terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Reflexão de Fim de Ano

Chega dezembro, e com ele, um peso que eu não consigo explicar. Parece que as festas de fim de ano, tão cheias de luz e celebração para muitos, acendem em mim uma chama de nostalgia e tristeza. Meu aniversário, Natal, Ano Novo... Não consigo celebrar como vejo as outras pessoas celebrarem. É como se essas datas me puxassem para dentro, para um espaço de introspecção que, embora necessário, também dói.

Hoje é 29 de dezembro, e eu fico pensando: O que eu ganhei? O que eu perdi? E por mais que, na ponta do lápis, os ganhos superem as perdas, há uma sensação de vazio que me abraça. Parece que estou perdendo tempo, perdendo anos. Olho para a idade que tenho e penso: Por que não consegui isso? Por que não cheguei lá?

O Ano Novo deveria ser um recomeço, mas para mim é mais uma continuação solitária. Eu vejo pessoas comprando roupas novas, planejando festas, compartilhando momentos com amigos e família. E eu? Eu me vejo deitada na cama, assistindo minha série preferida. Daniel talvez esteja acordado para me dar um abraço. Talvez não. E a verdade é que, além dele, não há ninguém para me ligar, me desejar um feliz ano novo, dizer que vai dar tudo certo. Não há aquele calor humano, aquela esperança compartilhada que muitos parecem ter.

Me pergunto: Por que isso me afeta tanto? Por que essas datas pesam tanto em mim? Eu não sei a resposta. Mas sei que é uma tristeza que acompanha o fim do ano, uma melancolia que me faz repensar tudo. Talvez, no fundo, seja uma cobrança excessiva. Talvez eu esteja esperando algo que nunca veio e que, por isso, já nem sei mais reconhecer.

O que eu queria, no fundo? Talvez alguém ao meu lado, segurando minha mão e me dizendo que tudo vai ficar bem. Alguém que me lembre que não importa o que eu fiz ou deixei de fazer neste ano, eu sou suficiente. Mas, por enquanto, o que eu tenho sou eu mesma. E o Daniel.

Pode não ser a celebração que os outros têm, mas talvez, apenas talvez, eu possa encontrar uma paz nisso. Fechar os olhos e aceitar que, mesmo sem fogos de artifício, mesmo sem grandes comemorações, eu sobrevivi a mais um ano. E isso, de alguma forma, já é um ganho.
Gracciene Farias 
2025 é como um novo jardim pronto para florescer, mas para que ele floresça cheio de cores e vida, precisamos arrancar as ervas daninhas. Essas ervas podem ser pessoas, hábitos ou situações que não nos permitem crescer. Elas estão ali, sugando nossa energia, mas não agregam nada de bom. É hora de pegar a enxada, cavar fundo e tirar o que não serve mais, plantando sementes de coisas boas e deixando espaço para o que realmente vai nos fazer florescer. Não adianta insistir em regar aquilo que nunca vai dar frutos. É um ano para cuidar do nosso solo interno, para fazer escolhas que nos alimentem e tragam novas possibilidades

domingo, 29 de dezembro de 2024

Chico Rei: Um Símbolo de Resistência, Liderança e Superação no Brasil Colonial.

 As Origens no Reino do Congo e o Reinado de Galanga

Chico Rei, ou Galanga, é uma das mais emblemáticas narrativas de resistência e superação durante o período colonial brasileiro. Embora envolta em elementos lendários, sua trajetória reflete a luta pela liberdade e a preservação da identidade cultural africana em terras estrangeiras.

Galanga, antes de ser conhecido como Chico Rei, foi um monarca respeitado no Reino do Congo, um dos mais poderosos e organizados reinos africanos da época. O Congo destacava-se por sua rica estrutura política, onde o rei (ou "mani") governava com o apoio de uma corte composta por chefes regionais e conselheiros. Galanga era não apenas um líder político, mas também espiritual, atuando como mediador em conflitos, protetor das tradições e defensor da justiça para seu povo.

O Reino do Congo vivia uma prosperidade baseada no comércio de marfim, cobre e outros bens, mas também enfrentava ameaças constantes de incursões estrangeiras. No século XVIII, o tráfico de escravizados intensificou-se na região, resultado de parcerias entre europeus e líderes locais que, sob coerção ou em busca de benefícios econômicos, participavam da captura de suas próprias populações.

 A Captura e a Viagem ao Brasil

Em uma das muitas incursões organizadas por comerciantes portugueses, Galanga, sua família e parte de sua corte foram capturados. A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social. O destino traçado para Galanga e os seus era cruel: seriam levados ao Brasil, onde enfrentariam os horrores da escravidão.

Durante uma cerimônia religiosa, Galanga, e parte da sua família foram capturados em uma emboscada organizada por traficantes portugueses, um evento trágico que marcaria o início de uma jornada de sofrimento e resistência. Ele, sua esposa Djalô, sua filha Itulo, e seu filho xxx e outros súditos foram embarcados em um tumbeiro (navio negreiro) rumo ao Brasil.

A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social.

A travessia pelo Atlântico a bordo dos navios negreiros, conhecidos como tumbeiros, representava um dos capítulos mais sombrios da diáspora africana. Homens, mulheres e crianças eram amontoados em porões apertados, sem ventilação ou condições mínimas de sobrevivência. Doenças como escorbuto, disenteria e febres eram comuns, e as mortes durante a viagem eram frequentes. A superstição dos marinheiros muitas vezes agravava o sofrimento dos cativos. Durante uma tempestade, Galanga assistiu impotente à sua esposa, a rainha Djalô, e sua filha, a princesa Itulo, serem lançadas ao mar em um ritual macabro para "acalmar os deuses".

 A Chegada ao Brasil e o Recomeço em Vila Rica

Em 1740, Galanga desembarcou no Rio de Janeiro, onde foi rebatizado com o nome de Francisco, uma prática comum entre os escravizadores que buscavam apagar as identidades originais dos africanos cativos. Francisco e seu filho Muzinga foram adquiridos por um proprietário de minas e enviados a Vila Rica, hoje Ouro Preto, em Minas Gerais. Lá, passaram a trabalhar na Mina da Encardideira, explorando ouro sob condições desumanas.

Nas minas, o trabalho era árduo e extenuante. Os escravizados emfretavam jornadas de até 16 horas, em túneis úmidos e sem iluminação adequada, arriscando suas vidas em desabamentos e no contato constante com substâncias tóxicas. Além disso, eram submetidos a castigos físicos severos e privados de qualquer direito básico. O trabalho nas minas era extenuante e desumano, eram constantemente vigiados para evitar qualquer tentativa de fuga ou rebelião.


