o Governo do Estado e as prefeituras municipais ouçam os usuários e os profissionais da área antes de implementar medidas que impactam diretamente o direito à vida. Não podemos normalizar a precarização da saúde pública. Onde há risco para o cidadão, deve haver ação imediata do poder público.

O Espírito Santo precisa urgentemente repensar seu modelo de gestão na saúde. A vida não pode ser administrada como uma empresa, nem a dor das pessoas pode ser reduzida a números ou contratos. Saúde é direito, não mercadoria.
Gracciene Farias 

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