domingo, 18 de outubro de 2026

O FUNDO DO POÇO TAMBÉM TEM SILÊNCIO


Eu nunca imaginei que chegaria a este ponto da minha vida. Hoje, quando olho ao meu redor, tenho a sensação de estar no fundo de um poço. E aqui é escuro. Tão escuro que, às vezes, já não consigo enxergar nem a mulher que um dia fui. Não sei exatamente quando comecei a cair. Talvez tenha sido aos poucos, em cada escolha que fiz, em cada vez que deixei de pensar em mim, em cada situação que aceitei, em cada sonho que adiei e em cada pessoa que coloquei à frente das minhas próprias necessidades. Durante muito tempo, procurei explicações para tudo o que aconteceu comigo, mas chegou um momento em que precisei olhar para a minha própria história e reconhecer que muitas das situações que vivo hoje também são consequências das minhas escolhas. Fui eu quem decidiu seguir determinados caminhos. Fui eu quem acreditou, insistiu, permaneceu e, muitas vezes, abriu mão de si mesma. Não posso voltar no tempo. E talvez uma das coisas mais difíceis da vida seja descobrir que algumas escolhas continuam produzindo consequências muito depois de terem sido feitas.

Mas existe algo que me machuca ainda mais do que os arrependimentos: a solidão. Não aquela solidão bonita dos livros, em que a gente aprende a apreciar a própria companhia. Estou falando da solidão que assusta. Da solidão de estar dentro da própria casa e pensar: se alguma coisa acontecer comigo agora, para quem eu vou ligar? Quem virá? Quem vai perceber? Quem realmente se importa? E o mais doloroso é não conseguir encontrar uma resposta. Hoje compreendo que família é uma das maiores riquezas que alguém pode ter. E como existem pessoas que não fazem ideia do privilégio que é ter alguém para chamar de seu. Ter uma mãe que pergunta se você comeu, um irmão que liga sem precisar de motivo, alguém que percebe seu silêncio, alguém que aparece quando você não tem forças para pedir ajuda. Parece tão pouco, mas, para quem sente falta, é quase tudo. Eu passei boa parte da minha vida tentando ser presença na vida das pessoas, tentando cuidar, proteger, acolher, resolver problemas e não abandonar quem precisava de mim. E agora, quando olho para a minha própria vida, uma pergunta não sai da minha cabeça: quem ficou para cuidar de mim?

Não quero parecer ingrata com a vida. Sei que existem pessoas enfrentando dificuldades enormes, mas também sei que a dor dos outros não diminui a minha. E a minha está pesada. Muito pesada. Tem dias em que acordo e sinto que já estou cansada antes mesmo de começar. Tem noites em que o silêncio da casa parece fazer barulho. Tem momentos em que olho para tudo o que construí, para tudo o que perdi, para tudo o que ainda preciso enfrentar, e simplesmente não sei de onde tirar forças. Eu estou no fundo do poço. E aqui é tão escuro, tão escuro, que às vezes não consigo distinguir o medo da tristeza, o arrependimento da saudade, o cansaço da vontade de desistir de lutar contra tudo. Existem momentos em que penso que só tenho dois caminhos: continuar afundando sob o peso de tudo isso ou, de alguma maneira que ainda desconheço, conseguir sair daqui restaurada. E a verdade é que, em alguns dias, estou tão exausta que nem consigo saber o que quero. Não porque a minha vida não tenha valor, mas porque tem sido difícil demais carregá-la dessa maneira. Eu queria poder descansar sem sentir culpa. Queria acordar um dia sem ter tantas preocupações esperando por mim. Queria receber uma ligação de alguém que não precisasse de nada, que apenas quisesse saber como estou. Queria um abraço que não exigisse explicações. Queria, pelo menos uma vez, não precisar ser a pessoa que entende tudo, que suporta tudo, que resolve tudo. Eu queria que alguém percebesse que a mulher que sempre tentou ser forte também está precisando de socorro.

Talvez eu tenha errado muito. Talvez tenha confiado demais, amado demais, esperado demais. Talvez tenha deixado de escolher a mim mesma em momentos em que deveria ter feito exatamente isso. Mas estou começando a entender que reconhecer meus erros não significa que preciso passar o resto da vida me castigando por eles. Eu já perdi tanta coisa. Não quero perder também a capacidade de olhar para mim com um pouco de compaixão. Não sei quanto tempo essa escuridão vai durar. Não sei como será o amanhã. Não tenho uma frase bonita de superação para terminar este texto. Não posso dizer que tudo vai ficar bem quando, neste exato momento, nem eu sei como as coisas vão ficar. O que tenho é a verdade de uma mulher profundamente cansada, tentando compreender como chegou até aqui. Uma mulher que sente falta de coisas que dinheiro nenhum compra: presença, família, segurança, acolhimento e amor. Uma mulher que, apesar de tudo, ainda gostaria de descobrir como é viver sem carregar o mundo inteiro nas costas. Hoje, eu não tenho uma história de superação para contar. Tenho uma história de dor que ainda está acontecendo. E talvez seja isso que eu mais precise que as pessoas entendam. Nem todo mundo que continua de pé está bem. Nem todo sorriso significa felicidade. Nem toda mulher que aprendeu a sobreviver sozinha escolheu a solidão. E nem toda pessoa que parece forte sabe como pedir ajuda. Eu ainda estou aqui, tentando encontrar alguma luz. E, por enquanto, essa é a única verdade que consigo escrever.

Gracci Farias 

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