quarta-feira, 2 de maio de 2018

Alto Boa Vista


Morar no Alto Boa Vista é despertar em uma pintura viva, onde o pincel do universo, cada manhã, colore o horizonte como uma tela feita para ser admirada. Aqui, o mar… Ah, o mar… ele sempre rouba a cena, como o protagonista silencioso de um espetáculo eterno. Esse bairro não poderia ter outro nome, pois guarda a vista mais deslumbrante que meus olhos já puderam alcançar. Daqui, vejo a Baía de Vitória estendida em toda a sua quietude, uma imensidão que parece respirar devagar, com barcos – grandes, pequenos – deslizando no ritmo de outra dimensão, onde o tempo se dissolve, como se o próprio mar convidasse a desacelerar.

Todas as manhãs, meu ritual começa ao abrir a janela. E lá está ele: o mar, imenso, profundo, com um azul que não encontro em lugar nenhum. Tomo meu café com ele, como quem compartilha o silêncio com um amigo fiel. Meu primeiro sorriso do dia é para ele, que me devolve em paz tudo aquilo que só aqui consigo sentir. Quando o sol desponta das montanhas de Vitória, o céu e as águas se tingem de um dourado raro, uma dádiva que sinto ser apenas minha, como se o amanhecer fosse um segredo entre nós.

No Alto Boa Vista, o mar não é só paisagem; é confidente, é consolo. Quando a tristeza me alcança, lanço meu olhar nas ondas, que carregam uma calma antiga, capaz de serenar qualquer alma inquieta. E quando a alegria me transborda, é o mar que reflete essa felicidade, espelhando as luzes do novo dia, como se ele me dissesse que a verdadeira alegria é partilhar o instante com o infinito. Ele me acolhe em todas as fases, seja na brisa ou na tempestade, como um amigo que está ali em todos os momentos.

Viver aqui é como habitar um verso, onde o vento sopra histórias e o horizonte abre espaço para sonhos sem fim. Cada pôr-do-sol é um espetáculo em que as cores dançam, e cada amanhecer é uma promessa de recomeço. No Alto Boa Vista, aprendi que, ao olhar para o mar, vejo o reflexo da eternidade. Ele me ensina sobre a grandeza do mundo e sussurra, até nos dias difíceis, que há sempre beleza à espera, logo ali, do lado de fora da janela.

Gracciene Farias 

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