terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Reflexão de Fim de Ano

Chega dezembro, e com ele, um peso que eu não consigo explicar. Parece que as festas de fim de ano, tão cheias de luz e celebração para muitos, acendem em mim uma chama de nostalgia e tristeza. Meu aniversário, Natal, Ano Novo... Não consigo celebrar como vejo as outras pessoas celebrarem. É como se essas datas me puxassem para dentro, para um espaço de introspecção que, embora necessário, também dói.

Hoje é 29 de dezembro, e eu fico pensando: O que eu ganhei? O que eu perdi? E por mais que, na ponta do lápis, os ganhos superem as perdas, há uma sensação de vazio que me abraça. Parece que estou perdendo tempo, perdendo anos. Olho para a idade que tenho e penso: Por que não consegui isso? Por que não cheguei lá?

O Ano Novo deveria ser um recomeço, mas para mim é mais uma continuação solitária. Eu vejo pessoas comprando roupas novas, planejando festas, compartilhando momentos com amigos e família. E eu? Eu me vejo deitada na cama, assistindo minha série preferida. Daniel talvez esteja acordado para me dar um abraço. Talvez não. E a verdade é que, além dele, não há ninguém para me ligar, me desejar um feliz ano novo, dizer que vai dar tudo certo. Não há aquele calor humano, aquela esperança compartilhada que muitos parecem ter.

Me pergunto: Por que isso me afeta tanto? Por que essas datas pesam tanto em mim? Eu não sei a resposta. Mas sei que é uma tristeza que acompanha o fim do ano, uma melancolia que me faz repensar tudo. Talvez, no fundo, seja uma cobrança excessiva. Talvez eu esteja esperando algo que nunca veio e que, por isso, já nem sei mais reconhecer.

O que eu queria, no fundo? Talvez alguém ao meu lado, segurando minha mão e me dizendo que tudo vai ficar bem. Alguém que me lembre que não importa o que eu fiz ou deixei de fazer neste ano, eu sou suficiente. Mas, por enquanto, o que eu tenho sou eu mesma. E o Daniel.

Pode não ser a celebração que os outros têm, mas talvez, apenas talvez, eu possa encontrar uma paz nisso. Fechar os olhos e aceitar que, mesmo sem fogos de artifício, mesmo sem grandes comemorações, eu sobrevivi a mais um ano. E isso, de alguma forma, já é um ganho.
Gracciene Farias 
2025 é como um novo jardim pronto para florescer, mas para que ele floresça cheio de cores e vida, precisamos arrancar as ervas daninhas. Essas ervas podem ser pessoas, hábitos ou situações que não nos permitem crescer. Elas estão ali, sugando nossa energia, mas não agregam nada de bom. É hora de pegar a enxada, cavar fundo e tirar o que não serve mais, plantando sementes de coisas boas e deixando espaço para o que realmente vai nos fazer florescer. Não adianta insistir em regar aquilo que nunca vai dar frutos. É um ano para cuidar do nosso solo interno, para fazer escolhas que nos alimentem e tragam novas possibilidades

domingo, 29 de dezembro de 2024

Chico Rei: Um Símbolo de Resistência, Liderança e Superação no Brasil Colonial.

 As Origens no Reino do Congo e o Reinado de Galanga

Chico Rei, ou Galanga, é uma das mais emblemáticas narrativas de resistência e superação durante o período colonial brasileiro. Embora envolta em elementos lendários, sua trajetória reflete a luta pela liberdade e a preservação da identidade cultural africana em terras estrangeiras.

Galanga, antes de ser conhecido como Chico Rei, foi um monarca respeitado no Reino do Congo, um dos mais poderosos e organizados reinos africanos da época. O Congo destacava-se por sua rica estrutura política, onde o rei (ou "mani") governava com o apoio de uma corte composta por chefes regionais e conselheiros. Galanga era não apenas um líder político, mas também espiritual, atuando como mediador em conflitos, protetor das tradições e defensor da justiça para seu povo.

