sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Na hora de pôr a mesa, éramos seis. Às vezes, sete. Outras, oito. Dependia de quem estava na casa dos meus pais. Minha mãe era o tipo de pessoa que fazia questão de encher a mesa, de abrir espaço, de tornar tudo maior do que parecia caber. “Sempre dá para incluir mais um”, ela dizia, ajeitando tudo com uma rapidez que me fascinava.

Minha avó era igual. A cozinha parecia ser o território onde ela reinava, e cada prato que saía de lá carregava amor, histórias, e aquele tempero que só as mãos dela sabiam dar. Ela mexia nas panelas com uma calma que eu invejava, cantarolando baixinho, enquanto o cheiro do refogado espalhava aconchego pela casa. Minha mãe era o oposto. Fazia tudo rindo alto, se apressando, contando histórias e gesticulando, como se cozinhar fosse uma festa que nunca terminava. E, quando terminava, o resultado era sempre o mesmo: a mesa cheia, a casa cheia, os corações cheios.

No Natal, minha mãe dava um jeito de reunir todos. Os primos, os tios, quem quer que pudesse aparecer. Era uma confusão de vozes, risos e talheres batendo nos pratos. Minha mãe se animava como se aquele fosse o melhor dia do ano. Mas eu? Eu ficava no quarto, quieta, alheia à euforia. Não gostava dessas datas. Descia só para comer e voltava logo depois. Observava tudo de longe, como se não pertencesse àquele momento.

Hoje, penso se eu já estava me preparando para o vazio que viria. Aos poucos, a mesa foi mudando. Meu pai saiu de casa. Meus pais se separaram. Meu irmão ficou em uma casa, eu fui para outra com minha mãe. Depois, chegou Dani, trazendo um pouco de alegria em meio ao caos. Mas não foi suficiente para impedir o que estava por vir.

Minha mãe se foi. E com ela, o barulho alegre da cozinha, as histórias contadas entre uma panela e outra. Depois, minha avó partiu também. Com ela, o sabor da comida feita com amor, a calma, o carinho nas mãos que transformavam ingredientes simples em memórias eternas.

Hoje, somos dois: eu e Dani. A mesa parece enorme para tão poucos. O silêncio preenche os espaços que antes eram ocupados por vozes e risadas. Mas, na minha mente, ela continua cheia. Vejo minha mãe correndo pela cozinha, rindo. Vejo minha avó cantarolando enquanto mexe na panela. Sinto o cheiro da comida, o calor do lar que não existe mais.

Sinto falta de tudo isso. Da casa cheia, dos almoços de domingo, do tumulto das conversas. Sinto falta de uma família que era minha, mas que, aos poucos, se desfez.

Eu nunca gostei de participar, e agora isso me dói. Será que eu sabia, lá no fundo, que estava me preparando para ficar sozinha?

A mesa está posta. Mas não sei mais para quem. Sobrou apenas a saudade. E uma vontade imensa de sentar ali, só mais uma vez, com todos eles, como era antes.
Gracciene Farias 

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