terça-feira, 29 de abril de 2025

Nem tudo que muda faz barulho, mas há silêncios que anunciam recomeços.


Às vezes, as maiores transformações acontecem assim: quietas, discretas, quase invisíveis aos olhos de quem olha de fora. Não exigem anúncio, aplauso nem explicação. Apenas acontecem, no ritmo certo, no tempo da alma.

São decisões tomadas no silêncio da madrugada, entre um suspiro e outro. São escolhas pequenas que, somadas, mudam o rumo inteiro da estrada. São despedidas que não são ditas, mas sentidas. Ciclos que se encerram com um olhar diferente, uma resposta que não vem mais, uma presença que se recolhe.

É estranho, mas bonito. Porque crescer também é isso: não precisar provar nada, não ter que contar tudo, não correr pra mostrar a mudança. Às vezes, mudar é só... ir. E se transformar em silêncio é, muitas vezes, o gesto mais poderoso que existe.
Gracciene Farias 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A torta da minha mãe: memória viva e cheiro de aconchego

A torta capixaba, pra mim, tem gosto de infância, cheiro de tempero fresco, barulho de panela borbulhando e coração cheio de amor. Mas a torta que a minha mãe fazia não era como aquelas receitas cheias de frutos do mar nobres. A nossa torta era a torta possível, a que cabia no orçamento e transbordava afeto.

Ela aprendeu com a minha avó, que fazia tudo com as mãos e com o coração. A gente não tinha condição de comprar bacalhau, então usávamos peixe salgado mesmo, sardinha, repolho, palmito, muitos ovos, alho, cebola e tempero verde de monte. O cheiro já invadia o ar antes mesmo de ir pro forno.

Mas o mais bonito era o cenário. Não era na cozinha, era no quintal. Um quintal grande, aberto, com um pé de castanheira enorme, que fazia sombra pra tudo. Embaixo dessa castanheira, tinha uma mesa de madeira grande, de oito lugares, que era o nosso centro de tudo. Era ali que tudo acontecia: preparava, cozinhava, cortava, mexia, contava história e dava risada. Era como se a mesa fosse o altar, e a castanheira, nossa catedral natural.

Na castanheira, ainda tinha um balanço, onde às vezes a gente se distraía enquanto as coisas estavam sendo preparadas. Era uma infância simples, mas tão cheia de significado.

Lembro de ver minha mãe e minha avó cozinhando o palmito e o repolho com paciência, depois moendo tudo naquele moedor antigo pra tirar o excesso de água. Uma mexia, a outra temperava, e eu ali, pequena, observando tudo com olhos encantados.

Enquanto a torta ia pro forno, ninguém conseguia resistir. Sempre tinha aquele pedacinho "pra provar". E mesmo simples, era a torta mais gostosa do mundo. Porque ela era feita com amor, com cuidado, com aquele jeitinho de mãe e avó que transformava o pouco em tudo.
Gracciene Farias 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Eu sou o que restou, e o que resistiu.

Tantas coisas deram errado. Tantas vezes a vida me empurrou para o fundo, me deixou sem ar, sem chão, sem fé.
Mas de alguma forma… eu continuei. Eu fui o que sobrou dos destroços.
Poderia ter me tornado fria, cruel, amargurada. Eu tinha todos os motivos.
Mas, no meio do caos, escolhi sentir. Escolhi ser boa.

A força que carrego não nasceu de coragem.
Ela foi forjada no silêncio dos dias em que ninguém perguntou se eu estava bem.
Nas madrugadas em que a dor era tanta que o travesseiro parecia gritar comigo.
Ela nasceu das quedas que só eu sei o quanto doeram.
Das vezes em que me senti invisível, inútil, exausta…
Das noites em que o mundo pesava tanto sobre mim que até respirar era um esforço cruel.

Sim, sou feita de pedaços, mas pedaços que já se partiram.
Fragmentos de sonhos que quebraram, de amores que se foram, de promessas que não se cumpriram.
E mesmo assim, aqui estou. Carregando meu coração, remendado, mas ainda pulsando.

A vida me ensinou, do jeito mais duro, que o passado não se muda.
Mas o destino… o destino é meu.
E mesmo com medo, com dor, com as mãos trêmulas, eu continuo escrevendo a minha história.

Porque no fim, não se trata do que os outros enxergam.
Se trata do que a gente escolhe ser, quando ninguém está olhando.
E eu escolhi ser luz, mesmo quando só conheci a escuridão.
Gracciene Farias 

terça-feira, 15 de abril de 2025

A Realidade da Saúde Pública no Espírito Santo: A Urgência de um Sistema que Respeite a Vida.