O Reino do Congo vivia uma prosperidade baseada no comércio de marfim, cobre e outros bens, mas também enfrentava ameaças constantes de incursões estrangeiras. No século XVIII, o tráfico de escravizados intensificou-se na região, resultado de parcerias entre europeus e líderes locais que, sob coerção ou em busca de benefícios econômicos, participavam da captura de suas próprias populações.

 A Captura e a Viagem ao Brasil

Em uma das muitas incursões organizadas por comerciantes portugueses, Galanga, sua família e parte de sua corte foram capturados. A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social. O destino traçado para Galanga e os seus era cruel: seriam levados ao Brasil, onde enfrentariam os horrores da escravidão.

Durante uma cerimônia religiosa, Galanga, e parte da sua família foram capturados em uma emboscada organizada por traficantes portugueses, um evento trágico que marcaria o início de uma jornada de sofrimento e resistência. Ele, sua esposa Djalô, sua filha Itulo, e seu filho xxx e outros súditos foram embarcados em um tumbeiro (navio negreiro) rumo ao Brasil.

A captura de membros da realeza era especialmente lucrativa, uma vez que eles costumavam ser vendidos por valores elevados devido à sua posição social.

A travessia pelo Atlântico a bordo dos navios negreiros, conhecidos como tumbeiros, representava um dos capítulos mais sombrios da diáspora africana. Homens, mulheres e crianças eram amontoados em porões apertados, sem ventilação ou condições mínimas de sobrevivência. Doenças como escorbuto, disenteria e febres eram comuns, e as mortes durante a viagem eram frequentes. A superstição dos marinheiros muitas vezes agravava o sofrimento dos cativos. Durante uma tempestade, Galanga assistiu impotente à sua esposa, a rainha Djalô, e sua filha, a princesa Itulo, serem lançadas ao mar em um ritual macabro para "acalmar os deuses".

 A Chegada ao Brasil e o Recomeço em Vila Rica

Em 1740, Galanga desembarcou no Rio de Janeiro, onde foi rebatizado com o nome de Francisco, uma prática comum entre os escravizadores que buscavam apagar as identidades originais dos africanos cativos. Francisco e seu filho Muzinga foram adquiridos por um proprietário de minas e enviados a Vila Rica, hoje Ouro Preto, em Minas Gerais. Lá, passaram a trabalhar na Mina da Encardideira, explorando ouro sob condições desumanas.

Nas minas, o trabalho era árduo e extenuante. Os escravizados emfretavam jornadas de até 16 horas, em túneis úmidos e sem iluminação adequada, arriscando suas vidas em desabamentos e no contato constante com substâncias tóxicas. Além disso, eram submetidos a castigos físicos severos e privados de qualquer direito básico. O trabalho nas minas era extenuante e desumano, eram constantemente vigiados para evitar qualquer tentativa de fuga ou rebelião.


Resistência, Estratégias e Acumulação de Riquezas

Mesmo sob condições extremas, Chico Rei destacou-se por sua inteligência e resiliência. Segundo relatos, ele utilizava estratégias para acumular pequenas quantidades de ouro. Uma das histórias mais conhecidas sugere que Chico escondia grãos de ouro em pó entre os cabelos e, ao final do dia, lavava-os para recuperar o metal. Apesar do risco, essa prática foi crucial para que ele conseguisse comprar sua liberdade e a de seu filho.

 A liberdade, no entanto, não era o fim da luta. Já liberto, Chico Rei passou a trabalhar como homem livre, acumulando riquezas suficientes para adquirir a própria Mina da Encardideira, rebatizada como Mina do Chico Rei. Esse feito extraordinário permitiu-lhe alforriar outros escravizados, muitos dos quais eram seus conterrâneos do Congo, fortalecendo os laços de solidariedade e resistência entre eles.