Resistência, Estratégias e Acumulação de Riquezas

Mesmo sob condições extremas, Chico Rei destacou-se por sua inteligência e resiliência. Segundo relatos, ele utilizava estratégias para acumular pequenas quantidades de ouro. Uma das histórias mais conhecidas sugere que Chico escondia grãos de ouro em pó entre os cabelos e, ao final do dia, lavava-os para recuperar o metal. Apesar do risco, essa prática foi crucial para que ele conseguisse comprar sua liberdade e a de seu filho.

 A liberdade, no entanto, não era o fim da luta. Já liberto, Chico Rei passou a trabalhar como homem livre, acumulando riquezas suficientes para adquirir a própria Mina da Encardideira, rebatizada como Mina do Chico Rei. Esse feito extraordinário permitiu-lhe alforriar outros escravizados, muitos dos quais eram seus conterrâneos do Congo, fortalecendo os laços de solidariedade e resistência entre eles.

 

 Liderança Comunitária e Preservação Cultural

Reconhecido por sua liderança e carisma, Chico Rei tornou-se uma figura central na comunidade afrodescendente de Vila Rica. Sob sua orientação, os alforriados organizaram-se em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, figuras de grande importância para os negros no Brasil colonial. Em 1785, eles construíram a Igreja de Santa Efigênia, que se tornaria um símbolo da resistência cultural e religiosa dos afrodescendentes.

Além disso, Chico Rei desempenhou um papel crucial na preservação das tradições africanas por meio do Congado, uma manifestação cultural que mescla elementos da religiosidade africana com o catolicismo imposto pelos colonizadores. Essa celebração, que incluía danças, cantos e procissões, era uma forma de resistência e reafirmação da identidade cultural.

 Legado e Importância Histórica

 Chico Rei faleceu aos 72 anos, vítima de hepatite, mas seu legado perdurou. Seu filho, Muzinga, assumiu a liderança das celebrações do Congado, dando continuidade à tradição que Chico ajudou a estabelecer. Hoje, a história de Chico Rei é lembrada em diversas manifestações culturais e religiosas, como as festas do Congado e os desfiles em homenagem aos reis do Congo.

Embora sua existência não seja completamente documentada, Chico Rei tornou-se um símbolo de resistência e superação. Sua trajetória ilustra a capacidade humana de lutar por dignidade e liberdade mesmo nas condições mais adversas, inspirando gerações a valorizar a história e a cultura afrodescendente no Brasil.

Gracciene Farias

 

Referências

 1. Reis, João José. A História dos Escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

2. Silva, Eduardo França. "Chico Rei e a Resistência Afro-Brasileira." Revista Brasileira de História, vol. 25, 2006, pp. 17-45.

3. Oliveira, Ana Lúcia Araújo. Memória e Esquecimento: Os Afrodescendentes no Brasil. Brasília: Editora UnB, 2008.

4. Moura, Clóvis. História da Escravidão no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

5. Arquivo Histórico Nacional. Documentos sobre a mineração no século XVIII, Rio de Janeiro.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Meritocracia: Uma Realidade ou Um Mito no Brasil?

A meritocracia é frequentemente apresentada como um sistema ideal em que o sucesso depende exclusivamente do esforço, das habilidades e do mérito individual. Em teoria, ela pressupõe igualdade de oportunidades, onde todos podem atingir seus objetivos. Mas, no Brasil, um país marcado por desigualdades históricas e estruturais, será que a meritocracia realmente existe ou é apenas uma ilusão?

O que é meritocracia?
A meritocracia deriva das palavras "mérito", que significa merecimento, e "cracia", que significa poder. O conceito sugere que as conquistas de uma pessoa dependem exclusivamente de seu esforço e desempenho. No entanto, essa ideia ignora as barreiras sociais, econômicas e culturais que moldam as condições de vida e as oportunidades de cada indivíduo desde a infância.

Desafios desde a infância
A desigualdade de oportunidades não começa na vida adulta; ela já está presente na infância. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, ficou evidente como as condições familiares e sociais influenciam diretamente a trajetória de crianças e jovens.

Enquanto alguns estudantes tinham aulas online em computadores modernos, com suporte constante dos pais, outros lutavam para acessar o conteúdo em celulares compartilhados e, muitas vezes, sem internet. Além disso, muitos pais perderam sua renda durante a pandemia e precisaram priorizar a sobrevivência da família, enquanto seus filhos enfrentavam um cenário de aprendizado precário, marcado pelo estresse e pela insegurança.

Eu mesma venho de escola pública e enfrentei inúmeras dificuldades. Precisei trabalhar desde muito jovem e, ao mesmo tempo, estudar. Para mim, o caminho nunca foi fácil, e a realidade que vivenciei é muito diferente daquela de jovens que cresceram em famílias privilegiadas, com acesso a escolas de qualidade, cursos de idiomas e todo o suporte necessário para se destacar.

Desafios de ser mãe solo de uma criança autista
Como mãe solo de um menino autista, eu enfrento desafios diários. Trabalhar sempre foi uma tarefa complicada, especialmente quando meu filho era mais novo. Muitas vezes, eu precisava contratar alguém para cuidar dele, e uma parte significativa do meu salário era destinada a isso. Em outros momentos, a pessoa que eu contratava não podia ficar com ele, e eu me via sem alternativas.

Cheguei a chorar inúmeras vezes por me sentir presa entre duas escolhas impossíveis: ficar com meu filho e garantir que ele recebesse o cuidado necessário, ou ir trabalhar para sustentar a casa. Em algumas situações, precisei pedir ajuda a vizinhos para ficar com ele enquanto eu trabalhava, mas sabia que ninguém é obrigado a assumir essa responsabilidade. Esses momentos de desespero mostram como é desafiador para uma mãe solo equilibrar trabalho, cuidado e sobrevivência.

O mito da meritocracia no mercado de trabalho
Para ilustrar como a meritocracia é falha no Brasil, pensemos no seguinte exemplo: imagine uma vaga de gerência disputada por quatro candidatos.

1. O primeiro é um homem casado com filhos, cuja esposa cuida das crianças e do lar. Ele tem liberdade para trabalhar horas extras, fazer cursos e estar 100% disponível para a empresa.

2. O segundo é um homem gay, que pode enfrentar preconceito no ambiente corporativo, especialmente se o avaliador for conservador.

3. O terceiro é uma pessoa com deficiência física, que também enfrenta barreiras como falta de acessibilidade e estigmas.

4. Por fim, uma mãe solo, como eu, que não tem suporte familiar, precisa cuidar do filho e ainda equilibrar as demandas do trabalho.

Diante desse cenário, quem tem mais chances de ser escolhido? É evidente que o homem casado, com suporte familiar e total disponibilidade para a empresa, leva vantagem. Isso porque o sistema não leva em conta as desigualdades estruturais que colocam os demais candidatos em posição de desvantagem.