A saúde pública no Espírito Santo atravessa uma grave crise que tem afetado diretamente a vida de milhares de capixabas. A situação precária de muitos Prontos Atendimentos (PA) da Grande Vitória, especialmente após o processo de terceirização da gestão dessas unidades, revela um cenário alarmante: pacientes desassistidos, profissionais despreparados ou despadronizados, ambientes insalubres e, em alguns casos, procedimentos arriscados realizados sem os devidos protocolos.

Nos municípios que compõem a Região Metropolitana, como Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana, relatos de usuários e denúncias públicas têm exposto problemas estruturais que colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Em Vila Velha, por exemplo, após a terceirização dos PA, usuários têm denunciado o agravamento no atendimento, com reclamações que vão desde a longa espera até a falta de médicos, limpeza inadequada e ausência de profissionais devidamente uniformizados. A sensação de abandono passou a fazer parte da rotina de quem precisa de atendimento de urgência.

Em Vitória, a situação tem gerado preocupação entre os servidores da saúde, que se manifestaram contra a proposta de terceirização dos PAs municipais, destacando que as unidades geridas diretamente pela Secretaria de Saúde costumam ter avaliações mais positivas do que as já terceirizadas em municípios vizinhos. Moradores de Viana, Cariacica e Guarapari, onde o modelo terceirizado já está implantado, têm se deslocado até Vitória em busca de um atendimento mais digno, o que sobrecarrega ainda mais o sistema da capital.

Na Serra, a tentativa de terceirização da UPA de Serra-Sede foi fortemente criticada pela sociedade civil organizada e pelo Conselho Municipal de Saúde. Os argumentos se baseiam em experiências anteriores: as duas UPAs do município que já foram terceirizadas são frequentemente alvo de reclamações por parte da população. Em contrapartida, a única unidade sob gestão direta do município é a que recebe os melhores índices de satisfação entre os usuários.

Esse panorama se confirma também através de experiências vividas por cidadãos comuns, como a minha. Em duas ocasiões distintas, precisei buscar atendimento em unidades de pronto atendimento e vivenciei situações inaceitáveis. Profissionais sem qualquer identificação, técnicos de enfermagem com cabelos soltos, ambiente sujo e desorganizado. Acompanhando uma pessoa internada em uma sala semi-intensiva, presenciei um relato que me marcou profundamente: uma senhora teria sido entubada por um suposto profissional de saúde sem uniforme, sem qualquer preparo visível, usando roupas comuns. A entubação, um procedimento que requer urgência, mas também segurança e técnica, foi executada de forma improvisada e alarmante, segundo testemunhas presentes no local.

É preciso compreender que a saúde pública não pode ser tratada como um negócio. A terceirização da gestão de unidades de urgência e emergência, quando não acompanhada de critérios rigorosos de qualidade, fiscalização e compromisso com o serviço público, tem se mostrado ineficaz. O que era para ser uma solução tem, na prática, se transformado em um agravamento do problema.

A população capixaba merece um sistema de saúde humanizado, seguro e eficiente. É fundamental que o Governo do Estado e as prefeituras municipais ouçam os usuários e os profissionais da área antes de implementar medidas que impactam diretamente o direito à vida. Não podemos normalizar a precarização da saúde pública. Onde há risco para o cidadão, deve haver ação imediata do poder público.

O Espírito Santo precisa urgentemente repensar seu modelo de gestão na saúde. A vida não pode ser administrada como uma empresa, nem a dor das pessoas pode ser reduzida a números ou contratos. Saúde é direito, não mercadoria.
Gracciene Farias 
A saúde pública no Espírito Santo enfrenta desafios significativos que comprometem a qualidade e a eficiência dos serviços prestados à população. Relatos de negligência médica, infraestrutura inadequada e escassez de recursos humanos e materiais são recorrentes, evidenciando a necessidade urgente de reformas estruturais e investimentos substanciais no setor.

Casos de Negligência Médica

Diversos incidentes recentes ilustram falhas graves no atendimento médico no estado:

Morte de Adolescente em Vila Velha: Em abril de 2022, Kevinn Belo Tomé da Silva, de 16 anos, faleceu após esperar aproximadamente quatro horas por um leito de UTI no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba). A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) identificou negligência médica e afastou as médicas plantonistas envolvidas. 

Óbito de Criança em Pinheiros: Em março de 2023, Miqueias Ferreira Caetano, de 11 anos, morreu devido a complicações de pneumonia. A família acusou o Hospital Municipal de Pinheiros de negligência no atendimento, alegando demora e falta de cuidados adequados. 