 

 Liderança Comunitária e Preservação Cultural

Reconhecido por sua liderança e carisma, Chico Rei tornou-se uma figura central na comunidade afrodescendente de Vila Rica. Sob sua orientação, os alforriados organizaram-se em torno da devoção a Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, figuras de grande importância para os negros no Brasil colonial. Em 1785, eles construíram a Igreja de Santa Efigênia, que se tornaria um símbolo da resistência cultural e religiosa dos afrodescendentes.

Além disso, Chico Rei desempenhou um papel crucial na preservação das tradições africanas por meio do Congado, uma manifestação cultural que mescla elementos da religiosidade africana com o catolicismo imposto pelos colonizadores. Essa celebração, que incluía danças, cantos e procissões, era uma forma de resistência e reafirmação da identidade cultural.

 Legado e Importância Histórica

 Chico Rei faleceu aos 72 anos, vítima de hepatite, mas seu legado perdurou. Seu filho, Muzinga, assumiu a liderança das celebrações do Congado, dando continuidade à tradição que Chico ajudou a estabelecer. Hoje, a história de Chico Rei é lembrada em diversas manifestações culturais e religiosas, como as festas do Congado e os desfiles em homenagem aos reis do Congo.

Embora sua existência não seja completamente documentada, Chico Rei tornou-se um símbolo de resistência e superação. Sua trajetória ilustra a capacidade humana de lutar por dignidade e liberdade mesmo nas condições mais adversas, inspirando gerações a valorizar a história e a cultura afrodescendente no Brasil.

Gracciene Farias

 

Referências

 1. Reis, João José. A História dos Escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

2. Silva, Eduardo França. "Chico Rei e a Resistência Afro-Brasileira." Revista Brasileira de História, vol. 25, 2006, pp. 17-45.

3. Oliveira, Ana Lúcia Araújo. Memória e Esquecimento: Os Afrodescendentes no Brasil. Brasília: Editora UnB, 2008.

4. Moura, Clóvis. História da Escravidão no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

5. Arquivo Histórico Nacional. Documentos sobre a mineração no século XVIII, Rio de Janeiro.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Meritocracia: Uma Realidade ou Um Mito no Brasil?

A meritocracia é frequentemente apresentada como um sistema ideal em que o sucesso depende exclusivamente do esforço, das habilidades e do mérito individual. Em teoria, ela pressupõe igualdade de oportunidades, onde todos podem atingir seus objetivos. Mas, no Brasil, um país marcado por desigualdades históricas e estruturais, será que a meritocracia realmente existe ou é apenas uma ilusão?

O que é meritocracia?
A meritocracia deriva das palavras "mérito", que significa merecimento, e "cracia", que significa poder. O conceito sugere que as conquistas de uma pessoa dependem exclusivamente de seu esforço e desempenho. No entanto, essa ideia ignora as barreiras sociais, econômicas e culturais que moldam as condições de vida e as oportunidades de cada indivíduo desde a infância.

Desafios desde a infância
A desigualdade de oportunidades não começa na vida adulta; ela já está presente na infância. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, ficou evidente como as condições familiares e sociais influenciam diretamente a trajetória de crianças e jovens.

Enquanto alguns estudantes tinham aulas online em computadores modernos, com suporte constante dos pais, outros lutavam para acessar o conteúdo em celulares compartilhados e, muitas vezes, sem internet. Além disso, muitos pais perderam sua renda durante a pandemia e precisaram priorizar a sobrevivência da família, enquanto seus filhos enfrentavam um cenário de aprendizado precário, marcado pelo estresse e pela insegurança.

Eu mesma venho de escola pública e enfrentei inúmeras dificuldades. Precisei trabalhar desde muito jovem e, ao mesmo tempo, estudar. Para mim, o caminho nunca foi fácil, e a realidade que vivenciei é muito diferente daquela de jovens que cresceram em famílias privilegiadas, com acesso a escolas de qualidade, cursos de idiomas e todo o suporte necessário para se destacar.