Por que a meritocracia é um mito?
A meritocracia pressupõe igualdade de condições, mas, na prática, ela ignora fatores como:

Origem socioeconômica: Crianças de famílias pobres têm menos acesso a recursos básicos como educação, saúde e tecnologia.

Preconceito estrutural: Grupos como mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência enfrentam barreiras adicionais no mercado de trabalho.

Falta de suporte familiar: Mães solo e pessoas que precisam cuidar de familiares têm menos tempo e recursos para investir em sua carreira.

Como avançar?
Para que a meritocracia deixe de ser um mito e se torne uma realidade, é necessário corrigir essas desigualdades estruturais. Isso inclui:

Investimento na educação pública: Garantir que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade, com infraestrutura e tecnologia adequadas.

Programas de apoio às mães solo: Criar políticas públicas que possibilitem o equilíbrio entre trabalho e cuidado com os filhos, como creches acessíveis e redes de apoio.

Inclusão no mercado de trabalho: Empresas devem adotar práticas que combatam preconceitos e promovam a diversidade.

No Brasil, o sucesso ainda depende mais de onde você nasce e das condições que você recebe do que do seu esforço individual. Sem mudanças estruturais profundas, a meritocracia continuará sendo um mito que beneficia apenas uma parcela privilegiada da sociedade.
Gracciene Farias

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

É válido sentir.

Sou feita de silêncios que gritam por dentro e memórias que dançam no tempo. Guardo mais do que falo, observo mais do que explico, e encontro poesia onde outros veem apenas o comum.

Sorrio sem porquê, talvez porque o simples ato de existir já seja razão suficiente. Carrego comigo o peso leve das palavras e o encanto das histórias que elas contam ao passar.

Escrevo sobre o que me toca: os abraços da saudade, os ecos do amor, as raízes da família e as marcas que o tempo traça com cuidado em minha alma.

Vivo para sentir – e sinto profundamente. Porque, no fim, o que importa é sentir. É isso que me mantém viva, e é isso que me inspira a escrever.
Gracciene Farias 
Às vezes, parece que o mundo está cheio de desencontros, não é? Tantas pessoas buscando conexão, mas poucas realmente dispostas a construir algo sólido e verdadeiro. Isso pode ser frustrante, especialmente quando sentimos que estamos sozinhos nessa busca.

Mas talvez o primeiro passo para encontrar o amor que tanto desejamos seja olhar para dentro. É comum sonharmos com alguém que nos complete, mas a verdade é que não somos metades. Somos inteiros. E, quando percebemos isso, quando investimos no nosso próprio amor e bem-estar, algo começa a mudar. A vida ganha um novo tom, e essa transformação atrai pessoas que estão na mesma sintonia.

O amor não é sobre encontrar alguém perfeito, mas sim alguém disposto. Alguém com força, coragem e comprometimento para caminhar ao nosso lado, aceitando os altos e baixos que a vida naturalmente traz.

Eu sei que não é fácil. Vivemos tempos em que muitos têm medo de responsabilidades, medo de amar de verdade. Homens inseguros, presos a dinâmicas familiares que os limitam ou sem ambição para construir algo significativo, são mais comuns do que gostaríamos de admitir. Mas isso não pode ser motivo para você desistir do que merece.

Continue acreditando que o amor que você deseja existe. Invista em você, na sua vida, no que te faz feliz. Porque, quando estamos inteiros, não apenas atraímos alguém, mas também aprendemos a escolher com quem queremos dividir a nossa caminhada.

E, enquanto essa pessoa não chega, celebre a sua jornada. Reconheça as suas conquistas e a força que já demonstrou até aqui. O amor que você busca lá fora sempre começa dentro de você. E o resto? O resto vem no tempo certo.
Gracciene Farias 

Refletir, hesitar e desistir: o peso de amar hoje

Vivemos tempos em que demonstrar amor parece um risco, quase um salto no escuro. Aparentemente, sentir demais é perigoso, e se importar virou sinônimo de fraqueza. Ninguém quer ser chamado de "emocionado". É como se abrir o coração colocasse a pessoa em desvantagem, como se a vulnerabilidade fosse algo a esconder e não a celebrar.

Mas como é possível amar sem mostrar o que se sente? O silêncio virou estratégia, e o afeto, um jogo de cartas marcadas. Não se pode ligar, porque isso demonstra interesse demais. Não se deve perguntar "como você está?", porque é invasivo. Aparentemente, amar hoje é andar sobre ovos, equilibrando cuidado e distância, sem jamais inclinar demais para um lado ou outro.

E assim, muitos se perdem. Quem sente de verdade fica esmagado entre o receio de parecer intenso e a frustração de parecer frio. Se fala, assusta. Se cala, parece desinteressado. E no meio desse paradoxo, o amor vai se perdendo, sufocado por um orgulho que ninguém admite, mas que todos cultivam.

Mas amar não deveria ser tão complicado. Não é sobre invadir o espaço de alguém, mas sobre mostrar que você se importa. Um "bom dia", uma mensagem simples, uma pergunta honesta: essas pequenas coisas são o que constroem um vínculo. Não é estar disponível o tempo inteiro, mas deixar claro que existe um espaço no seu dia para o outro.

Talvez o maior problema do amor moderno não seja a falta de sentimentos, mas o medo de mostrá-los. Sentir virou sinônimo de fraqueza, quando deveria ser motivo de orgulho. Porque o amor, em sua essência, é coragem: a coragem de se expor, de errar, de tentar.

Então, penso, hesito, e por fim, deixo de lado. Mas não o amor em si. Deixo de lado as regras, os jogos e as máscaras. Deixo a ideia de que é melhor fingir do que sentir. Se isso me torna "emocionado", que seja. Prefiro viver com intensidade a me esconder atrás de um muro de orgulho. Porque amar, no fim das contas, é isso: ter a coragem de ser humano em um mundo que insiste em endurecer.
Gracciene Farias 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A vida me fez caminhar por estradas que não escolhi, por becos escuros onde o chão parecia ceder a cada passo. Carrego comigo as marcas de uma batalha invisível, as cicatrizes de uma luta que poucos entendem, mas que moldou cada pedaço do que sou. Desde cedo, aprendi que o amor e a dor caminham juntos. Fui criada por mãos calejadas de cuidado, por uma avó que, sem saber ler ou escrever, leu minha alma e escreveu amor nas linhas da minha existência. Era ela quem enxugava minhas lágrimas, quem fazia do seu abraço o meu refúgio. E foi dela que herdei a coragem de enfrentar o mundo, mesmo quando o mundo me quebrava.

