sábado, 25 de janeiro de 2025

Se Amar Primeiro: A Jornada da Autocura e do Amor Próprio


Em 2016, eu estava no fundo do poço. A morte da minha mãe, um acontecimento que mudou minha vida de forma irreversível, foi um golpe difícil de suportar. No mesmo ano, minha vida pessoal também estava em um turbilhão, e eu me vi perdida, sem saber quem eu era ou o que deveria fazer para seguir em frente. Durante esse período sombrio, uma conversa com uma pessoa muito especial marcou um ponto de virada em minha vida.

Ela me perguntou, em meio a tudo aquilo: "Gra, quem é a pessoa que você mais ama? " Eu, com o coração apertado e as emoções à flor da pele, respondi prontamente: "Eu amo o Daniel." Com uma calma que só alguém realmente sábio possui, ela olhou para mim e disse: "Não, você tem que se amar primeiro."

Naquele momento, suas palavras me tocaram profundamente, mas eu não compreendi de imediato o peso delas. Como assim, me amar primeiro? Eu estava no meio de uma dor que parecia não ter fim. A morte da minha mãe, a perda do que conhecia como normalidade, o vazio emocional que me consumia... Como poderia, naquele momento, pensar em mim? Como poderia colocar a mim mesma antes de todos, especialmente quando a dor da perda era tão grande?

Mas ela não estava dizendo que eu deveria abandonar o amor pelos outros ou me fechar para o mundo. O que ela me ensinou foi algo que levaria um tempo para entender: para amar verdadeiramente os outros, eu precisava aprender a me amar em primeiro lugar. Esse amor não é egoísmo. É autopreservação. É cuidar de si mesma para que, ao cuidar dos outros, você tenha o que oferecer.

Passei a refletir sobre isso e percebi que, por muito tempo, fui como uma vela acesa, queimando para iluminar os outros sem me preocupar com a minha própria chama. Eu me perdi tentando atender às necessidades de todos à minha volta, sem perceber que, ao fazer isso, estava me apagando aos poucos. O que aprendi naquele momento foi que o autocuidado não é um ato egoísta, mas sim uma necessidade fundamental. E quando cuidamos de nós mesmos, estamos mais fortes, mais inteiros e mais capazes de ser o apoio que outras pessoas precisam.

O amor próprio é uma prática diária. É escutar o que você precisa, fazer algo de bom para si, respeitar seus limites, cuidar da sua saúde mental e emocional. Às vezes, isso significa dar um passo atrás e se dar o tempo e o espaço necessários para curar as feridas que a vida nos impõe. Esse processo é contínuo e, aos poucos, fui reencontrando a força dentro de mim.

A morte da minha mãe e todos os desafios que enfrentei depois disso me ensinaram que a vida é imprevisível e, muitas vezes, dolorosa. Mas também me mostraram que, quando nos permitimos nos amar de verdade, encontramos forças para seguir em frente, mesmo quando tudo parece desabar. Entendi que não podia continuar sacrificando minha saúde emocional e mental em nome do cuidado com os outros. O cuidado com os outros deve começar com o cuidado de si mesma.

Essa reflexão, iniciada por aquela conversa transformadora, mudou minha vida. Ela me fez perceber que, embora o amor por outras pessoas seja essencial, o amor por si mesma é a base de tudo. Só podemos realmente oferecer amor, apoio e carinho aos outros quando somos capazes de oferecer isso a nós mesmos.

Hoje, olhando para trás, vejo o quanto essas palavras me ajudaram a crescer. Não foi fácil aprender a me colocar em primeiro lugar, especialmente em um momento tão doloroso da minha vida. Mas agora, com mais clareza, entendo o que minha amiga queria dizer: não podemos dar o que não temos. Se não nos amarmos primeiro, não podemos esperar ter amor para dar aos outros. O amor começa dentro de nós, e é a partir dele que conseguimos estender essa energia para quem nos cerca.

Foi assim que, de uma conversa simples e profunda, eu encontrei um caminho para o autocuidado, para a reconexão comigo mesma. As palavras daquela pessoa tão importante ainda ressoam em minha mente e, até hoje, me guiam. Elas se tornaram um lembrete constante de que, para seguir em frente, é necessário primeiro se acolher.

Essa frase, eu ouvi de uma amiga muito importante para mim. Joyce.
Pensar em si mesma primeiro não é um ato de egoísmo, mas de autopreservação. É como aquela instrução em um avião: colocar a máscara de oxigênio em você antes de ajudar os outros. Se você não está bem, emocionalmente, fisicamente ou mentalmente, fica mais difícil cuidar de quem depende de você.

Quando você prioriza suas necessidades, sua saúde e seu bem-estar, você se torna uma pessoa mais equilibrada e presente. Isso, no final, beneficia todos ao seu redor — seus pais, seu filho, amigos e até suas relações de trabalho.

Colocar-se em primeiro lugar não significa abandonar os outros; significa cuidar de você para que possa dar o melhor de si a eles. Afinal, como você pode dar amor, atenção ou suporte se está esgotada, infeliz ou negligenciando a si mesma?
 Gracciene Farias 

domingo, 19 de janeiro de 2025

MAR ( II )

Eu fui concebida no mar,
onde as ondas conhecem o destino
antes mesmo de ele ser escrito.
Nas águas salgadas, meu início foi soprado,
e o vento guardou meu primeiro sussurro.