Desafios de ser mãe solo de uma criança autista
Como mãe solo de um menino autista, eu enfrento desafios diários. Trabalhar sempre foi uma tarefa complicada, especialmente quando meu filho era mais novo. Muitas vezes, eu precisava contratar alguém para cuidar dele, e uma parte significativa do meu salário era destinada a isso. Em outros momentos, a pessoa que eu contratava não podia ficar com ele, e eu me via sem alternativas.

Cheguei a chorar inúmeras vezes por me sentir presa entre duas escolhas impossíveis: ficar com meu filho e garantir que ele recebesse o cuidado necessário, ou ir trabalhar para sustentar a casa. Em algumas situações, precisei pedir ajuda a vizinhos para ficar com ele enquanto eu trabalhava, mas sabia que ninguém é obrigado a assumir essa responsabilidade. Esses momentos de desespero mostram como é desafiador para uma mãe solo equilibrar trabalho, cuidado e sobrevivência.

O mito da meritocracia no mercado de trabalho
Para ilustrar como a meritocracia é falha no Brasil, pensemos no seguinte exemplo: imagine uma vaga de gerência disputada por quatro candidatos.

1. O primeiro é um homem casado com filhos, cuja esposa cuida das crianças e do lar. Ele tem liberdade para trabalhar horas extras, fazer cursos e estar 100% disponível para a empresa.

2. O segundo é um homem gay, que pode enfrentar preconceito no ambiente corporativo, especialmente se o avaliador for conservador.

3. O terceiro é uma pessoa com deficiência física, que também enfrenta barreiras como falta de acessibilidade e estigmas.

4. Por fim, uma mãe solo, como eu, que não tem suporte familiar, precisa cuidar do filho e ainda equilibrar as demandas do trabalho.

Diante desse cenário, quem tem mais chances de ser escolhido? É evidente que o homem casado, com suporte familiar e total disponibilidade para a empresa, leva vantagem. Isso porque o sistema não leva em conta as desigualdades estruturais que colocam os demais candidatos em posição de desvantagem.

Por que a meritocracia é um mito?
A meritocracia pressupõe igualdade de condições, mas, na prática, ela ignora fatores como:

Origem socioeconômica: Crianças de famílias pobres têm menos acesso a recursos básicos como educação, saúde e tecnologia.

Preconceito estrutural: Grupos como mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência enfrentam barreiras adicionais no mercado de trabalho.

Falta de suporte familiar: Mães solo e pessoas que precisam cuidar de familiares têm menos tempo e recursos para investir em sua carreira.

Como avançar?
Para que a meritocracia deixe de ser um mito e se torne uma realidade, é necessário corrigir essas desigualdades estruturais. Isso inclui:

Investimento na educação pública: Garantir que todas as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade, com infraestrutura e tecnologia adequadas.

Programas de apoio às mães solo: Criar políticas públicas que possibilitem o equilíbrio entre trabalho e cuidado com os filhos, como creches acessíveis e redes de apoio.

Inclusão no mercado de trabalho: Empresas devem adotar práticas que combatam preconceitos e promovam a diversidade.

No Brasil, o sucesso ainda depende mais de onde você nasce e das condições que você recebe do que do seu esforço individual. Sem mudanças estruturais profundas, a meritocracia continuará sendo um mito que beneficia apenas uma parcela privilegiada da sociedade.
Gracciene Farias

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

É válido sentir.

Sou feita de silêncios que gritam por dentro e memórias que dançam no tempo. Guardo mais do que falo, observo mais do que explico, e encontro poesia onde outros veem apenas o comum.

Sorrio sem porquê, talvez porque o simples ato de existir já seja razão suficiente. Carrego comigo o peso leve das palavras e o encanto das histórias que elas contam ao passar.

