Por Gracciene Farias
O machismo não se limita ao comportamento masculino. Ele é, na verdade, um sistema de crenças que atravessa toda a sociedade e que pode ser reproduzido por qualquer pessoa, inclusive mulheres. O mais doloroso é perceber que, muitas vezes, quem primeiro julga, deslegitima ou silencia a dor de outra mulher é alguém do próprio gênero. Esse fenômeno tem nome: misoginia internalizada, e é uma das formas mais eficazes de perpetuação da desigualdade de gênero.
Desde muito cedo, meninas são ensinadas a competir entre si, a desconfiar umas das outras e, principalmente, a se responsabilizar pelo comportamento dos homens. Já os meninos, muitas vezes, crescem sendo protegidos, servidos, e com poucas cobranças emocionais. Quem ensina isso? Frequentemente, a própria família e, nesse núcleo, muitas vezes, a figura materna.
Mas atenção: isso não significa que a mulher é culpada por formar homens machistas. O que os estudos apontam é que, dentro de uma estrutura patriarcal, a mulher também é socializada para sustentar esse sistema. Como diz a psicóloga e sexóloga Regina Navarro Lins, em diversos contextos, "a mulher reproduz a desigualdade porque também foi ensinada a vê-la como normal". A socióloga Eva Illouz, em Por que o amor dói, explica que os afetos e as relações são moldados pelo patriarcado, inclusive o modo como mães educam seus filhos.
A filósofa Simone de Beauvoir, já em 1949, afirmava: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Isso também vale para os homens. Eles também são moldados, e muitas vezes reforçados por mães, irmãs, esposas e companheiras que não tiveram acesso a outra forma de educar, amar e existir. Não por maldade, mas por sobrevivência.
As consequências disso se revelam em frases como:
“Ele traiu porque ela deixou de se cuidar.”
“Homem é assim mesmo, você tem que aguentar.”
“Ela apanhou, mas deve ter provocado.”
“Se ele foi embora, foi porque ela era difícil.”
Essas falas não são apenas conselhos — são expressões de um sistema que ensina a mulher a aceitar o inaceitável e a culpar outras mulheres por sofrerem.
Na psicologia social, a pesquisadora Susan Fiske mostrou que as pessoas tendem a reproduzir comportamentos do grupo dominante para serem aceitas. No caso das mulheres, muitas repetem o discurso machista como forma de evitar o julgamento social ou manter laços afetivos com figuras masculinas.
Mas é preciso romper com esse ciclo. Como diz a escritora Bell Hooks, “o patriarcado ensinou às mulheres a se odiarem”. Por isso, a sororidade — o apoio consciente entre mulheres é uma prática política e urgente. Precisamos de mulheres que acolham, que questionem estruturas, que não passem pano para o machismo por medo ou comodidade.
A mudança começa com pequenas atitudes: quando uma mulher decide não julgar outra. Quando escolhe não defender o indefensável. Quando ensina seus filhos que homens também devem lavar pratos, respeitar o não, cuidar do próprio corpo e ter empatia.
É só quando paramos de repetir o machismo com voz de mulher que conseguimos, de fato, ser livres.
Referências:
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1949.
HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Rosa dos Tempos, 2000.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala. Letramento, 2017.
LINS, Regina Navarro. A Cama na Varanda. Rocco, 2000.
FISKE, Susan T. Social Beings: Core Motives in Social Psychology. Wiley, 2004.
ILLOUZ, Eva. Por que o amor dói. Zahar, 2011.
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