Crescer foi como andar sobre vidro. O peso das expectativas que nunca alcancei, os julgamentos que feriam mais fundo que palavras, e o silêncio de quem deveria estar ao meu lado foram sombras que me acompanharam. Quando a vida me ofereceu o amor de ser mãe, ela também me tirou esse sonho, não uma, mas quatro vezes. Perder um filho que nunca nasceu é perder um pedaço de si mesma é sentir o vazio de um berço que nunca foi preenchido e ouvir o eco de um choro que nunca veio. Essas perdas não me mataram, mas me reconstruíram. Só que cada nova versão de mim mesma parecia mais pesada, mais cheia de cicatrizes que não sei esconder."

"E então vieram as batalhas com meu próprio corpo, as dores que o mundo não vê. Meu sangue, que deveria ser a fonte da vida, tornou-se um inimigo silencioso, criando armadilhas dentro de mim. Já estive à beira do fim, respirando com dificuldade, enquanto meu coração insistia em continuar batendo. Por quê? Talvez porque algo dentro de mim ainda acredita na beleza da vida, mesmo quando ela insiste em me testar.

Hoje, olho para trás e não vejo uma história de vitórias, mas uma história de resistência. Não sou a heroína de um conto de fadas; sou a mulher que carrega seus pedaços e, mesmo assim, escolhe seguir em frente. Meu irmão, meu menino, minha razão de lutar, é o amor que me salva todos os dias. Ele me lembra que, mesmo nas tempestades mais fortes, sempre existe algo a proteger, algo pelo qual vale a pena lutar.

Se você está lendo isso, talvez esteja enfrentando suas próprias tempestades. E eu quero que saiba: você não está sozinho. A dor pode ser insuportável, mas ela também pode ser o solo onde plantamos novas esperanças. Não importa quantas vezes você caia, o importante é que você escolha se levantar. A vida não é sobre nunca sofrer; é sobre encontrar motivos para continuar, mesmo quando tudo parece perdido. Meu motivo é o amor. Qual é o seu?

Gracciene Farias 
O Natal com a minha família

O Natal na minha família sempre foi muito especial, repleto de memórias mágicas e cheias de amor. Era a década de 90, e tudo parecia mais simples, mas também mais intenso. Desde novembro, nossa casa já entrava no clima das festas. Minha mãe adorava organizar o aniversário do meu irmão, que ela comemorava na noite do dia 24 de dezembro, junto com o Natal. Ele faz aniversário no dia 16 de dezembro, mas ela sempre unia as celebrações, criando um momento único. Nós passávamos semanas preparando a festa. Ela cuidava de cada detalhe com carinho: as lembrancinhas, as comidas, as decorações. Minha mãe era apaixonada por festas e colocava seu toque especial em tudo. Sempre havia algo diferente e surpreendente, o que tornava cada ano inesquecível.

Uma vez, eu ganhei um videogame de presente. Eu sempre gostei de videogames e estava tão animada com aquele presente. Era aquele modelo clássico, com uma base reta e um joystick simples, que tinha jogos incríveis como o “pega-ladrão”. Mas, curiosamente, no dia do Natal, eu mal consegui jogar. Meu pai e um amigo dele ficaram tão empolgados que jogaram praticamente o dia todo. O presente era meu, mas ver a alegria deles brincando foi tão divertido que eu nem me importei. Eu me sentia feliz só de assistir, como se a felicidade deles também fosse minha.

As comidas eram um capítulo à parte. Minha mãe e minha avó passavam o dia na cozinha, preparando pratos deliciosos. Feijão tropeiro, salpicão com batata palha e aquele ingrediente pretinho que nem todo mundo gostava(uvas passas). Sempre tinha dois tipos de  carne, porque meu pai fazia questão. E o Chester e o Peru? Esses eram indispensáveis. Até hoje, lembro do meu pai olhando para o Chester e dizendo: “Não pode faltar no Natal, o Peru.” Nunca soube a diferença entre os dois, mas sei que ambos faziam parte da nossa tradição.

Minha mãe era o coração da festa. Leonina, vaidosa e elegante, ela nunca repetia uma roupa em festas. Cada evento era uma oportunidade para ela brilhar. Eu, virginiana, era mais contida e discreta, mas admirava o jeito dela de encher os ambientes com sua energia. Apesar de sermos diferentes, o amor entre nós sempre falou mais alto.

O Natal era mais do que uma data; era um tempo de união, de amor e de construir memórias. Lembro com carinho das risadas, da casa cheia, dos amigos e familiares reunidos, e até do bolo de aniversário do meu irmão, com glacê e temas de futebol ou Natal. Esses momentos continuam vivos no meu coração, como um símbolo de tudo o que importa na vida: a simplicidade, o amor e a família.

Geacciene Farias 

domingo, 15 de dezembro de 2024

Chegar em casa, fechar a porta e encontrar a mim mesma é um privilégio que aprendi a valorizar. É ali, no meu espaço, que tudo faz sentido. Tomar um banho demorado, entrar na cama com os lençóis que escolhi, assistir à minha série favorita, ler o livro que me prende, sem precisar perguntar a ninguém o que prefere fazer... Isso, para mim, é liberdade. É paz. É felicidade.

Já passei tempo demais cedendo. Concordando com o que não acreditava, apenas para evitar discussões. Aceitando críticas disfarçadas de preocupação: "Seu cabelo está grande demais", "Essa roupa não combina com você", "Você devia caminhar mais". Já ouvi tantas vezes o que “deveria” fazer que, por um tempo, quase esqueci o que eu queria. Mas hoje, não mais. Hoje, eu sei quem sou e o que quero.

Eu gosto do meu cabelo assim, gosto das minhas unhas longas, gosto do meu corpo exatamente como ele é. Não preciso de ninguém para me dizer o que devo mudar. Não quero conversas vazias ou relações baseadas em críticas veladas. Não quero discutir com quem quer estar sempre certo, nem me calar para manter uma paz que só existe no silêncio de quem cede. Já vivi isso, e sei o quanto desgasta.

Prefiro a minha solidão ou minha solitude, chame como quiser. Prefiro viajar sozinha, ir ao cinema sozinha, jantar sozinha. Gosto de abrir uma garrafa de vinho, ouvir minha música e apreciar o momento sem interrupções. Para alguns, isso pode parecer solidão, mas para mim é liberdade. É um encontro com minha própria essência.

