segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Beijo de Chuva


Era 2001. Eu estava na faculdade, me descobrindo, tentando entender quem eu era. Sempre fui tímida, mas daquela timidez extrema, arisca até. Talvez por isso tenha demorado a perceber o que estava acontecendo.

Ele era irmão de uma amiga da turma. Toda vez que ia buscá-la, oferecia carona. No começo, era só isso. Mas, aos poucos, as caronas ficaram frequentes demais. Ele começou a aparecer mais, como quem não queria nada, e, sem perceber, nos tornamos amigos. Amizade essa que foi crescendo na cumplicidade silenciosa de quem respeita o tempo do outro.

Naquela época, não havia celular como hoje. Eram mensagens de texto, curtas, sem emojis, sem áudios. Uma noite, a irmã dele não foi à aula, mas ele me mandou uma mensagem mesmo assim. "Vai pra UFES hoje?"

Respondi que sim. "Posso te buscar?"

Eu hesitei. Disse que não precisava, que iria de ônibus. Mas ele insistiu. "Já vou estar por perto. E estou de moto."

Fiquei em silêncio por um instante, olhando para aquela mensagem. Moto. Chuva. Frio. Mas, na minha cabeça, um pensamento vitorioso surgiu: pelo menos não vou de ônibus.

Marcamos na frente da passarela. Ela nem existe mais, mas naquela época era ponto de encontro de tantas histórias. Quando ele chegou, estava completamente encharcado. A chuva caía forte, formando poças no asfalto, escorrendo pelo rosto dele, pingando do cabelo molhado.

"Vamos esperar um pouco," ele disse. "Manda mensagem pro seu pai avisando que vai de carona comigo."

Meu pai era ciumento. Ligou na mesma hora. "Como assim vai de moto? Por quê? Por que não está de carro? 

Tentei explicar, meio sem paciência, meio rindo da preocupação exagerada. Disse que a chuva ia passar, que logo estaríamos a caminho. E, enquanto eu falava ao telefone, ele me olhava. Um olhar diferente. Um olhar que me atravessava.

Não sei o que aconteceu. Não sei se foi o frio, a chuva, o jeito dele me olhar, ou se foi simplesmente inevitável. Mas, naquele instante, ele me beijou.

Foi o meu primeiro beijo.

Um beijo molhado, frio, inesperado. Um beijo que paralisou o tempo e fez a chuva parecer parte da cena, como se o universo inteiro tivesse conspirado para aquele momento acontecer.

Eu nunca mais senti outro beijo assim. Beijos são beijos, cada um tem sua história, seu sabor, seu tempo. Mas aquele… aquele foi único. Foi um beijo de amor, roubado pelo destino e selado pela chuva.

Nós nos amamos por anos. Entre idas e vindas, entre distâncias e desencontros, entre a família dele e os sonhos que construímos juntos. Sofremos muito. Lutamos. Achei que seria para sempre.

A vida, no entanto, nem sempre segue os roteiros que escrevemos. Ele foi trabalhar em outro estado. A mãe dele era possessiva. Barreiras invisíveis que nos afastavam, mesmo quando nossos corações gritavam um pelo outro.

Eu achei que me casaria com ele. Que teríamos filhos. Que aquele amor, o primeiro, também seria o último. Mas a realidade foi diferente. E, de tudo que vivemos, ficou a certeza de que ele foi meu primeiro tudo.

E eu? Eu fui o único amor dele.

Pelo menos, gosto de acreditar que fui.

Amor também é ficar.

O amor, para mim, nunca foi um conto de fadas. A vida me ensinou muito cedo que amar também é atravessar tempestades. Carrego cicatrizes in...