Falecimento de Jovem em Ecoporanga: Gessik Dettmann Bello, de 32 anos, morreu em abril de 2023, e sua família acusou um médico da Fundação Médico Assistencial do Trabalhador Rural de Ecoporanga (Fumatre) de negligência, apontando demora no atendimento e falta de ações adequadas diante da gravidade do quadro. 

Erro Médico com Bebê em Muqui: Em agosto de 2022, a Justiça condenou o Estado do Espírito Santo e uma médica a indenizarem os pais de um bebê que morreu após ser extubado por engano por uma técnica de radiologia. 


Deficiências na Infraestrutura e Recursos Humanos

Além dos casos de negligência, o Espírito Santo enfrenta problemas estruturais significativos:

Redução de Leitos Hospitalares: Entre 2010 e 2018, o estado perdeu 322 leitos de internação pelo SUS, enquanto a população cresceu 14,3% no mesmo período. Apenas 66% dos municípios capixabas possuem leitos de internação hospitalar pelo SUS. 

Carência de Leitos no Interior: A falta de infraestrutura nos hospitais do interior sobrecarrega as unidades da Grande Vitória, resultando em longas filas e dificuldades no atendimento de pacientes que necessitam de tratamento especializado. 

Problemas na Saúde Mental: Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado revelou falhas críticas na Rede de Atenção Psicossocial, incluindo falta de Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em diversos municípios, estruturas físicas inadequadas e equipes incompletas. 


Experiência Pessoal

Minha vivência pessoal reflete essas deficiências. Em duas ocasiões, ao buscar atendimento em Prontos Atendimentos (PAs), observei profissionais sem uniforme adequado, técnicos de enfermagem com cabelos soltos e procedimentos críticos sendo realizados por profissionais sem a devida identificação ou vestimenta apropriada. Em uma dessas situações, testemunhei uma paciente sendo entubada por um enfermeiro em trajes civis, evidenciando a falta de protocolos e higiene necessários.

Consequências e Necessidade de Reformas

Essas falhas resultam em desfechos trágicos e minam a confiança da população no sistema de saúde. É imperativo que as autoridades implementem reformas estruturais, invistam em infraestrutura adequada, promovam a capacitação contínua dos profissionais de saúde e estabeleçam mecanismos eficazes de fiscalização e responsabilização.

A saúde é um direito fundamental, e a garantia de um atendimento digno e eficiente deve ser prioridade. Somente com ações concretas e comprometimento será possível reverter esse cenário e assegurar que episódios de negligência e precariedade não se repitam.
Gracciene Farias 

terça-feira, 8 de abril de 2025

Carta ao Silêncio Que Me Habita

Querido silêncio,

Hoje, senti sua presença mais forte do que nunca. Ela chegou enquanto conversava com um amigo, falávamos de saúde, de cuidado, de ausências. Ele cuida de alguém que ama profundamente, e essa pessoa, que um dia foi ativa, cheia de vida, rodeada de amigos, hoje vive envolta por um vazio. O tempo e a doença afastaram o mundo.

E então, uma pergunta brotou em mim, silenciosa e cruel:
E se um dia for comigo?

Esse medo não é novo. Ele mora escondido em mim há tempos. Não é o medo da dor no corpo, é o medo de não ter a quem chamar. De depender e não encontrar mãos estendidas. De olhar pros lados e não ver ninguém.

Antes, eu tinha minha mãe. Ela era meu ninho. Sabia que, acontecesse o que fosse, ela estaria ali. Hoje, essa certeza partiu com ela. E embora aqui em casa sejamos eu e o Daniel, e ele preencha minha vida com amor, risos e força, eu sei que ele não está aqui para me carregar. Estou criando o Daniel para o mundo.

Com seus treze anos, ele já faz planos, sonha alto, fala de países que quer conhecer, de coisas que deseja viver. E eu incentivo. Porque quero vê-lo voar. Não o crio para ser meu apoio eterno, mas para ser livre. Quero que ele descubra caminhos que eu não conheci, veja paisagens que eu nunca vi, viva tudo o que a vida tem a oferecer.

E é por isso que esse medo cresce em mim. Porque, se um dia eu precisar... quem ficará?

Não quero amarrar ninguém com as correntes da necessidade. Mas às vezes, a solidão pesa. E tudo o que eu peço a Deus é que me mantenha de pé. Que eu continue tendo forças para viver com autonomia e dignidade.

Porque o que mais me assusta não é a enfermidade.
É o abandono disfarçado de esquecimento.
É o silêncio quando eu mais precisar de voz.
Com fé e esperança,
Gracciene Farias

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...