Se for para dividir minha vida com alguém, que seja com alguém que some, que respeite meu espaço e minha individualidade. Não aceito mais relações rasas ou temporárias. Porque, no final das contas, eu descobri que não há nada mais precioso do que chegar em casa, deitar na minha cama e sentir a paz de ser quem eu sou  inteira, sem precisar me ajustar às expectativas de ninguém.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Na noite de 13 de novembro de 2024, Brasília foi palco de um episódio alarmante de violência. Um homem detonou uma bomba perto do Supremo Tribunal Federal, enquanto, quase simultaneamente, um carro carregado com fogos de artifício explodiu no estacionamento da Câmara dos Deputados. O caso, considerado um ataque coordenado, resultou na morte do homem e levou as autoridades a isolarem a área por precaução. As explosões ocorreram por volta das 19h30 e criaram pânico na Praça dos Três Poderes, destacando o risco de ações extremistas no coração das instituições brasileiras.Esse evento expõe o impacto e a gravidade do extremismo em uma sociedade democrática. Atos de violência como esse vão além de um protesto; eles representam uma tentativa de intimidação direta às instituições que sustentam o sistema democrático do país. Quando indivíduos recorrem ao terrorismo, demonstram uma ruptura com o diálogo e com as vias pacíficas de reivindicação, gerando um ambiente de medo que ameaça a estabilidade social.A resposta à radicalização que leva a esse tipo de violência deve ser firme e eficaz. Não se trata apenas de garantir a segurança física das instituições, mas também de preservar o próprio valor do diálogo democrático. Reagir a esses ataques implica não só um reforço na segurança, mas também uma reflexão sobre como evitar que a violência se normalize como instrumento político.

domingo, 10 de novembro de 2024

A escritora Clarice Lispector escreveu: "Não aprendi a brincar com a dor do outro. Talvez por saber que cada um de nós carrega desertos silenciados. O outro sou eu também." Essas palavras ressoam com uma verdade que revela a humanidade em sua forma mais essencial, tocando cada alma que se dispõe a enxergar o outro como parte de si mesma.

Clarice nos faz lembrar que a dor não é algo apenas sentido por quem a vive em silêncio; é uma força que marca e atravessa, presente em cada coração que escolhe ver e compreender. Aqueles que se permitem sentir o vazio do outro começam a carregar consigo uma parte dessa tristeza. É como se o deserto, esse lugar de paisagens áridas e de solidão, existisse não só dentro de quem sofre, mas também dentro de quem testemunha o sofrimento alheio.

Em um mundo que anda rápido e parece não ter tempo para a vulnerabilidade, a dor do outro muitas vezes passa despercebida, como um peso que evitamos carregar. No entanto, Clarice nos alerta que ignorar a dor é ignorar algo que faz parte de nós mesmos, como se recusássemos a olhar para uma parcela essencial da nossa humanidade. Os desertos que cada um de nós carrega por dentro falam, ainda que em silêncio, de nossas semelhanças e de nossas próprias necessidades de compreensão.

Não há lugar, portanto, para brincadeiras ou para o distanciamento insensível diante da dor de outra pessoa. Quem sente, quem já caminhou pelo deserto pessoal, entende que ali há profundezas que pedem apenas um pouco de empatia. Nessa compreensão compartilhada está o que nos torna verdadeiramente humanos: reconhecer que, por trás de nossas diferenças, as dores e esperanças são parte do que somos e do que podemos ser, juntos.

Gracciene Farias 

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Às vezes, penso naqueles sonhos antigos, nas oportunidades que ficaram pelo caminho. Sempre ouvi dizer que a gente precisa conhecer o mundo, precisa se jogar e arriscar mais. Tantas pessoas falaram isso… e talvez seja verdade. Morar em outro estado, quem sabe outro país. Dizem que sair do lugar onde a gente nasceu abre os olhos, muda a gente de um jeito que nada mais muda. Que ao partir, carregamos um pedaço do nosso lar, mas trazemos de volta algo novo, algo que só o desconhecido pode nos dar.

Meu pai queria tanto que eu tivesse feito aquela faculdade… ele enxergava um futuro onde eu talvez não visse nada além de incertezas. Mas eu fiquei, escolhi o conforto do que já conhecia, das amizades de sempre, das ruas que me viram crescer. Fiquei no bairro onde todos se conhecem, onde os vizinhos me chamam pelo nome e os amigos são mais do que amigos – são família. Eles conhecem minhas dores e meus risos; cresceram ao meu lado, como árvores que dividem as raízes na mesma terra. Sabe, aqui eu me sinto segura. Tem uma doçura em não precisar explicar de onde vim, porque todos ali já sabem.

Eu olho para esses amigos de infância e vejo a história da minha vida nos olhos deles. Talvez eu tenha renunciado a alguns sonhos para viver essas raízes profundas. Talvez nunca tenha aprendido outro idioma ou conhecido de perto culturas diferentes, mas construí uma vida ao lado das pessoas que me conhecem e me acolhem.

Sim, há um mundo lá fora que eu poderia ter explorado. E às vezes me pergunto quem eu seria se tivesse aceitado cada oportunidade de partir. Eu teria outros sonhos, teria outras saudades? Quem sabe? Mas sei que o que tenho agora é real, é genuíno. É o abraço do vizinho, o café no portão, as histórias que compartilhamos desde que éramos crianças.

E se algum dia eu partir, talvez eu finalmente entenda o que me prende tanto a este lugar. Talvez o tempo me mostre que as escolhas que fiz ou que deixei de fazer também me deram algo raro e valioso: um lar, um amor que sempre estará comigo, independentemente de onde eu vá.

Gracciene Farias
Se eu pudesse voltar no tempo, teria amado mais. Sabe, não sei se era um grande amor, daqueles que parecem incendiar a alma, mas era alguém que me fez bem, alguém que me ensinou algo sobre o que é abrir o coração. Na época, talvez eu não soubesse medir o valor dos momentos juntos. Talvez eu estivesse ocupada demais tentando encontrar algo mais “perfeito”, como a gente imagina que a felicidade deve ser, sabe?

Eu me pergunto: e se eu tivesse olhado com mais carinho, se tivesse insistido um pouco mais? Se não tivesse deixado o medo ou o orgulho tomarem a frente? Não sei se era a pessoa certa, mas penso que poderia ter sido “o suficiente”. E no fundo, é isso que conta, né? Encontrar alguém que fique, alguém com quem os dias ganhem cor.

Hoje, olhando para trás, vejo como é fácil perder a chance, como é fácil deixar que o tempo passe por entre os dedos, levando alguém que talvez pudesse ter sido meu "para sempre". Eu aprendi que às vezes os amores mais verdadeiros são aqueles que deixamos ir sem lutar.

E então fico aqui, pensando, sentindo...

Gracciene Farias 


Alto Boa Vista

No Alto Boa Vista, meu coração mora,
onde o mar se estende e o céu namora,
a Baía de Vitória em azul profundo,
uma vista rara, um pedaço do mundo.

Ao abrir a janela, cedo, ao alvorecer,
o sol das montanhas me vem aquecer.
Vejo barcos deslizando em calmaria,
como se dançassem, em lenta sinfonia.