Eu nasci onde o céu se espelha em azul,
onde o horizonte abraça o mundo.
Minha infância foi de conchas que sussurravam histórias,
de algas que dançavam como irmãs ao meu redor.
Eu corria pelas areias quentes,
meus pés marcando o chão
que logo seria apagado pela maré.

O Baiacu, meu amigo inflável,
era meu companheiro nos dias de aventura.
Com minhas mãos pequenas, eu o segurava,
sentindo sua confiança enquanto o devolvia ao mar.
Era como se ele soubesse que eu também era do oceano,
uma filha das águas.

Mas nem sempre o mar foi abrigo.
Ainda bebê, o sal conheceu meu choro.
No mesmo mar que me deu vida,
quiseram me tirar dela.
Mãos que deveriam proteger tentaram lançar-me
ao fundo do azul sem volta,
mas braços fortes e amorosos me salvaram,
arrancando-me da borda do abismo.
E o mar… o mar testemunhou,
guardou o silêncio como uma mãe que sabe demais.

Hoje, eu volto a ele, não com medo,
mas com a reverência de quem entende
que a vida pode nascer do mesmo lugar
onde quase se desfaz.
O mar é meu lar, meu destino,
e a prova de que, mesmo em sua fúria,
ele nunca deixou de me acolher.
Gracciene Farias 

MAR ( I )

 Eu fui concebida no mar,

nas águas que embalavam os sonhos

antes mesmo de serem meus.

Ali, entre correntes e brisas,

uma vida começou,

moldada pela calma das marés

e pela força do infinito.


Eu nasci onde a espuma beija a areia,

e o horizonte é sempre uma promessa.

Minha infância foi de pés descalços e sal na pele,

de correrias pela beira-mar,

onde as ondas sussurravam segredos

que só as crianças podiam ouvir.


As conchas eram minhas irmãs,

cada uma trazendo histórias em suas curvas.

As algas, minhas guardiãs,

se enroscavam em meus tornozelos

como quem diz: "Fique, você pertence a este lugar."


E o Baiacu…

Ah, ele era meu cúmplice, meu pequeno amigo.

Eu o segurava nas mãos,

sentia sua barriga inflar como um balão,

e com um sorriso, o devolvia ao seu mundo,

sabendo que ele voltaria para mim.


Minha casa era o azul que não termina,

onde o céu e o mar se encontram

sem nunca se separar.

Minha mãe, invisível aos olhos,

se fazia presente em cada onda,

em cada brisa que acariciava meu rosto.

Ela me ensinou que o mar é vida,

e que eu sou feita da mesma água

que se renova a cada maré.


Hoje, quando olho para o oceano,

vejo um reflexo de mim mesma.

Não importa quão longe eu vá,

o mar é minha raiz,

minha casa, meu lar eterno.

Gracciene Farias 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A Mulher e a Ausência do Lazer: Uma Reflexão Sobre o Direito de Existir Além das Obrigações.

Hobby. Essa palavra me pega desprevenida. Alguém me perguntou recentemente se eu tinha um, e a minha resposta veio rápida e seca: “Não.” Não porque não quero, mas porque nem sei o que isso significa para mim. A sensação que fica é a de que não tenho permissão para explorar esse espaço de prazer e leveza. E essa ausência não é só minha. É da minha mãe, da minha avó, e de tantas mulheres que conheço.

Quando somos jovens, talvez tenhamos hobbies. Pequenos prazeres, como dançar, desenhar, ouvir música sem pressa. Mas a vida chega com suas demandas, e o que era lazer se perde no caos. Depois vem o trabalho, o casamento, a casa, os filhos, as contas a pagar. De repente, o dia está lotado de tarefas e responsabilidades. E aí, onde cabe um hobby?

A mulher vive para todos, menos para si. Aprendemos isso pela repetição: vimos nossas mães e avós sacrificarem seus momentos, suas vontades, seus sonhos, em prol da família. A lista de coisas para fazer nunca acabava, e elas acreditavam que tirar um tempo para si era egoísmo. Hoje, repetimos esse padrão sem nem perceber. Fazemos tudo ao mesmo tempo, equilibrando mil pratos, mas esquecemos que também precisamos de tempo para respirar, para existir.

O mais triste é que, muitas vezes, nem sabemos mais o que gostamos. Perguntar “qual é o seu hobby?” se torna um convite incômodo para olhar para dentro e perceber que não temos uma resposta. Porque fomos educadas a acreditar que o tempo para nós mesmas é um luxo, e não uma necessidade.

Mas é urgente mudar essa narrativa. Precisamos reivindicar o direito de ter um hobby. Não para sermos mais produtivas ou para agradar aos outros, mas para nos reconectarmos com quem somos. Pode ser resgatar algo que amávamos na juventude ou descobrir algo completamente novo. Talvez seja ler sem culpa, pintar sem técnica, correr sem objetivo. O hobby é o espaço onde a mulher pode existir sem cobranças, sem listas de tarefas, sem prazos.

Eu também quero descobrir o meu hobby. Quando eu descibri venho aqui contar para vocês.
Quero aprender a me permitir. Não é fácil, mas é necessário. Porque nós, mulheres, merecemos mais do que viver para os outros. Merecemos viver por nós mesmas.
Gracciene Farias 

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...