Quando 2026 chegar ao fim, não vou comemorar tudo o que vivi. Existem anos que passam por nós, e existem aqueles que nos atravessam, deixando marcas em lugares que ninguém consegue enxergar. Este foi o ano em que conheci profundezas de mim que jamais desejei visitar. O ano em que descobri que o inferno nem sempre é um lugar distante; às vezes, ele se instala silenciosamente dentro da nossa própria vida, nos lugares onde antes acreditávamos estar protegidos. Em 2026, eu morri três vezes. Fui ao inferno três vezes e, de alguma maneira, encontrei o caminho de volta. Na primeira, descobri que até aquilo que nossas mãos mais protegeram pode, um dia, nos ensinar a dimensão da dor. Na segunda, compreendi que existem ausências capazes de ocupar uma casa inteira, transformar o silêncio em sofrimento e fazer com que a saudade se torne uma presença constante. Na terceira, vi desmoronar um futuro que eu já havia construído dentro de mim, com a delicadeza de quem acreditava, finalmente, ter encontrado um lugar para permanecer. E talvez essa última tenha levado algo que as outras duas ainda tinham deixado intacto: a esperança de que, depois de tantas tempestades, eu pudesse simplesmente descansar.
Durante todo esse tempo, vivi como quem está presa dentro de um pesadelo. Daqueles em que o coração dispara, o medo paralisa e, mesmo em meio ao desespero, existe uma certeza silenciosa de que logo vamos acordar. Eu esperei por esse despertar. Esperei abrir os olhos e encontrar a vida exatamente onde a havia deixado, com seus afetos, suas promessas, seus pequenos rituais e tudo aquilo que um dia me fez acreditar que algumas coisas eram permanentes. Mas eu nunca acordei. Não havia sonho algum. Era a realidade acontecendo diante dos meus olhos, enquanto eu tentava compreender como tantas coisas podiam se desfazer em tão pouco tempo. O que mais me assustava não era apenas o que estava perdendo, mas perceber que, a cada acontecimento, uma parte de mim também desaparecia. E assim fui aprendendo a conviver com uma espécie de luto que não se explica facilmente: o luto pelo que aconteceu, pelo que deixou de acontecer, pelo que poderia ter sido e, sobretudo, por quem eu era antes de tudo isso. Porque existe uma saudade muito particular, e talvez a mais dolorosa de todas, que é sentir falta de si mesma enquanto ainda se está aqui.
Eu, que tantas vezes fui abrigo, encontrei-me procurando um lugar onde pudesse repousar o meu próprio coração. Passei tanto tempo tentando sustentar o mundo ao meu redor que, quando o meu começou a desmoronar, já não sabia onde encontrar minhas próprias forças. Houve noites em que o silêncio parecia ter peso, manhãs em que levantar exigia mais coragem do que qualquer grande batalha e dias em que meu maior esforço foi simplesmente continuar. Chorei pelo que perdi, pelo que não consegui preservar e por tudo aquilo que precisei aceitar sem jamais ter desejado. Descobri que nem sempre o amor é suficiente para impedir uma despedida, que nem toda escolha deveria ser exigida e que existem encruzilhadas nas quais qualquer caminho deixa uma parte de nós para trás. Eu não queria muito da vida. Nunca quis. Queria a tranquilidade das coisas simples, a segurança de alguns abraços, a permanência de determinados afetos e a possibilidade de envelhecer sem precisar reconstruir meu mundo tantas vezes. Queria apenas que, depois de tantos anos enfrentando tempestades, a vida me permitisse conhecer a calmaria. Mas 2026 me ensinou, da maneira mais dolorosa, que nem tudo o que amamos conseguimos manter perto, nem tudo o que sonhamos nos é permitido viver e nem todas as histórias terminam onde imaginávamos.
Não quero transformar minhas dores em uma bonita história de superação, porque seria injusto comigo mesma fingir que atravessei tudo isso sem me despedaçar. Não saí ilesa. Existem marcas que o tempo talvez suavize, mas que jamais deixarão de fazer parte de quem me tornei. A mulher que começou 2026 tinha sonhos, certezas e uma maneira diferente de olhar para o futuro. A que escreve estas palavras carrega perguntas sem respostas, saudades que não sabe onde colocar e uma tristeza que, em alguns dias, ainda parece maior do que ela. Mas carrega também um desejo silencioso de reencontrar a própria vida. Não quero agradecer pelas dores, tampouco acreditar que precisava sofrer tanto para aprender alguma coisa. Eu teria preferido mil vezes aprender através do amor, da delicadeza e da paz. Quando este ano terminar, não vou celebrar as três vezes em que morri por dentro. Vou reconhecer o quanto me custou continuar existindo depois de cada uma delas. Porque eu fui ao inferno três vezes, mas ninguém, além de mim, conhece a extensão do caminho que precisei percorrer para voltar. E se existe algo que ainda desejo, é que a vida seja gentil comigo daqui para a frente. Que eu não precise mais confundir amor com renúncia, força com sofrimento ou permanência com sacrifício. Que um dia eu consiga dormir sem desejar acordar em outra realidade, olhar para trás sem sentir o coração apertar e reconhecer no espelho não apenas a mulher que sobreviveu, mas aquela que voltou a viver. Porque em 2026 eu morri três vezes. E, embora algumas partes de mim tenham ficado para sempre pelo caminho, ainda existe aqui dentro uma mulher que merece conhecer a felicidade sem precisar atravessar o inferno para encontrá-la.
Gracci Farias ❤️
Nenhum comentário:
Postar um comentário