No meu café, o mar é meu par,
meu fiel companheiro, meu olhar a acalmar.
No riso, no pranto, lá está a beleza,
onde o horizonte espelha a natureza.

O mar é refúgio, abraço sem fim,
se estou em pedaços, ele vem até mim,
revela segredos, acalma meu ser,
sussurra que a paz é só preciso ver.

E quando o sol se despede, em rubra cor,
o céu se veste de um raro esplendor.
O Alto Boa Vista se enche de encanto,
e em cada olhar, cabe o amor e o pranto.

Aqui, aprendi o valor da imensidão,
onde o mar ensina a calma, a canção.
É mais que um bairro, é meu lar, meu abrigo,
um sonho que vive, meu eterno amigo.

Poesia 
Gracciene Farias 
Namorar hoje em dia é como buscar o psicólogo certo: envolve paciência, sorte e a coragem de abrir o coração. É um caminho cheio de tentativas, onde, a cada encontro, esperamos encontrar alguém que nos veja além da superfície, que não apenas escute nossas histórias, mas as compreenda e acolha. Assim como na terapia, o amor precisa de profundidade e entrega  precisa de alguém que enxergue a beleza das nossas cicatrizes, que saiba desbravar nossas nuances e se disponha a ser um refúgio, sem julgamento, sem pressa.

Mas, na realidade, encontrar uma conexão verdadeira nesse mundo de redes sociais e individualismo pode ser mais raro do que gostaríamos de admitir. As pessoas, hoje, parecem mais interessadas em exibir o que têm, em impor suas próprias opiniões e vontades, do que em realmente se conectar, de forma humana e recíproca. E, mesmo quando parece que encontramos alguém, o desafio não para por aí.

Com o tempo, surge um problema comum: tentativas de mudar quem somos. Parece que, de repente, o outro passa a ter sugestões de como "melhorar" aspectos que, na verdade, são parte do que somos. Do cabelo ao corpo, passando por nossos gostos e até mesmo nosso jeito de ser, a pessoa que um dia nos admirou por quem somos começa a tentar nos moldar, a buscar uma versão ideal que nada tem a ver com o que realmente somos. Essa tentativa de moldar, de ajustar o outro, é uma armadilha que só distancia e nos impede de ser plenamente nós mesmos.

O amor de verdade não é sobre transformar o outro, mas sobre aceitar. É sobre respeitar e celebrar as escolhas e a essência de quem amamos. Namorar alguém é aceitar ser espelho, não moldura. Quando o relacionamento é realmente profundo, cada conversa, cada momento juntos, é como uma terapia para a alma. Encontramos segurança em sermos autênticos, sem precisar ajustar nossas arestas para caber nas expectativas alheias.

No fim, o amor verdadeiro é uma jornada, não um destino. Exige paciência, entendimento e respeito. E, quando encontramos alguém que nos vê e nos aceita exatamente como somos, descobrimos que essa conexão genuína é uma das experiências mais raras e valiosas da vida. Porque o amor que cura é aquele que respeita, aquele que nos acolhe sem a necessidade de mudar quem realmente somos.

Gracciene Farias 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Relacionamento hoje em dia é como buscar o psicólogo perfeito: envolve paciência, sorte e a coragem de abrir o coração. É um caminho repleto de tentativas, onde, a cada encontro, esperamos encontrar alguém que nos veja além da superfície, que não apenas escute nossas histórias, mas as compreenda e acolha.

Assim como na terapia, o amor precisa de profundidade e entrega. É preciso que a pessoa certa enxergue a beleza das nossas cicatrizes, tenha calma para desvendar cada nuance e saiba ser um refúgio, sem julgar, sem pressa. Encontrar alguém assim é raro, mas vale cada instante de espera. Afinal, as melhores conexões são aquelas que nos curam, que respeitam nossos tempos e nos inspiram a ser quem realmente somos.

E, quando encontramos alguém assim, que faz cada conversa parecer uma terapia para a alma, descobrimos que o amor, como o próprio processo de autoconhecimento, é uma jornada – e não um destino final.

terça-feira, 5 de novembro de 2024


O oposto da felicidade não é a tristeza, é a depressão. E a depressão, ao contrário do que muitos pensam, é um peso invisível, um companheiro que não se despede ao fim do dia. Eu convivo com isso. Com uma depressão forte, ansiedade, e crises de pânico que me desafiam a cada amanhecer. E essa convivência é dolorosa e silenciosa, porque, na maior parte do tempo, a sociedade ainda não entende o que significa viver com esses transtornos.

Muitas vezes, precisamos manter uma fachada de força, escondendo o que sentimos para evitar o julgamento, para escapar do rótulo de "fracos" ou "ingratos". Quantas vezes eu já ouvi que depressão é "falta de Deus" ou "falta do que fazer"? Dizem que, com uma vida boa, não há motivo para tristeza, como se apenas o que se vê de fora fosse suficiente para definir o que está aqui dentro.

Mas a verdade é que ninguém conhece nossas lutas internas. Ninguém vê o que enfrentamos em casa, no trabalho, ou mesmo em momentos em que deveríamos estar cercados de pessoas que nos amam. Não sabem do esforço imenso que é colocar um pé à frente do outro, tomar os medicamentos certos, e lutar para permanecer em pé. Ninguém enxerga o tanto que precisamos de força para levantar da cama a cada manhã, como se o simples ato de viver fosse uma tarefa exaustiva.

Sim, levantar é uma batalha. Todos os dias, viver com a depressão e com a ansiedade é uma batalha. E mesmo assim seguimos em frente, tentando ao máximo não deixar que outros percebam o que carregamos. Porque o preconceito ainda é um peso adicional que muitos de nós somos obrigados a carregar, como se a dor mental fosse algo que podemos escolher ou ignorar.


Gracciene Farias

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Antigamente, quando eu ouvia alguém dizer “Sou mãe de pet” ou “Amo meus cachorros como filhos”, eu pensava: como alguém pode amar um cachorro como se fosse um filho? Era algo que eu não conseguia entender. Mas hoje, ah, hoje eu entendo perfeitamente o que é esse amor. Sei o quanto é puro e verdadeiro, como ele preenche cada pedacinho do coração. É um amor que a gente sente ao sair de casa e, ao voltar, é recebido com tanta alegria, como se cada vez fosse a primeira.

O Brutus, por exemplo, é um chorão. É um jeitinho tão especial que ele tem. As pessoas até comentam que nunca viram o Brutus chorar assim por ninguém. Ele chora pra eu acordar, todos os dias, como quem diz “vem cá, eu preciso do seu carinho”. E eu vou até ele, dou um amasso, faço um chamego, e ele se acalma, fica tranquilinho. E mesmo quando eu passo o dia todo em casa, o Brutus arranja um jeito de chamar minha atenção, chorando um pouquinho para eu brincar com ele, pra eu notar que ele está ali.