Escrevo sobre o que me toca: os abraços da saudade, os ecos do amor, as raízes da família e as marcas que o tempo traça com cuidado em minha alma.

Vivo para sentir – e sinto profundamente. Porque, no fim, o que importa é sentir. É isso que me mantém viva, e é isso que me inspira a escrever.
Gracciene Farias 
Às vezes, parece que o mundo está cheio de desencontros, não é? Tantas pessoas buscando conexão, mas poucas realmente dispostas a construir algo sólido e verdadeiro. Isso pode ser frustrante, especialmente quando sentimos que estamos sozinhos nessa busca.

Mas talvez o primeiro passo para encontrar o amor que tanto desejamos seja olhar para dentro. É comum sonharmos com alguém que nos complete, mas a verdade é que não somos metades. Somos inteiros. E, quando percebemos isso, quando investimos no nosso próprio amor e bem-estar, algo começa a mudar. A vida ganha um novo tom, e essa transformação atrai pessoas que estão na mesma sintonia.

O amor não é sobre encontrar alguém perfeito, mas sim alguém disposto. Alguém com força, coragem e comprometimento para caminhar ao nosso lado, aceitando os altos e baixos que a vida naturalmente traz.

Eu sei que não é fácil. Vivemos tempos em que muitos têm medo de responsabilidades, medo de amar de verdade. Homens inseguros, presos a dinâmicas familiares que os limitam ou sem ambição para construir algo significativo, são mais comuns do que gostaríamos de admitir. Mas isso não pode ser motivo para você desistir do que merece.

Continue acreditando que o amor que você deseja existe. Invista em você, na sua vida, no que te faz feliz. Porque, quando estamos inteiros, não apenas atraímos alguém, mas também aprendemos a escolher com quem queremos dividir a nossa caminhada.

E, enquanto essa pessoa não chega, celebre a sua jornada. Reconheça as suas conquistas e a força que já demonstrou até aqui. O amor que você busca lá fora sempre começa dentro de você. E o resto? O resto vem no tempo certo.
Gracciene Farias 

Refletir, hesitar e desistir: o peso de amar hoje

Vivemos tempos em que demonstrar amor parece um risco, quase um salto no escuro. Aparentemente, sentir demais é perigoso, e se importar virou sinônimo de fraqueza. Ninguém quer ser chamado de "emocionado". É como se abrir o coração colocasse a pessoa em desvantagem, como se a vulnerabilidade fosse algo a esconder e não a celebrar.

Mas como é possível amar sem mostrar o que se sente? O silêncio virou estratégia, e o afeto, um jogo de cartas marcadas. Não se pode ligar, porque isso demonstra interesse demais. Não se deve perguntar "como você está?", porque é invasivo. Aparentemente, amar hoje é andar sobre ovos, equilibrando cuidado e distância, sem jamais inclinar demais para um lado ou outro.

E assim, muitos se perdem. Quem sente de verdade fica esmagado entre o receio de parecer intenso e a frustração de parecer frio. Se fala, assusta. Se cala, parece desinteressado. E no meio desse paradoxo, o amor vai se perdendo, sufocado por um orgulho que ninguém admite, mas que todos cultivam.

Mas amar não deveria ser tão complicado. Não é sobre invadir o espaço de alguém, mas sobre mostrar que você se importa. Um "bom dia", uma mensagem simples, uma pergunta honesta: essas pequenas coisas são o que constroem um vínculo. Não é estar disponível o tempo inteiro, mas deixar claro que existe um espaço no seu dia para o outro.

Talvez o maior problema do amor moderno não seja a falta de sentimentos, mas o medo de mostrá-los. Sentir virou sinônimo de fraqueza, quando deveria ser motivo de orgulho. Porque o amor, em sua essência, é coragem: a coragem de se expor, de errar, de tentar.

