A saúde pública no Espírito Santo enfrenta desafios significativos que comprometem a qualidade e a eficiência dos serviços prestados à população. Relatos de negligência médica, infraestrutura inadequada e escassez de recursos humanos e materiais são recorrentes, evidenciando a necessidade urgente de reformas estruturais e investimentos substanciais no setor.
Casos de Negligência Médica
Diversos incidentes recentes ilustram falhas graves no atendimento médico no estado:
Morte de Adolescente em Vila Velha: Em abril de 2022, Kevinn Belo Tomé da Silva, de 16 anos, faleceu após esperar aproximadamente quatro horas por um leito de UTI no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba). A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) identificou negligência médica e afastou as médicas plantonistas envolvidas.
Óbito de Criança em Pinheiros: Em março de 2023, Miqueias Ferreira Caetano, de 11 anos, morreu devido a complicações de pneumonia. A família acusou o Hospital Municipal de Pinheiros de negligência no atendimento, alegando demora e falta de cuidados adequados.
Falecimento de Jovem em Ecoporanga: Gessik Dettmann Bello, de 32 anos, morreu em abril de 2023, e sua família acusou um médico da Fundação Médico Assistencial do Trabalhador Rural de Ecoporanga (Fumatre) de negligência, apontando demora no atendimento e falta de ações adequadas diante da gravidade do quadro.
Erro Médico com Bebê em Muqui: Em agosto de 2022, a Justiça condenou o Estado do Espírito Santo e uma médica a indenizarem os pais de um bebê que morreu após ser extubado por engano por uma técnica de radiologia.
Deficiências na Infraestrutura e Recursos Humanos
Além dos casos de negligência, o Espírito Santo enfrenta problemas estruturais significativos:
Redução de Leitos Hospitalares: Entre 2010 e 2018, o estado perdeu 322 leitos de internação pelo SUS, enquanto a população cresceu 14,3% no mesmo período. Apenas 66% dos municípios capixabas possuem leitos de internação hospitalar pelo SUS.
Carência de Leitos no Interior: A falta de infraestrutura nos hospitais do interior sobrecarrega as unidades da Grande Vitória, resultando em longas filas e dificuldades no atendimento de pacientes que necessitam de tratamento especializado.
Problemas na Saúde Mental: Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado revelou falhas críticas na Rede de Atenção Psicossocial, incluindo falta de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em diversos municípios, estruturas físicas inadequadas e equipes incompletas.
Experiência Pessoal
Minha vivência pessoal reflete essas deficiências. Em duas ocasiões, ao buscar atendimento em Prontos Atendimentos (PAs), observei profissionais sem uniforme adequado, técnicos de enfermagem com cabelos soltos e procedimentos críticos sendo realizados por profissionais sem a devida identificação ou vestimenta apropriada. Em uma dessas situações, testemunhei uma paciente sendo entubada por um enfermeiro em trajes civis, evidenciando a falta de protocolos e higiene necessários.
Consequências e Necessidade de Reformas
Essas falhas resultam em desfechos trágicos e minam a confiança da população no sistema de saúde. É imperativo que as autoridades implementem reformas estruturais, invistam em infraestrutura adequada, promovam a capacitação contínua dos profissionais de saúde e estabeleçam mecanismos eficazes de fiscalização e responsabilização.
A saúde é um direito fundamental, e a garantia de um atendimento digno e eficiente deve ser prioridade. Somente com ações concretas e comprometimento será possível reverter esse cenário e assegurar que episódios de negligência e precariedade não se repitam.
Gracciene Farias