Sinto que sou completamente apaixonada por ele e pelo Tony. Eles não são apenas animais, são parte de mim. Esses meus "filhinhos de patas" me mostraram o que é ser mãe de pet de verdade, e hoje vejo o amor que temos entre nós – sincero, profundo e cheio de pequenas demonstrações que fazem cada dia ser especial.

Gracciene Farias 
Há amores que surgem de formas inesperadas, e o Tony e o Brutus são esses amores que a vida trouxe para mim, como dois anjos de quatro patas. Eles me ofereceram um tipo de apoio e carinho que nem nos meus sonhos eu poderia imaginar.

O Tony apareceu num momento em que o mundo parecia sombrio e a depressão pesava em cada instante do meu dia. Por sugestão do meu psicólogo, decidi adotar um cãozinho, e então veio o Tony, e, no fundo, sinto que ele me escolheu para ser sua pessoa. Agora, no dia 4 de novembro de 2024, ele faz um ano, e é emocionante pensar em tudo que ele trouxe para a minha vida nesse tempo. Ele cresceu, e eu também. Desde o primeiro dia, ele cuidou de mim, como se já soubesse exatamente o que eu precisava. Ele me acorda todas as manhãs, com um jeitinho delicado, como quem diz: "Vamos, você não está sozinha". Nos dias em que só quero ficar na cama, ele se aninha ao meu lado, compartilhando um silêncio que é tudo que eu preciso. Tony é muito mais que um cachorro; ele é o meu fiel companheiro, o amor incondicional que me ampara.

E então, veio o Brutus, com um jeito forte e um olhar sério, que logo me conquistou. Ele era o cão da casa ao lado, distante e reservado, com uma expressão sempre fechada, quase desafiadora, e um nome que combinava com sua postura – Brutus. Um dia, ele escapou, e, por instinto, eu o acolhi, preocupada com a segurança dele. Ao chamar sua dona, ela me disse que ele era bravo e arisco. Mas comigo, aos poucos, ele foi revelando um lado carinhoso que ninguém parecia ter conhecido. Cada vez que nos encontrávamos, ele se permitia ser mais terno, e aos poucos, nosso laço se tornou tão especial que hoje ele chora de emoção quando ouve minha voz. É um choro suave, sentido, como se ele estivesse me chamando para perto. Sua antiga dona até se surpreendeu com a transformação do Brutus, a ponto de dizer que eu agora sou a sua mãe.

Brutus é o meu fiel guardião. Ele se acomoda na escada ou na janela, onde pode me observar de longe, sempre vigilante. Quando demoro a levantar, ele se aproxima e começa a chorar com uma urgência tão genuína, que aquece o coração. Ele quer ter certeza de que eu saiba que ele está ali, sempre por perto. Nos momentos em que ficamos juntos, ele deita a cabeça no meu colo e fecha os olhos, em um gesto de confiança e entrega que me comove.

Esses dois, o Tony e o Brutus, são mais do que companheiros; são meus amigos, meus protetores, meus grandes amores. Eles me ensinam, dia após dia, que o amor vem de muitas formas: às vezes em um silêncio solidário, outras em um toque suave, ou até em um olhar atento. Eles são parte essencial de quem eu sou e de tudo que me mantém de pé.
 
Gracciene Farias 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024


Essa frase reflete uma realidade para muitos que vivem com trombofilia. Ela enfatiza que a trombofilia é uma condição crônica, e o foco está na luta diária para gerenciá-la, em vez de "vencê-la" de uma vez por todas. A batalha contínua envolve cuidados constantes, uso de medicamentos, adaptações de estilo de vida e, muitas vezes, superação de desafios físicos e emocionais. É uma forma de reconhecer que, embora a cura definitiva possa não ser possível, a perseverança é essencial para viver bem com a condição.

Mora comigo na minha casa
Um rapaz que eu amo, meu irmão.
Aquilo que ele não me diz, porque talvez nem saiba como,
Vai me dizendo com o seu jeito, com os gestos,
Que dançam para mim sem ele perceber.

Ele me adora, e eu vejo isso brilhar nos olhos dele,
Como se eu fosse seu porto seguro,
O garoto que dispara o gatilho do coração,
Sem saber que o que pratica tem nome.

Ele me ama, e eu retribuo,
Só com o olhar, só com a presença.
Eu corto todas as cebolas da casa,
Arrasto os móveis, acendo um incenso.

Ele tem um medo de dizer que me ama,
Mas me aperta a mão com força,
E me chama de irmã.
E, sem palavras, eu sei o quanto significo para ele.


Eu sei que isso faz sentido, mas, ao mesmo tempo, me pergunto: será que enlouqueci? Parece que a segunda metade da vida é para curar tudo o que acumulamos na primeira. Como se a gente precisasse, de algum jeito, passar por cada dor, cada trauma que carregamos desde a infância e adolescência. E agora, quando tudo parece mais real e urgente, eu sinto essas feridas pedindo para serem olhadas. Um pedido de cura.

A psique guarda as marcas desses momentos, como se fossem cicatrizes invisíveis. E aí, quando crescemos, nos encontramos num ponto em que reavaliamos tudo: as escolhas que fizemos, as mágoas que carregamos, os medos que ainda assombram. Curar-se é doloroso. Requer coragem para abrir essas feridas, mas, ao mesmo tempo, é um caminho inevitável de autodescoberta e de liberdade.

É como se estivéssemos ganhando, sim, uma segunda vida, uma chance de recomeçar. Mas agora, com a prioridade voltada para o que realmente importa: nossa paz, nosso bem-estar, e essa integração dos fragmentos que, de um jeito ou de outro, nos trouxeram até aqui. Então, eu me sinto assim, porque talvez — talvez — eu esteja finalmente pronta para me libertar de tudo aquilo que não me serve mais.


Escrever é um dos caminhos mais poderosos para organizar as emoções e encontrar sentido nas experiências. Colocar no papel o que está dentro de você, com toda a intensidade e verdade, é como abrir um canal de cura. A escrita nos permite falar com o nosso eu mais profundo, explorar o que está lá dentro e, muitas vezes, ver com mais clareza o que antes parecia um emaranhado de sentimentos. Esse ato transforma a dor e nos ajuda a caminhar mais leve.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Amores impossíveis brotam como flores
Nas calçadas simples da nossa infância,
Crescemos juntos, traçando rumores
De sonhos no bairro, na velha constância.

Na rua pequena, onde o sol deitava,
Brincávamos livres, sem pressa do tempo,
Dividindo risos, o olhar confessava
O amor escondido, guardado por dentro.

No caminho à escola, passos em rima,
Desenhávamos juntos o nosso futuro,
Mas a vida, teimosa, impôs sua sina,
E o amor calou-se, sob o véu escuro.