Então, penso, hesito, e por fim, deixo de lado. Mas não o amor em si. Deixo de lado as regras, os jogos e as máscaras. Deixo a ideia de que é melhor fingir do que sentir. Se isso me torna "emocionado", que seja. Prefiro viver com intensidade a me esconder atrás de um muro de orgulho. Porque amar, no fim das contas, é isso: ter a coragem de ser humano em um mundo que insiste em endurecer.
Gracciene Farias 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A vida me fez caminhar por estradas que não escolhi, por becos escuros onde o chão parecia ceder a cada passo. Carrego comigo as marcas de uma batalha invisível, as cicatrizes de uma luta que poucos entendem, mas que moldou cada pedaço do que sou. Desde cedo, aprendi que o amor e a dor caminham juntos. Fui criada por mãos calejadas de cuidado, por uma avó que, sem saber ler ou escrever, leu minha alma e escreveu amor nas linhas da minha existência. Era ela quem enxugava minhas lágrimas, quem fazia do seu abraço o meu refúgio. E foi dela que herdei a coragem de enfrentar o mundo, mesmo quando o mundo me quebrava.

Crescer foi como andar sobre vidro. O peso das expectativas que nunca alcancei, os julgamentos que feriam mais fundo que palavras, e o silêncio de quem deveria estar ao meu lado foram sombras que me acompanharam. Quando a vida me ofereceu o amor de ser mãe, ela também me tirou esse sonho, não uma, mas quatro vezes. Perder um filho que nunca nasceu é perder um pedaço de si mesma é sentir o vazio de um berço que nunca foi preenchido e ouvir o eco de um choro que nunca veio. Essas perdas não me mataram, mas me reconstruíram. Só que cada nova versão de mim mesma parecia mais pesada, mais cheia de cicatrizes que não sei esconder."

"E então vieram as batalhas com meu próprio corpo, as dores que o mundo não vê. Meu sangue, que deveria ser a fonte da vida, tornou-se um inimigo silencioso, criando armadilhas dentro de mim. Já estive à beira do fim, respirando com dificuldade, enquanto meu coração insistia em continuar batendo. Por quê? Talvez porque algo dentro de mim ainda acredita na beleza da vida, mesmo quando ela insiste em me testar.

Hoje, olho para trás e não vejo uma história de vitórias, mas uma história de resistência. Não sou a heroína de um conto de fadas; sou a mulher que carrega seus pedaços e, mesmo assim, escolhe seguir em frente. Meu irmão, meu menino, minha razão de lutar, é o amor que me salva todos os dias. Ele me lembra que, mesmo nas tempestades mais fortes, sempre existe algo a proteger, algo pelo qual vale a pena lutar.

Se você está lendo isso, talvez esteja enfrentando suas próprias tempestades. E eu quero que saiba: você não está sozinho. A dor pode ser insuportável, mas ela também pode ser o solo onde plantamos novas esperanças. Não importa quantas vezes você caia, o importante é que você escolha se levantar. A vida não é sobre nunca sofrer; é sobre encontrar motivos para continuar, mesmo quando tudo parece perdido. Meu motivo é o amor. Qual é o seu?

Gracciene Farias 
O Natal com a minha família

O Natal na minha família sempre foi muito especial, repleto de memórias mágicas e cheias de amor. Era a década de 90, e tudo parecia mais simples, mas também mais intenso. Desde novembro, nossa casa já entrava no clima das festas. Minha mãe adorava organizar o aniversário do meu irmão, que ela comemorava na noite do dia 24 de dezembro, junto com o Natal. Ele faz aniversário no dia 16 de dezembro, mas ela sempre unia as celebrações, criando um momento único. Nós passávamos semanas preparando a festa. Ela cuidava de cada detalhe com carinho: as lembrancinhas, as comidas, as decorações. Minha mãe era apaixonada por festas e colocava seu toque especial em tudo. Sempre havia algo diferente e surpreendente, o que tornava cada ano inesquecível.

Uma vez, eu ganhei um videogame de presente. Eu sempre gostei de videogames e estava tão animada com aquele presente. Era aquele modelo clássico, com uma base reta e um joystick simples, que tinha jogos incríveis como o “pega-ladrão”. Mas, curiosamente, no dia do Natal, eu mal consegui jogar. Meu pai e um amigo dele ficaram tão empolgados que jogaram praticamente o dia todo. O presente era meu, mas ver a alegria deles brincando foi tão divertido que eu nem me importei. Eu me sentia feliz só de assistir, como se a felicidade deles também fosse minha.

As comidas eram um capítulo à parte. Minha mãe e minha avó passavam o dia na cozinha, preparando pratos deliciosos. Feijão tropeiro, salpicão com batata palha e aquele ingrediente pretinho que nem todo mundo gostava(uvas passas). Sempre tinha dois tipos de  carne, porque meu pai fazia questão. E o Chester e o Peru? Esses eram indispensáveis. Até hoje, lembro do meu pai olhando para o Chester e dizendo: “Não pode faltar no Natal, o Peru.” Nunca soube a diferença entre os dois, mas sei que ambos faziam parte da nossa tradição.

Minha mãe era o coração da festa. Leonina, vaidosa e elegante, ela nunca repetia uma roupa em festas. Cada evento era uma oportunidade para ela brilhar. Eu, virginiana, era mais contida e discreta, mas admirava o jeito dela de encher os ambientes com sua energia. Apesar de sermos diferentes, o amor entre nós sempre falou mais alto.

O Natal era mais do que uma data; era um tempo de união, de amor e de construir memórias. Lembro com carinho das risadas, da casa cheia, dos amigos e familiares reunidos, e até do bolo de aniversário do meu irmão, com glacê e temas de futebol ou Natal. Esses momentos continuam vivos no meu coração, como um símbolo de tudo o que importa na vida: a simplicidade, o amor e a família.

Geacciene Farias 

domingo, 15 de dezembro de 2024

Chegar em casa, fechar a porta e encontrar a mim mesma é um privilégio que aprendi a valorizar. É ali, no meu espaço, que tudo faz sentido. Tomar um banho demorado, entrar na cama com os lençóis que escolhi, assistir à minha série favorita, ler o livro que me prende, sem precisar perguntar a ninguém o que prefere fazer... Isso, para mim, é liberdade. É paz. É felicidade.

Já passei tempo demais cedendo. Concordando com o que não acreditava, apenas para evitar discussões. Aceitando críticas disfarçadas de preocupação: "Seu cabelo está grande demais", "Essa roupa não combina com você", "Você devia caminhar mais". Já ouvi tantas vezes o que “deveria” fazer que, por um tempo, quase esqueci o que eu queria. Mas hoje, não mais. Hoje, eu sei quem sou e o que quero.

Eu gosto do meu cabelo assim, gosto das minhas unhas longas, gosto do meu corpo exatamente como ele é. Não preciso de ninguém para me dizer o que devo mudar. Não quero conversas vazias ou relações baseadas em críticas veladas. Não quero discutir com quem quer estar sempre certo, nem me calar para manter uma paz que só existe no silêncio de quem cede. Já vivi isso, e sei o quanto desgasta.

Prefiro a minha solidão ou minha solitude, chame como quiser. Prefiro viajar sozinha, ir ao cinema sozinha, jantar sozinha. Gosto de abrir uma garrafa de vinho, ouvir minha música e apreciar o momento sem interrupções. Para alguns, isso pode parecer solidão, mas para mim é liberdade. É um encontro com minha própria essência.

Se for para dividir minha vida com alguém, que seja com alguém que some, que respeite meu espaço e minha individualidade. Não aceito mais relações rasas ou temporárias. Porque, no final das contas, eu descobri que não há nada mais precioso do que chegar em casa, deitar na minha cama e sentir a paz de ser quem eu sou  inteira, sem precisar me ajustar às expectativas de ninguém.

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...