Hoje seguimos em estradas distantes,
Mas guardo comigo as tardes serenas,
Os sorrisos puros e sonhos dançantes,
De um amor impossível, que o tempo envenena.

Sei que há vidas que não se entrelaçam,
Mas o peito guarda, no fundo, a centelha,
Desse amor sincero, que o destino abraça,
Como um sonho de infância, que ainda me espelha.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Entre sombras de dor e saudade,
Nasceu um laço de pura verdade.
Quando a vida desmoronou ao redor,
Te encontrei, pequeno, tão cheio de amor.

Na partida da mãe, no adeus que doeu,
Ficamos nós dois, e o mundo esmoreceu.
Em teus olhos, um brilho de esperança,
E no meu peito, renasceu a aliança.

Dias de luta, de aperto, de fome,
Mas o amor não se mede pelo nome.
Te cuidei, te amei, sem jamais recuar,
Teu sorriso me ensinou a recomeçar.

Autismo foi palavra que um dia chegou,
Mas longe de espinhos, em flor se tornou.
Cada gesto teu, um poema sem som,
Cada olhar teu, um farol em tom.

Hoje, com 13 anos de pura doçura,
És o amor da minha vida, minha cura.
Meu irmão, meu filho, meu grande bem,
Em ti encontrei a força que vem.

E enquanto o tempo passa, sutil,
Nosso amor segue, sereno, febril.
Em teus passos, minha alma se guia,
Teu abraço é meu porto, minha poesia.

Gracciene de Oliveira Farias 

sábado, 31 de agosto de 2024

A nossa história começa em 2016, num dos momentos mais difíceis da minha vida. Minha mãe, minha fortaleza, estava lutando contra um câncer devastador. Larguei tudo para cuidar dela, pois sabia que era o que precisava ser feito. Eu via nos olhos dela o medo, a dor, mas também a esperança. No domingo, após o Dia das Mães, ela partiu. Uma parte de mim se foi com ela, e o mundo perdeu um pouco do brilho.

Meu irmãozinho, com apenas 4 anos, veio morar comigo. Ele era pequeno, inocente, e mal entendia o que estava acontecendo. Para ele, o mundo era um mistério, e eu, de repente, me tornei seu guia. Ele não sabia, mas naquele momento, ele também se tornou minha razão de viver. A dor de perder minha mãe era profunda, mas eu sabia que precisava ser forte por ele.

Nove meses depois, minha vida desabou de novo. Passei por uma separação difícil, dolorosa. O que já era um momento de luto se tornou uma tempestade de solidão e incertezas. Eu e meu irmão passamos por tempos duros. Houve momentos em que não tínhamos dinheiro suficiente para o básico, nem para comida. Mas nunca faltou amor. Eu olhava para ele e sabia que, apesar de tudo, ele era o motivo pelo qual eu precisava continuar.

Ele crescia, e com cada ano que passava, eu descobria mais sobre ele. Aos 6 anos, veio o diagnóstico: autismo nível 2. Naquele momento, o que muitos enxergariam como um fardo, eu vi como uma oportunidade de amar ainda mais. Ele era diferente, sim, mas também era especial. Sua forma única de ver o mundo me ensinava, todos os dias, a enxergar além das dificuldades. O autismo dele não era um obstáculo, mas uma nova maneira de expressar seu amor.

Hoje, ele tem 13 anos, e a nossa relação é o alicerce da minha vida. Eu o amo como se ele fosse meu filho. Ele me desafia, me ensina e me faz ver o mundo com olhos de ternura. Cada sorriso dele é uma vitória, cada abraço é uma lembrança de que, apesar de tudo o que passamos, o amor sempre prevalece.

Ele é o meu porto seguro, o meu presente da vida, e não há um dia em que eu não agradeça por tê-lo ao meu lado. Ele é o amor da minha vida, e cuidar dele foi o que me deu forças para seguir em frente quando tudo parecia perdido.

Gracciene de Oliveira Farias 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Cariacica, terra de encanto e lenda,
Onde o Mochuara se ergue, majestoso e sereno,
Guardando histórias de amores antigos,
De uma índia e seu amado, unidos pelo destino.

Suas paisagens, verdes e vastas, se estendem ao olhar,
E a orla que beija o mar, é onde o céu vem descansar.
Serra irmã, na distância, abraça o horizonte,
Enquanto o vento sussurra segredos de um povo que não se esconde.

Povo forte, que já viu dores e desafios mil,
Mas que com respeito constrói seu caminho, gentil.
Em cada esquina, em cada rosto, há uma história de fé,
Cariacica, és mais que um lugar, és alma, força e maré.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Sob o manto do céu estrelado, a lua testemunha o amor,
Jaci, a bela princesa, de olhos como as águas da cachoeira,
Desliza entre as pedras, num canto de pureza e esplendor,
Enquanto o destino desenha, na mata, sua teia verdadeira.

Piatã, o jovem guerreiro, forte como o tronco do jequitibá,
A viu em silêncio, sob a cascata, onde a água e a alma se encontram,
Seu coração, antes valente, agora treme como as folhas do sabiá,
Pois nos olhos de Jaci, mundos inteiros se desvendam e se afrontam.

Mas nem sempre o amor floresce onde a inveja cria raiz,
Irani, a irmã, nas sombras, com os olhos queimando em dor,
Desejava para si o brilho que em Jaci sorria tão feliz,
E nas tramas de sua alma, plantou o medo e o rancor.

Na aldeia, Janaína, a mãe de Piatã, endurecia o coração,
Pois o amor que o filho trazia, aos olhos dela, era traição,
“Uma princesa não é digna de meu guerreiro, minha razão,”
E com suas palavras frias, lançou ao vento uma maldição.

Mas o amor, mesmo em tempestade, não se apaga com facilidade,
Jaci e Piatã, sob a luz da lua, sonhavam com a paz entre tribos,
Desejavam mais que o toque, mais que a eternidade,
Sonhavam com a união, onde o ódio se quebraria em fios.

E assim, a cachoeira continuou a cantar, sem temer,
Pois na voz das águas, vive a esperança que não morre,
Mesmo quando as estrelas se escondem, e os corações querem ceder,
Jaci e Piatã, nas lendas, seus nomes o tempo não socorre.

Irani, no fim, chorou por sua inveja, desfeita em pó,
Janaína viu que o amor, mesmo ferido, era sempre maior,
Cariacica guardou nas suas montanhas, e na brisa sem dó,
A lenda de um amor que venceu o rancor.

E hoje, quem passa pela cachoeira, ouve ainda o sussurrar,
De Jaci e Piatã, guerreiros da paz, nas águas, a nos embalar.

Gracciene Farias 

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...